• Raphael Uba de Faria

A Conquista do Polo Sul – Parte III: Glória e Tragédia no Caminho de Volta

Se atingir o Polo era um grande desafio, voltar era ainda mais difícil, considerados o cansaço, o longo tempo de exposição ao frio e a menor quantidade de suprimentos disponíveis. Amundsen sabia muito bem dos perigos e, na carta que deixou para Scott, confiava a ele o anúncio de sua conquista ao rei Haakon VII, caso seu grupo não conseguisse retornar ao Framheim, seu acampamento base. Dizia, também, que deixavam alguns suprimentos dos quais os ingleses poderiam usufruir.



O Grupo de Scott no Polo Sul, com a tenda e a bandeira norueguesas

Direitos de Imagem: Domínio Público

Fonte: https://www.coolantarctica.com/Antarctica%20fact%20file/History/race-to-the-pole-amundsen-scott.php


Após três dias completos fazendo medições para determinar a localização precisa do Polo Sul, Amundsen iniciou a jornada de volta no dia 18 de Dezembro. Puxado pelo restante de seus bravos cães (alguns, como era de praxe, foram abatidos para alimentar a expedição), ele definiu que percorreriam vinte e oito quilômetros por dia, andando sempre no período da “noite”, quando o sol estaria em suas costas, uma vez que, nessa época do ano, o sol não se põe na Antártica. Encará-lo de frente era um grande risco, pois o sol, refletido sobre a neve e o gelo, atinge os olhos com tal violência que pode causar cegueira temporária, a cegueira da neve.

O Polo Sul está localizado a 2.800 metros de altitude em relação ao nível do mar, em um planalto, conhecido como Planalto Antártico (Amundsen o renomeou para Planalto Rei Haakon VII, mas ele continuou conhecido pelo seu nome anterior). Considerando o clima, a enorme distância do litoral até o Polo (mais de 1.500 quilômetros, tanto da base britânica quanto da norueguesa), a limitação de água e comida e o ar rarefeito, fica fácil entender a grandiosidade da conquista dos grupos de Amundsen e Scott.

Além dos cães, que puxavam os trenós, os membros da expedição norueguesa também dispunham de esquis e eram peritos em sua utilização, o que facilitava, e muito, o deslocamento, principalmente nos trechos de descida. No ponto de descida do planalto, Wisting e Hanssen conduziram os trenós com todo o cuidado para evitar as fendas no gelo, enquanto Amundsen, Hassel e Bjaaland percorrem o trajeto a toda velocidade e fizeram os preparativos para esperá-los. Planalto para trás e tempo bom à frente, Amundsen dobrou a velocidade da marcha e os homens passaram a percorrer cinquenta e seis quilômetros por dia, seguindo marcadores que haviam colocado no gelo durante a ida. Chegaram ao Framheim no dia 25 de Janeiro, dez dias antes do previsto, após percorrerem 3.440 quilômetros, contados ida e volta. A expedição havia sido um esplendoroso sucesso! Para Scott, entretanto, o retorno seria completamente diferente.

No Polo, Scott também fez suas medições, cravou a Union Jack (nome da bandeira do Reino Unido) no solo, colocou a carta de Amundsen endereçada a Haakon VII no bolso, pegou as provisões deixadas pelo norueguês e partiu no dia seguinte à sua chegada.

Seus homens, que haviam caminhado por quilômetros puxando os trenós sem ajuda de cachorros, estavam exaustos. Eles também possuíam esquis, mas sua destreza com o equipamento estava muito distante da dos noruegueses. Quando se aproximavam da Geleira Beardmore, Scott começou a ficar seriamente preocupado com as condições de seu grupo. Evans tinha muitas queimaduras pelo frio e uma ferida que não curava nas mãos e Oates estava com os pés debilitados e não conseguia caminhar direito. Para piorar a situação, tinham pouca comida disponível e precisaram racioná-la, o que piorou as condições de Evans, mais alto e mais pesado que os outros homens.

O grupo britânico chegou à geleira no dia 7 de Fevereiro e iniciou sua descida. Scott, que, ao contrário de Amundsen, colocava a missão científica em um plano elevado, determinou que amostras geológicas fossem recolhidas pelo grupo, o que retardou o retorno e aumentou o peso nos trenós. Eles também estavam com dificuldades para encontrar os depósitos construídos na ida. Com a saúde cada vez pior, Edgar Evans entrou em coma e faleceu no dia 17 do mesmo mês, ainda na travessia da Geleira Beardmore.

Então, o que parecia não poder piorar, piorou. Após concluírem a descida da geleira, o clima mudou radicalmente e eles tiveram que enfrentar situações extremas, com fortes tempestades de neve, que, além da queda de temperatura, retardavam ainda mais a locomoção, pois, agora, pisavam sobre neve fofa. Em alguns dos depósitos, a quantidade de combustível para o fogo tinha diminuído, provavelmente por evaporação. E depósito após depósito, não havia sinal dos cães, que Scott havia determinado que Edward Evans (aquele, que retornou ao acampamento base antes da última etapa da viagem para o Polo) enviasse de volta para encontrar o Grupo Polar no caminho.

O avanço continuava lento e Oates precisava ser escorado pelos outros homens para conseguir caminhar. No dia 17 de março, um mês após a morte de Evans, o grupo se abrigava de mais uma terrível tempestade de neve em um dos depósitos, quando Oates, de repente, disse a Scott: “vou lá fora, mas posso demorar algum tempo”. Ele deixou o abrigo e nunca mais voltou. Ao que tudo indica, ele, ciente do atraso que causava ao grupo, decidiu se sacrificar para salvar seus companheiros.

Passada a nevasca, Scott, Wilson e Bowers, os membros restantes do grupo, continuaram letamente sua jornada, mas logo no dia 20 do mesmo mês, tiveram que parar mais uma vez, quando outra tempestade de neve chegou. Scott registrou em seu diário que a comida havia acabado e se lamentava por não encontrar os cães. Durante os dias que se seguiram, os três tentaram sair do acampamento para seguir viagem, mas as condições eram tão extremas que foi impossível. No dia 29, Scott fez uma anotação em seu diário e no mesmo dia, ou no dia seguinte, todos os membros da equipe morreram de frio a apenas 18 quilômetros de distância do próximo depósito, chamado de One Ton.


Percursos de Amundsen, em vermelho, e Scott, em verde, com os locais das mortes dos membros do Grupo Polar.

Direitos de Imagem: Domínio Público

Fonte:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Antarctic_expedition_map_(Amundsen_-_Scott)-en.svg


Quanto aos cães, soube-se que, quando retornava ao acampamento base, Edward Evans adoeceu, com escorbuto e não conseguia andar. Alguns membros de seu grupo foram ao acampamento e formaram uma equipe de salvamento, que resgatou Edward. Entretanto, quando ele chegou ao acampamento, acabou não dando a ordem para o envio dos cachorros de volta para o sul.

No dia 4 de Março, um membro da expedição, Cherry-Garrad, foi até o One Ton para reabastecê-lo com provisões. Não encontrado Scott, ele esperou até o dia 10, mas como suas próprias provisões começavam a esgotar e ele não tinha autorização para consumir as destinadas ao Grupo Polar, ele regressou ao acampamento base. Quando retornou, sem notícias do grupo, o medo se espalhou pelo acampamento, e começaram a organizar expedições de busca. A primeira, liderada pelo cirurgião Edward Atkinson, membro científico da expedição, partiu no dia 26 de Março, mas ficou presa na mesma tempestade de neve que impedia o avanço de Scott. Eles tiveram que retornar ao acampamento. O verão já havia terminado e Atkinson, observando as condições climáticas, teve certeza de que o Grupo Polar não conseguiria retornar.

Durante todo o outono e inverno não foi possível enviar expedições de resgate. Apenas a 26 de Outubro Atkinson conseguiu partir novamente, encontrando Scott, Wilson e Bowers, congelados, no dia 12 de Novembro. Três dias depois, encontraram Oates na neve. Lendo o diário de Scott e sabendo da morte de Evans, a equipe de resgate retornou ao acampamento e se preparou para voltar ao Reino Unido.


Depósitos da Expedição Terra Nova com marcação do último acampamento (Last Camp) do Grupo Polar

Fonte: http://www.ronwatters.com/OLMapScott.html


A essa altura, Amundsen já havia retornado e revelado sua conquista ao mundo. Ele foi convidado a realizar palestras em várias partes do mundo e lamentou profundamente a morte de Scott quando foi informado sobre ela. As circunstâncias acabaram por transformar o inglês em um mártir das explorações, e muitos acusaram Amundsen “roubar” a conquista do Polo Sul ao organizar uma expedição extremamente prática, sem outro objetivo que não o de chegar ao Polo, enquanto Scott participava de uma expedição científica e não deixou de executar missões dessa natureza em nenhum momento. O fato é que a expedição de Amundsen foi extremamente bem planejada e foi mais feliz ao iniciar a viagem ao Polo a partir do acampamento base mais cedo. Seus homens estavam mais habituados a situações extremas e eram muito habilidosos na utilização dos cães e dos esquis. Ainda assim, a expedição de Scott foi extremamente importante do ponto de vista científico, gerando dados que seriam fundamentais para a expansão do conhecimento humano e para as futuras expedições à Antártica.

Nos anos que se seguiram, Amundsen continuou com suas explorações, que só foram interrompidas durante a Primeira Guerra Mundial, período em que ele forneceu suprimentos para navios e acabou ganhando bastante dinheiro. Com o lucro obtido, ele comprou um novo navio, o Maud, e partiu em uma expedição pela Passagem Nordeste, que liga o Atlântico ao Pacífico pelo norte da Europa e da Ásia, mas ele não conseguiu terminar o percurso, embora significativos dados científicos tenham sido recolhidos.

Trocando os navios pelos novos meios de transporte aéreos, Amundsen chegou em 1925, a bordo de um hidroavião, à latitude 87º44’ norte, muito próximo ao Polo Norte, onde nenhum outro avião jamais tinha ido. Durante esta expedição, o Fram foi utilizado como navio de apoio. Hoje aposentado, ele pode ser visto em um museu que leva seu nome, o Museu do Fram ou Frammuseet, em Oslo (clique aqui para conferir).

Fram, no Frammuseet ou Museu do Fram, em Oslo, Noruega

Direitos de Imagem: Frammuseet

Fonte: https://frammuseum.no/the-museum/museum-history/


No ano seguinte, ele organizou uma expedição a bordo do dirigível Norge, ao lado de seu velho companheiro de Antártica Oscar Wisting, do norte-americano Lincoln Ellsworth, que financiou algumas de suas expedições e do aviador italiano Umberto Nobile, que projetou o dirigível. Eles sobrevoaram e lançaram as bandeiras da Noruega, Estados Unidos e Itália sobre o Polo Norte no dia 11 de Maio de 1926, dois dias após outro aviador norte-americano, Richard Evelyn Byrd ter sobrevoado o Polo.

Entretanto, há muitas controvérsias sobre as medições de Byrd, assim com as medições dos navegadores norte-americanos que teriam chegado ao Polo Norte em 1909, fazendo com que Amundsen mudasse seus planos e direcionasse sua expedição para a Antártica. Por esse motivo, muitos estudiosos acreditam que a expedição do Norge foi a primeira a realmente alcançar o Polo Norte, o que faria de Amundsen e Wisting os primeiros homens a chegar tanto ao Polo Sul quanto ao Polo Norte.

Infelizmente, os aviões também foram responsáveis pela morte prematura de Amundsen. Em 1928, Umberto Nobile voltava do Polo Norte em outro dirigível, o Italia, quando caiu próximo ao arquipélago norueguês de Svalbard, no Círculo Polar Ártico. Amundsen partiu em um hidroavião em socorro a seu companheiro de exploração, mas também caiu. Várias equipes de salvamento foram enviadas, mas Amundsen e seu hidroavião nunca foram encontrados. Mesmo recentemente, em 2004 e 2009, a Noruega enviou expedições para tentar encontrá-los, mas sem sucesso. Até hoje, o corpo de Amundsen está perdido na imensidão gelada do Norte que tanto o cativou.


Roald Amundsen em Svartskog, Noruega, em 1909

Direitos de Imagem: Domínio Público

Fonte: https://no.wikipedia.org/wiki/Fil:Amundsen-in-ice.jpg



Referências:


http://inamundsensfootsteps.com/north-west-passage/

http://scottvsamundsen.blogspot.com/2012/01/thursday-18-january-1912.html

https://www.britannica.com/biography/Roald-Amundsen

https://www.britannica.com/biography/Robert-Falcon-Scott

https://www.britannica.com/place/Antarctica/History

https://www.britannica.com/place/Antarctica/History#ref390163

https://www.britannica.com/place/Nome-Alaska

https://www.britannica.com/place/Northwest-Passage-trade-route

https://www.britannica.com/topic/Belgica-ship

https://www.britannica.com/topic/British-Antarctic-Terra-Nova-Expedition

https://www.coolantarctica.com/Antarctica%20fact%20file/History/biography/atkinson_edward.php

https://www.coolantarctica.com/Antarctica%20fact%20file/History/Robert-Falcon-Scott2.php

https://www.coolantarctica.com/schools/who-was-captian-robert-scott.php

https://www.history.com/this-day-in-history/robert-falcon-scotts-terra-nova-expedition-begins

https://www.youtube.com/watch?v=ty8GX1cNPPQ

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