• Professor Wagner Lacerda

A POÉTICA DA FRAGMENTAÇÃO DO EU E O FENÔMENO DA HETERONÍMIA

A segunda metade do século XIX foi um dos períodos mais conturbados, mas também mais produtivos da história contemporânea. Consolidaram-se a Revolução Industrial e a unificação da Itália e da Alemanha. Espalharam-se revoluções liberais por toda a Europa, ainda o centro do mundo de então. Os antigos estados absolutistas procuraram se adaptar aos novos tempos e o imperialismo ressurgiu na Ásia e na África.

No campo das ciências ocorreu um salto qualitativo. Doenças que antes matavam milhares começaram a ser erradicadas, ou, ao menos, passíveis de tratamento. Descobriram-se vacinas, realizaram-se reformas sanitárias nas grandes cidades e a prática da prevenção de doenças começou a se disseminar. Pesquisas e descobertas extremamente relevantes datam deste período. Desenvolveram-se, dentre outros, a Teoria da Evolução, de Charles Darwin e o Positivismo, de Auguste Comte.

Naturalmente, nem todo o cenário se mostrou tão positivo. As deficiências do sistema capitalista começaram a ser expostas e grande parte das populações tornou-se segregada social e economicamente. As anunciadas promessas de um futuro “maravilhoso” não se mostraram acessíveis a todos e tensões surgiram e agravaram-se. Tais tensões chegaram ao campo das artes e todo o panorama cultural mudou, prenunciando os conflitos que permearam a vida do homem do século XX. A literatura, a pintura, a música, dentre outras formas artísticas, passaram, então, a refletir esse universo contraditório e conflituoso.

O poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) emerge desse mar de contrariedades e, ao menos, tenta navegá-lo. Paradoxalmente, ele se divide para entender sua essência única. Até então, a imensa maioria dos intelectuais buscava, de todas as formas, respostas que satisfizessem aos questionamentos concernentes à construção da identidade individual do artista envolto no turbilhão de transformações. Ao invés de uma busca incessante, e quase certamente infrutífera, por soluções satisfatórias para um único sujeito, Pessoa acata respostas diferentes para “indivíduos diferentes”. Entendendo não ser mais possível a permanência de uma identidade única, constrói identidades diversas que se adaptarão de maneiras diferentes ao novo cenário.


Fernando Pessoa

Direitos de Imagem: Casa Fernando Pessoa

Fonte: https://www.casafernandopessoa.pt/pt/fernando-pessoa#top


A heteronímia em Pessoa é um fenômeno único no século XX. Podemos entendê-la como a resposta sofisticada do intelectual Fernando Pessoa à conturbação fragmentária que, como já vimos, arrastava a tudo e a todos. Massaud Moisés define, em seu Dicionário de Termos Literários, o termo heterônimo da seguinte maneira:


HETERÔNIMO – Grego héteros, outro, diferente, ónoma, nome.

Designa o autor que publica obra com nome alheio, ou como sua obra que não lhe pertence. Este primeiro sentido está hoje obscurecido pelo que lhe emprestou Fernando Pessoa (1888 – 1935), poeta português da mais alta categoria que assinou grande parte da sua obra com os nomes de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Vicente Guedes, Antônio Mora, Alexander Search e outros. Tais nomes dizem respeito a outros seres, poetas e prosadores, em que Pessoa se multiplicava: possuem identidade própria, “biografia” diferenciada e a sua produção estética ou filosófica ostenta características peculiares e inconfundíveis. os heterônimos assim personalizados resultariam de um desdobramento semelhante ao do dramaturgo, radicado no esforço de abranger, gnoseologicamente, todas as modalidades do real: cada um dos seres que povoam o mundo interior do poeta corresponderia a uma das formas- padrão de conhecimento do mundo e dos homens.

Diferente de pseudônimo, ou seja, nome falso ou suposto por meio do qual o escritor dá a lume as próprias obras. (p.274, 1974)


Somando-se às palavras de Moisés algumas considerações do próprio Fernando Pessoa, surge-nos, ainda mais claro, o processo da heteronímia. Ele explica que em um estágio superior do desdobramento de personalidades, primariamente diferenciadas por suas ideias e sentimentos, ocorre também a distinção, até mesmo, no estilo de cada heterônimo. Ele afirma:


Nos autores das Ficções do Interlúdio [Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos] não são só as ideias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica da composição, o mesmo estilo é diferente do meu. Aí cada personagem é criada integralmente diferente, e não apenas diferentemente pensada. (p.86, 1986)


Posto que o universo das personalidades de Fernando Pessoa seja extremamente numeroso, tratamos aqui, brevemente, apenas dos principais heterônimos: Caeiro, Reis e Campos. Ressalte-se, ainda, que a poética do ortônimo Fernando Pessoa é tratada – como também o é por muitos críticos – tal qual obra de um quarto importante “heterônimo”.


O universo dos heterônimos: sistema complexo e dinâmico


Inicialmente constituído com Alberto Caeiro situado no polo objetivo do sentir e com Fernando Pessoa ele-mesmo no polo subjetivo do pensar – “orbitados” por Ricardo Reis e Álvaro de Campos –, o sistema passa a evoluir, como consequência de inúmeros afastamentos e aproximações entre os heterônimos, operacionalizado dialeticamente pelo “fingimento”, ou, seria melhor ainda dizer, pelos “fingimentos” do poeta.


Fernando Pessoa ele-mesmo: o pensador


O ortônimo Fernando Pessoa resolve decifrar a crise do segundo Oitocentos. Sempre procurando pensá-la, aprofunda-se em inquirições e raciocínios que o conduzem a um processo absolutamente metafísico. Elemento central do polo da subjetividade, Fernando Pessoa ele-mesmo é quase um filósofo, sempre questionando o sujeito que pensa e tendo o mundo exterior, apenas, como ponto de partida para o filosofar. Até mesmo por se reconhecer incapaz de ver o externo, o que prevalece para ele é a interiorizada e profunda reflexão:


ALÉM-DEUS


I/ ABISMO


Olho o Tejo, e de tal arte

Que me esquece olhar olhando,

E súbito isto me bate

De encontro ao devaneando-

O que é sério, e correr?

O que é está-lo eu a ver?


Sinto de repente pouco,

Vácuo, o momento, o lugar.

Tudo de repente é oco-

Mesmo o meu estar a pensar.

Tudo – eu e o mundo em redor –

Fica mais que exterior.


Perde tudo o ser, ficar,

E do pensar se me some.

Fico sem poder ligar

Ser, idéia, alma de nome

A mim, à terra e aos céus...


E súbito encontro Deus.

(p.79, 1980)


O processo intelectivo do ortônimo Fernando Pessoa atinge seu ápice: no extremo da análise reflexiva ele se vê vendo... e se questiona sobre tal fato. É, como foi postulada, a construção do sujeito – o poeta que vê o mundo – utilizando-se do objeto – o mundo, mais especificamente o Tejo – apenas como pretexto. A visão obtida pelo poeta nunca é clara.


Alberto Caeiro: o mestre


Caeiro, o mestre dos heterônimos, é o antípoda absoluto de Fernando Pessoa ele-mesmo. Enquanto este primava pelo pensar, aquele centraliza a sua poética no sentir. Enquanto Pessoa utilizava o objeto externo apenas como ponto de partida para profundas reflexões, Caeiro fixa-se nele. Elemento central do polo da objetividade, Alberto Caeiro vai sobreviver à crise do segundo Oitocentos propondo para si mesmo uma vida simples e desprovida de reflexões. Ignora as contradições desse período para nelas não pensar e se desgastar.

Ao contrário do olhar analítico e profundo do Fernando Pessoa ele-mesmo, exposto no primeiro poema de Além-Deus, o que vemos em Alberto Caeiro é o olhar nítido e objetivo, livre de qualquer pensamento:


O GUARDADOR DE REBANHOS


II


O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido em cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...


Creio no mundo como num malmequer,

Por que o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...


Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar...


Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

(p.137, 1980, grifos nossos)


Tal poema é paradigmático da obra de Caeiro. Nele podem se ver expostos os princípios básicos da “arte poética” – e da própria vida – do mestre dos heterônimos: simplicidade e não-pensamento.

Porém, há de se ressaltar que na obra de Alberto Caeiro há uma grande contradição. Seu esforço contínuo para propagar e vivenciar o tal modo de vida simples acaba por construir uma teoria filosófica complexa que o leva ao encontro daquele a quem ele fazia oposição mais radical: o ortônimo Fernando Pessoa.


Ricardo Reis: o neoclássico


O médico Ricardo Reis é, certamente, uma figura anacrônica. Para sobreviver à crise deflagrada no segundo Oitocentos, Reis resolve fugir de seu tempo. Monarquista, educado pelos jesuítas, ele busca saída do conturbado período na cultura clássica. Concebe sua poética, e seu modo de vida, nos moldes da antiguidade. Suas odes primam pelo equilíbrio e pela moderação, tanto temáticos quanto formais. O Epicurismo e o Estoicismo são correntes filosóficas que muito influem na obra de Reis. A primeira procura ensiná-lo a não temer a morte e a aproveitar a vida com moderação, escolhendo sempre prazeres que não lhe causem danos futuros, como, principalmente, os espirituais. É preciso deixar bem claro que tais metas situam se para Ricardo Reis em um patamar ideal, pois, atormentado, muitas vezes, pela inexorabilidade do destino, não consegue manter a serenidade pretendida. Já o Estoicismo lhe é mais real. Ensina-o que independente do meio externo deve, o homem, manter-se internamente equilibrado, procurando não se envolver com o mundo em que vive:


Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo

(p.186, 1980)

Ricardo Reis passa a ter, então, uma atitude contemplativa em relação a tal mundo. A ataraxia é uma constante na obra de Reis. Ele está sempre ao lado, à margem daquele.

Até algum possível episódio amoroso é, para Reis, tratado sem envolvimento. Idealizando a amada, e o cenário onde se encontram, idealiza-se, por fim, o próprio amor. É o amor retomado à maneira árcade:


[LÍDIA]


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos)

(p.185-6, 1980)


Mais uma vez, instala-se a ataraxia. Não investindo no amor – mantendo-se à margem dele –, Reis passa a não ter o que perder. “Economiza” sofrimento evitando estoicamente que qualquer fenômeno exterior possa vir a perturbar o seu interior.


Álvaro de Campos: o moderno


Contrapondo-se à abstração reflexiva de Pessoa ele-mesmo, à tranquilidade de Caeiro e ao desprendimento de Reis, surge o modernismo de Campos em todas as suas facetas. Não reage à crise do segundo Oitocentos como os outros heterônimos: ao invés de tentar compreender as novidades do período ou ainda de tentar se desligar delas, ele simplesmente passa a nadar a favor da corrente. Poeta do sensacionismo – arte cosmopolita e sintética próxima ao simbolismo francês e ao futurismo italiano – Campos quer captar tudo que a vida moderna tem a oferecer:


Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados,

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,

Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.


Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,

Seja uma flor ou uma idéia abstrata,

Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.

E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.

(p.241, 1980)


Brevíssima conclusão inconclusiva


A relação dialética estabelecida na obra de Fernando Pessoa, tendo em vista as várias personas por ele criadas, é, sem sombra de dúvida, a saída mais eficaz já encontrada para o enfretamento das conturbadas relações instituídas a partir do período que se convencionou chamar de segundo Oitocentos. Não há outro caso sequer parecido na literatura de seu tempo ou de qualquer tempo.


Fachada da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, Portugal

Direitos de Imagem: José Frade

Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_Fernando_Pessoa#/media/Ficheiro:Casa_Fernando_Pessoa_Fachada.jpg


Referências:


MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974.


PESSOA, Fernando. O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

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