• Raphael Uba de Faria

A Jerusalém Africana


Lalibela (Gebra Mascal)


No ano de 637, Jerusalém, cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos, foi dominada pelos últimos. Por se entregar sem resistência, seu conquistador, o califa Omar, permitiu que judeus e cristãos continuassem praticando suas religiões e vivendo na cidade, desde que pagassem tributo. E assim foi por quase 400 anos.


Igreja de São Jorge


No início do século XI, reinava o califa xiita Al-Hakim, que começou a perseguir sistematicamente os muçulmanos sunitas, os judeus e os cristãos (e, posteriormente, até mesmo os xiitas...). Ele impôs a conversão ao islã a judeus e a cristãos e ordenou a destruição de inúmeras igrejas em Jerusalém, inclusive a do Santo Sepulcro. Segundo alguns historiadores, suas ações impulsionaram o desejo europeu de conquistar a cidade sagrada, o que levou à primeira Cruzada, em 1096, e à vitória cristã três anos depois.


Igreja Abba Libanos


Seguiram-se décadas de guerras entre cristãos e muçulmanos, até que Saladino, sultão do Egito e da Síria reconquistou Jerusalém para os muçulmanos, em 1187, fechando a cidade para as comuns peregrinações cristãs.


Igreja dos Anjos Gabriel e Rafael


Mas os europeus não foram os únicos afetados. No século IV, quase ao mesmo tempo em que o Império Romano fazia do cristianismo sua religião oficial, o reino de Aksum, na Etiópia - historicamente ligado à religião judaica desde os tempos da Rainha de Sabá - fazia o mesmo. Quando Saladino fechou Jerusalém, o rei (ou negus) Lalibela, comandava a nação africana e teve uma visão em sonho, que o impeliu a transformar a cidade em que nasceu - posteriormente rebatizada Lalibela, em sua homenagem – em uma Jerusalém Africana, para onde os cristãos etíopes pudessem peregrinar. E assim o fez.


Igreja Medhane Alem


Sua primeira ação foi renomear o rio local para Rio Jordão, em referência ao lendário rio do Oriente Médio, palco de inúmeras passagens bíblicas e do batismo de Jesus. Em seguida, porém, fez algo muito mais grandioso: mandou esculpir, nas proximidades do rio, uma série de igrejas na rocha, não só em paredes, mas, principalmente, no chão! São onze, ligadas por túneis e passagens estreitas entre desfiladeiros. A mais famosa é a igreja em formato de cruz dedicada a São Jorge. As outras, igualmente impressionantes, são as de Maria, Miguel, Gabriel e Rafael, Emanuel, Golgotha, Abba Libanos, Mascal, Medhane Alem, São Mercúrio e Denaghel. Juntas, constituem Patrimônio Mundial da UNESCO, centro de devoção e peregrinação do cristianismo etíope e africano, tal qual concebidas para ser, e um dos lugares mais belos e impressionantes do mundo para se conhecer.


Complexo central de Lalibela com as igrejas Medhane Alem (a maior) e Maria se destacando

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