• Professor Wagner Lacerda

1967: o ano que não pode acabar nunca!

A riquíssima arte brasileira traz muitas novidades a cada ano que passa. Mas alguns deles parecem ser mais significativos em seu conjunto histórico. Seja por uma feliz coincidência, por uma conjuração de fatores ou por um marco capital, vários desses anos ocupam o topo da história artística nacional e ficam marcados no imaginário da crítica e do público. Assim foi, por exemplo, com 1928: Mário de Andrade publicou Macunaíma, Oswald de Andrade lançou o Manifesto Antropófago, Tarsila do Amaral pintou o Abaporu.

E, quase 40 anos depois, assim foi com 1967. O clima político no país já se encontrava convulsionado sob o domínio do regime militar, ainda que a censura não fosse tão impiedosa – ela veio a se tornar mais rígida após a decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968. Então, a produção artística brasileira florescia com vigor, diversidade e pluralidade. Pode-se pensar em 1967 como o ponto máximo desse florescimento.

Primeiramente, foram as artes plásticas. Em abril, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro sediou a exposição “Nova Objetividade Brasileira”. Diversas vertentes da arte vanguardista nacional estavam presentes e grande parte dos seus maiores talentos, também: dentre eles, Cildo Meireles, Nelson Leirner e Hélio Oiticica. Foi nesse evento que Oiticica apresentou sua instalação Tropicália, um labirinto de madeira que reproduzia a natureza e a cultura brasileiras e que, meses depois, daria nome ao mais marcante movimento musical do país.

No dia 2 de maio, foi a vez do cinema. Chegava às telas a mais inventiva e polêmica criação do genial Glauber Rocha, Terra em Transe, consolidando a estética e a postura política do Cinema Novo, movimento nacional herdeiro do Neorrealismo Italiano e da Nouvelle Vague francesa – em seu livro Verdade Tropical (1997), Caetano Veloso conta o quanto o filme de Glauber o impressionou. E, em 29 de setembro, o teatro também marcou posição: o Teatro Oficina, comandado pelo lendário José Celso Martinez Corrêa, levava para o palco a vanguardista O Rei da Vela, escrita por Oswald de Andrade em 1933, publicada em 1937 e nunca antes representada. Foram 30 anos de espera até a antropofágica criação do escritor paulista ganhar vida pelas mãos de Zé Celso.


Cartaz original de Terra em Transe


Faltava a música. E ela chegou para a festa entre os dias 30 de setembro e 21 de outubro, no palco do Teatro Record Centro – hoje, Teatro Renault –, em São Paulo. O III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record colocou frente a frente boa parte da nata da canção nacional: a composição “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam – interpretada pelo primeiro e por Marília Medalha venceu a disputa. O terceiro lugar ficou com Chico Buarque, que interpretou sua “Roda Viva” juntamente com o MPB4. Ora, e em segundo e quarto lugares? Respectivamente, as criações de Gilberto Gil – “Domingo no Parque” – e Caetano Veloso – “Alegria, Alegria”. Este, acompanhado do conjunto argentino Beat Boys, e aquele, ao lado da banda Os Mutantes – liderada por Rita Lee –, apresentaram para o Brasil o Tropicalismo, movimento musical que tem o pensamento antropofágico de Oswald na raiz e o nome da obra de Oiticica como marca de criatividade, inovação e brasilidade.


Caetano Veloso no Festival da Record

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