• Professor Wagner Lacerda

A Prosa Brasileira Contemporânea

A literatura brasileira está repleta de grandes prosadores desde o século XIX. Naturalmente, poderíamos voltar, ainda, um pouco mais no tempo; encontraríamos, então, Tomás Antônio Gonzaga e as Cartas Chilenas, no século XVIII, e o Padre Vieira com seus sermões, no século XVII. Porém, a quantidade de escritores aumenta mesmo no século XIX. É no Romantismo que encontraremos José de Alencar, Bernardo Guimarães, Visconde de Taunay, Joaquim Manuel de Macedo e Manuel Antônio de Almeida. No Pós-romantismo, será a vez de Raul Pompeia, dos irmãos Aluísio e Artur Azevedo e, claro, de Machado de Assis. E, no século XX, esse número só aumenta: Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato, João do Rio, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo... Ficando muitos, mesmo, por conta das reticências.

Com o avanço do Pós-modernismo, já na década de 50, dois nomes consolidam-se com toda a força no cenário nacional: Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Por caminhos diferentes e de modos diversos, ambos passam a dar as cartas na prosa brasileira. Grande Sertão: Veredas (1956), de Rosa, e A Paixão Segundo G.H. (1964), de Clarice, estabeleceram novos parâmetros, no país, para a estrutura textual do romance e, além disso, expandiram suas fronteiras e seus horizontes temáticos. Até por uma certa necessidade de responder ao tempo em que se inseriam, ambos os escritores experimentaram, inovaram e reinventaram, bem ao gosto pós-modernista, em busca de narrativas que pudessem acompanhar as mudanças do Brasil e do mundo. Foi assim que Rosa nos trouxe seu regionalismo universal e fez com que mergulhássemos em uma linguagem diferente de tudo o que se viu até ali, repleta de neologismos, arcaísmos e expressões regionais. Foi assim que Clarice nos apresentou ao fluxo de consciência, herdado de Virginia Woolf e James Joyce. Não se quer afirmar com isso que eles foram melhores que seus antecessores. Na verdade, nem piores... Apenas, diferentes. Não é caso, em uma análise sensata, de estabelecer-se juízo de valor. O que está sendo colocado é o panorama de mudanças na prosa nacional a partir das obras dos dois escritores.

Guimarães Rosa e Clarice Lispector, enfim, expandiram os limites da literatura brasileira. A narrativa fugia, definitivamente, da obrigação de estabelecer-se em torno da tríade: razão realista x emoção romântica, identidade nacional e crítica social. Note-se, fugia da obrigação; não quer dizer que abandonava essas temáticas e discussões. Explicando de outra forma: tais questões continuaram a ser importantes para a prosa no Brasil, só passaram a ser abordadas por perspectivas e modos diferentes – e deixaram de ser o foco na quase totalidade dos textos, como acontecia antes.


Clarice Lispector e Tom Jobim

Autor: George Gafner (Arquivo Nacional)

Fonte:https://no.wikipedia.org/wiki/Clarice_Lispector#/media/Fil:Clarice_Lispector_e_Tom_Jobim,_sem_data.tif


Mas, o que veio depois de Rosa e Clarice? Estabelecendo-se, aqui, como critério cronológico a morte da escritora, ocorrida em 1977 – o escritor mineiro já havia falecido dez anos antes –, qual é o cenário da prosa nacional dos anos 80 para cá? As mudanças iniciadas por eles se aprofundaram e abriram passagem para muitas outras, tanto temáticas quanto estruturais/formais. E o cenário, pelo menos à primeira vista, tornou-se extremamente complexo, dificultando qualquer análise. Aumentaram, significativamente, a quantidade de autores, autoras, obras, estilos; o que é sempre muito bom, ainda que se corra o risco de ver emergir figuras de valor literário altamente questionável. De qualquer forma, em um país que lê muito pouco, nunca é má notícia mais pessoas escrevendo... Ainda que demore, mais cedo ou mais tarde, um ato será atrelado ao outro.

Partindo, enfim, para um esboço do quadro das últimas gerações, a primeira temática a aparecer é a ruptura com o ciclo nacionalista da literatura brasileira. Os autores, já na década de 80, estão desencarregados de cumprir metas com a narrativa nacional e passam a ter como interesse o núcleo urbano, sendo que tal preferência pode ser explicada pelo grande desenvolvimento demográfico do país a partir daquele momento. Na década de 70, no entanto, já era possível perceber a existência de um novo Realismo, em que os escritores procuravam construir respostas à situação social e política da época e transformavam sua linguagem, seu estilo e sua forma de expressão. O compromisso passa a ser, antes, com a situação do país que com um eventual projeto de nação, tendo como foco as experiências urbanas vivenciadas por muitos indivíduos. Aqui, pode-se pensar em Não Verás País Nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão; em Os Carbonários (1981), de Alfredo Sirkis; no surpreendente Você vai voltar pra mim e outros contos (2014), de Bernardo Kucinski.

Naturalmente, com a mudança do cenário político no Brasil, essa narrativa urbana tomou novas configurações. O grande inimigo passa a ser não mais o Estado autoritário, mas o sistema excludente que marginaliza pessoas e grupos diferentes dos padrões estabelecidos pelo próprio sistema, fragilizados pela vida ou, simplesmente, empobrecidos. As cidades não são para todos – principalmente, as maiores. É isso que nos mostram a experiência polifônica de Luiz Ruffato, em Eles eram muitos cavalos (2001), e os breves contos de Marcelino Freire, em Angu de Sangue (2002), BaléRalé (2003), Contos Negreiros (2005) e Rasif – Mar Que Arrebenta (2006).

Seja por qual caminho for, o novo Realismo não está mais ligado às formas técnicas de antes, tampouco à verossimilhança descritiva e à objetividade narrativa. Ele se apresenta como um meio de retratar a realidade atual da nossa sociedade através de pontos de vista marginais e periféricos. O livro para essa tarefa já não é o produto final, mas o meio, pois ocorre uma penetração nessa realidade relatada em diferentes níveis, como em um trabalho cinematográfico. Assim como o novo Realismo sofreu modificações, o novo Regionalismo também passou por esse processo, aparecendo não mais ligado aos formatos tradicionais do século XIX. Na maioria das vezes, o autor regionalista abre mão do interesse pelos costumes e pela tradição para narrar a tensão entre campo e cidade e, assim, propõe-se a escrever um romance regionalista comprometido com a realidade social, mas de acordo com os formatos e a linguagem contemporâneos. Encontramo-nos diante de mudanças e percebemos um hibridismo entre várias formas literárias; e, por tal razão, não se pode mais afirmar a existência de um único molde como os existentes em outras épocas.

Milton Hatoum é o grande nome dessa narrativa híbrida. Seu novo Regionalismo faz com que personagens circulem entre Manaus e Paris com a mesma desenvoltura. Um outro personagem vai até a cidade grande, mas não se desconecta de suas raízes. Porém, não há modelos formatados ou comportamentos pré-concebidos; ninguém é obrigado a agir desta ou daquela forma porque é assim que determinado habitante de determinada região “age”. Além disso, Hatoum aborda a História, a globalização, as relações familiares, o poder da memória e tantos outros temas, que fica impossível classificá-lo. São obras de altíssima qualidade literária, por exemplo: Relato de um Certo Oriente (1989), Dois Irmãos (2000) e Cinzas do Norte (2005). É possível, nessa linha, incluirmos, também, o nome de Conceição Evaristo e seus primorosos Ponciá Vicêncio (2003) e Olhos d’água (2014).

A literatura marginal apresenta um intenso diálogo com as novas formas de Realismo, tendo a realidade contemporânea brasileira como foco principal, mas não abrindo mão do aspecto comercial. Através da imposição mercadológica do que seria considerada uma espécie de “não-literatura”, a cultura periférica avança no mercado e conquista espaço para que ela mesma conte as suas histórias e não necessite de porta-vozes. Aqui, é exemplar o caso da prosa de Ferréz, em Capão pecado (2000), Ninguém é inocente em São Paulo (2006) e Deus foi almoçar (2011).

Ainda que sob pena de romper com os próprios critérios escolhidos para esse texto, não dá para falar de prosa contemporânea brasileira sem falar de Rubem Fonseca. Seu primeiro livro – a coletânea de contos Os prisioneiros –, escrito ainda na década de 60, foi bem recebido pelo público e pela crítica. E trouxe para a narrativa urbana nacional elementos marcantes: a secura das relações humanas, a brutalidade das ações, a crueldade do cotidiano. O que seria da literatura de nosso tempo sem A Grande Arte (1983), Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos (1988) e o monumental Agosto (1990)? Ou mesmo sem os contos de Feliz Ano Novo (1975) e O cobrador (1979)?

Se todos esses citados até agora parecem mais ou menos ligados à obra de Guimarães Rosa, há um outro grande grupo de prosadores contemporâneos brasileiros que podemos afiliar a uma linha de pensamento e de escrita clariceana: são aqueles envolvidos em maior ou menor escala com a “escrita do eu” – presente na obra já citada A Paixão Segundo G.H. – e a metaficção – presente no último livro de Clarice, A Hora da Estrela (1977). Caio Fernando Abreu, Chico Buarque, Bernardo Carvalho e Sérgio Sant’Anna seriam alguns nomes a destacar aqui.


Chico Buarque com o escritor José Saramago

Foto do arquivo pessoal de Chico Buarque

Fonte: http://www.blogletras.com/2008/11/jose-saramago-escreve-sobre-chico.html


Caio Fernando Abreu, assim como Rubem Fonseca, também rompe com os critérios escolhidos para esse texto. Mas, assim como Fonseca, não tem como ficar sem ele. É possível afirmar que não há o conto brasileiro contemporâneo sem a figura de Abreu. Além disso, ele é o mais clariceano de todos os prosadores brasileiros surgidos dos anos 70 para cá – cabe ressaltar que ele era amigo pessoal, fã ardoroso e tributário apaixonado de Clarice. Ainda que já escrevesse desde 1970, quando foi lançado seu romance Limite Branco, o escritor só veio a ser amplamente reconhecido em 1982, com seu livro Morangos Mofados – obra em que são encontrados contos essenciais de sua produção, como “Os Sobreviventes”, “Aqueles Dois”, “Terça-feira Gorda” e “O Dia em que Júpiter encontrou Saturno”. Em 1990, Caio Fernando Abreu lançaria seu mais conhecido romance: Onde andará Dulce Veiga?, um misto de drama e suspense, com ecos de Crepúsculo dos Deuses, que se transforma em, para tentar definir, uma fábula ao contrário.

E o que falar de Chico Buarque? Com certeza, um dos maiores ícones da cultura brasileira, Chico chega aos anos 80 já com uma vasta carreira artística. Sem contar suas músicas – precisaríamos de outro texto para isso –, já existia, então, uma produção literária de respeito. Em 1974, ele lançou a novela Fazenda Modelo. No teatro, ainda mais obras: Roda Viva (1967), Calabar (1973), Gota d’Água (1975), Ópera do Malandro (1978). Mas, eis que com a carreira mais que consolidada, repleta de sucessos e prêmios, ele resolveu arriscar: a partir da década de 90, Chico Buarque lançou seis livros e firmou-se, também, como ótimo romancista. Foram lançados: Estorvo (1991), Budapeste (1995), Benjamim (2003), Leite Derramado (2009), O Irmão Alemão (2009) e Essa Gente (2019). O mais notável deles é, certamente, Leite Derramado, em que um sujeito centenário, de moral bastante questionável, lembra, ou tenta lembrar, de passagens de sua vida. São claros os ecos de Clarice. E, também, de Machado de Assis e Graciliano Ramos.

Bernardo Carvalho é um achado para quem o lê. Por meio de uma prosa enxuta e, ao mesmo tempo, enigmática, sua metaficção mescla realidade e literatura de uma forma tão bem engendrada que acabamos sem saber qual é qual. Não que isso seja, essencialmente, uma novidade – Lima Barreto, por exemplo, já o fazia de forma magistral, no início do século passado; e, mesmo aqui nesse texto, já citamos dois outros casos: Rubem Fonseca, em Agosto, e Chico Buarque, em Leite Derramado. A grande questão está em como construir tal tipo de narrativa, transgredindo o universo literário e realizando algo diferente que não pareça repetitivo. Nove Noites (2002) é um bom exemplo disso. Até onde o que é contado sobre a misteriosa morte do antropólogo norte-americano Buell Quain é real e até onde é ficção? O que é jornalismo e o que é literatura? Difícil saber. Vale citar, ainda, os clariceanos O Sol se Põe em São Paulo (2007) e O Filho da Mãe (2009) – este, também, com um espírito de Caio Fernando Abreu. Ainda, o surpreendente e hilariante Reprodução (2013) merece nota. Não é todo dia que Alfred Hitchcock encontra Woody Allen com tanto sucesso.

Enfim, esse texto é, apenas, uma breve tentativa de análise da situação atual, partindo-se de um único ponto, e um panorama do que se tem produzido na prosa brasileira. Faltaram autores e autoras? Sim. Faltaram obras? Com certeza. Tomara que, em uma próxima abordagem, possamos falar deles... E que, a cada vez, faltem outros novos, porque terão surgido outros tantos!

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