• Professor Wagner Lacerda

A Trilogia da Resistência

O termo “política” é por demais abrangente. Ciência para alguns, modo de vida para outros, motivo de asco e desprezo para tantos mais... Mas não se pode discutir acerca de algo sem uma mínima definição. Nesse sentido, o filósofo grego Aristóteles, em sua obra Política, elaborou um conceito que parece bastante interessante e completo. Para ele, a política englobaria um modo de viver na pólis e de administrá-la, modo esse que fosse satisfatório à maioria da comunidade e que pudesse conduzir todos à felicidade humana no aspecto material.

Busto do filósofo grego Aristóteles

Autor: HEN – Magonza

Fonte: https://www.flickr.com/photos/hen-magonza/4636518820

Assim, pode-se falar em cinema político sob esse ponto de vista mais abrangente. Evidentemente, há obras de teor panfletário, como a obra-prima Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein, ou os filmes de propaganda nazista dirigidos por Leni Riefenstahl sob encomenda de Adolf Hitler e dos ideólogos próximos ao Führer. Mas esses não estão sob a análise desse texto. Os filmes políticos aqui observados falam, metaforicamente ou de forma realista, de um outro mundo possível, que foge das regras pretensamente inquestionáveis de um sistema político-econômico que, há muito tempo, protege e beneficia uma minoria – e, não, uma maioria, como propunha Aristóteles. Pode-se pensar, aqui, no britânico Ken Loach e no grego, naturalizado francês, Constantin Costa-Gavras; ou, até mesmo, no brasileiro Gláuber Rocha. Em comum a todos esses, aquilo que o escritor português José Saramago afirmava ser a mais imperiosa missão de todo intelectual: o ato de dizer não, de recusar as verdades instituídas, de questionar o sistema e de resistir a ele.

Foi seguindo essa linha que três filmes abalaram o mercado cinematográfico, mexeram com a crítica e conquistaram o público nos últimos meses: o brasileiro Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o sul-coreano Parasita, de Bong Joon-Ho – vencedor de vários prêmios no Oscar desse ano –, e o espanhol O poço, de Galder Gaztelu-Urrutia – exibido pela Netflix. Em comum aos três, a vontade de dizer um sonoro não.

Bacurau conta a história de um pequeno povoado no sertão de Pernanbuco que, misteriosamente, some dos mapas e passa a enfrentar uma série de assassinatos inexplicáveis, enquanto drones passeiam pelos céus da região. Abandonados à própria sorte, os moradores, então, resolvem unir-se na busca pelo inimigo e na construção coletiva de um sistema de defesa. Parasita mostra uma família vivendo em um porão, nas piores condições possíveis. O alardeado progresso sul-coreano parece não ter alcançado a família de Ki-Taek, que mora com a esposa e seus dois filhos, um rapaz e uma menina. No entanto, tudo começa a mudar quando, devido a uma obra do acaso, o filho da família começa a dar aulas de inglês para uma jovem de uma família rica. Logo, maravilhados pela vida abastada da família burguesa – formada por quatro membros, como a deles –, eles começam a se infiltar na casa e na vida dos outros. O preço a ser pago será alto e as consequências, devastadoras. E O poço mostra uma prisão surreal-futurista dividida em 333 andares, onde prisioneiros – dois por andar – são alimentados por meio de uma plataforma que, literalmente, flutua entre tais andares, permanecendo pouco tempo em cada um deles. Acima de tudo, uma fantástica cozinha, onde uma equipe prepara, como se diz, do bom e do melhor para a alimentação de todos. Quem está mais acima, é, então, contemplado por um banquete de dar inveja ao próprio Baco. Já quem está mais abaixo...

Formalmente, os três filmes partem de uma mesma ideia: não se restringem a um único gênero cinematográfico. Todos eles trazem elementos do horror gore, do suspense e do drama. A ficção científica está presente em O poço e em Bacurau – que, aliás, carrega no DNA o faroeste de Sam Peckinpah. Quentin Tarantino é presença marcante nas produções brasileira e sul-coreana. Um Surrealismo de fazer inveja a Um Cão Andaluz, da dupla Luis Buñuel e Salvador Dalí, inunda as cenas da produção espanhola.

Outra característica que os une é a presença de uma forte simbologia. Quase tudo o que aparece nos três filmes remete a algum significado, ora facilmente percebido, ora desvelado somente por meio de uma percepção afiada e atenta. No primeiro caso, há pouca discussão: a presença da família de Ki-Taek em um porão que fica abaixo da rua, dando visão para um mesmo sujeito que urina todos os dias no mesmo local, é referência evidente ao lugar que eles ocupam no estrato social, bem como a metafórica pirâmide de O poço, que reproduz as condições dessa mesma estratificação. No segundo caso, como já foi dito, significados não tão evidentes demandam maior esforço e perspicácia para serem descobertos. Afinal, qual é a mensagem que precisa sair do poço? A criança ou a panacota? Aliás, a criança existe ou não?

De todo modo, o que sobressai nas três produções, e o que as une, é uma forte resistência ao discurso hegemônico que pinta a sociedade do século XXI como um mundo – ironizando, ao máximo, os iluministas – cheio de liberdade, igualdade e fraternidade; palavras tão simpáticas, mas pouco colocadas em prática. Se um outro mundo é possível, antes, é preciso desconstruir o atual, denunciando a opressão de qualquer natureza, condenando a desigualdade e atacando o individualismo. Nesse sentido – e em consonância com os pensamentos aristotélico e saramaguiano –, é mais que pertinente intitularmos Bacurau, Parasita e O poço como filmes políticos. E, como tal, eles incomodam o senso comum e as verdades pré-estabelecidas. Como, aliás, a arte, de modo geral, tem feito há muito tempo.

Bacurau é uma história de resistência, de um povo esquecido e humilhado que se recusa a sumir. O povoado é aquele típico ajuntamento de pessoas muito simples que só é lembrado como depositário daquela falsa caridade que busca ganhar pontos no céu ou, de forma mais prática, para angariar votos. Ou, no filme, como alvo de um preverso jogo em que estrangeiros estranhos – o pleonasmo é intencional – vão até lá abatê-los a tiros, em uma bizarra caçada. Com a conivência da autoridade local – e, possivelmente, de outras –, os gringos atiram para matar. Mas o povo do lugarejo resolve se defender.

Vários fatos transparecem: frente ao abandono, a população parece se entender e articular uma espécie de autogestão. Comerciantes, bandidos, prostitutas, líderes religiosos e a médica local convivem em uma surpreendente harmonia. Lunga, o líder da revolução local esconde-se em uma represa. A história do cangaço escora os movimentos rebeldes. Em tempo, um dos pontos altos do filme é, exatamente, quando a resistência local parte para o combate com os estrangeiros psicopatas de dentro da escola e do pequeno museu da cidade. O recado é claro: sem educação, sem história, sem cultura, enfim, sem identidadade, não há como resistir. A liberdade nasce da luta.

Os diretores de Bacurau: Juliano Dornelles, à esquerda, e Kleber Mendonça Filho

Autor: Getty Images Europe

Fonte:https://www.zimbio.com/photos/Juliano+Dornelles/Bacurau+Photocall+72nd+Annual+Cannes+Film/gDhsYtgXzQT

Resistência que, em Parasita, nasce da vontade de uma gente simples que se recusa a sumir em meio a um aparente estado de bem-estar social. Espremidos em um porão sujo e fétido, os quatro membros da família resolvem lutar por uma vida melhor, como lhes é possível – o “basta querer que você consegue”, talvez não seja para eles. Em uma sucessão de erros que vai levá-los de pequenos deslizes até crimes bárbaros, os membros da família de Ki-Taek descobrem que, de um jeito ou de outro, a moderna e rica Coreia do Sul não é para eles. Não há igualdade, as condições de vida são as mais díspares possíveis. O grande choque do filme acontece quando o público descobre que há um morador no subsolo da casa da família rica – e esse é marido da governanta da família!

Tal casal entrará em conflito com as ambições dos personagens principais e, cercado pelos três núcleos familiares do rotero, o diretor parece nos perguntar: afinal, quem parasita quem na contemporânea sociedade de, sim, classes? Emblemática em relação a isso é a cena em que, após uma noite de tempestade que arrasou toda a “casa” de Ki-Taek, ele ouve Yeon-Kyo afirmar que o dia estava lindo, porque a chuva de ontem havia limpado a poluição do ar da cidade... Prioridades... Na cena em questão, Ki-Taek já está infiltrado na vida da família rica e trabalha como motorista dela, levando, aqui, a Sra. Yeon-Kyo até o centro de Seul. Vale destacar a interpretação primorosa do ator Song Kang-Ho, que, em silêncio absoluto e apenas com o olhar, exala ódio e indignação, mostrando que não são necessárias “caras e bocas”, e, muito menos, gritaria, para causar impacto no público.

O diretor de Parasita: Bong Joon-Ho

Autor: Dick Thomas Johnson

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Okja_Japan_Premiere-_Bong_Joon-ho_(38527206906).jpg

Interpretação genial, aliás, é, também, a do ator espanhol Iván Massagué, que interpreta o protagonista Goreng de O poço, uma espécie de Dom Quixote futurista – perceba-se que até a fisionomia do ator é idêntica aos desenhos do cavaleiro da triste figura encontradas nas capas das várias edições do livro de Cervantes que são lançadas até hoje. Já se sabe o básico do roteiro: prisioneiros dispostos aos pares ocupam os 333 andadres de uma prisão e comem por meio de uma plataforma que flutua entre os níveis, descendo no primeiro andar com um opulento banquete e, claro, chegando aos patamares mais baixos com nenhuma comida. O recado do filme – incorporado por Goreng – é evidente: se quem estiver em cima não economizar, quem estiver embaixo não come. A fraternidade é a única saída.

Mas Goreng é um idealista. E idealistas, muitas vezes, não têm lugar no mundo. Todos os prisioneiros quando entram no poço têm direito a levar um objeto de uso pessoal. Trimagasi – o primeiro parceiro de “cela” de Goreng – leva uma faca; o protagonista leva um livro. Qual? Ora... Dom Quixote, que outro poderia ser? Trimagasi, por outro lado, é um realista – seria ele Sancho Pança? A toda e qualquer pergunta, ele responde com uma única palavra: “óbvio”.

Após subir e descer de nível – o que acontece em períodos mensais –, Goreng decide que é preciso mandar uma mensagem para a administração do poço, uma mensagem que pudesse mostrar que, afinal, os prisioneiros conseguiram pensar uns nos outros; que trocaram o individualismo pela coletividade. É interessante perceber como o protagonista idealista percebe que a razão talvez seja o caminho para a tão sonhada fraternidade. E, além disso, ele é acompanhado na proteção e no envio da referida mensagem pelo seu parceiro daquele momento: Baharat, a própria personificação da fé na missão. Razão e idealismo se misturam em uma rede de encontros e desencontros que reproduz as questões que tanto provocavam Hegel e Kant.


O diretor de O poço: Galder Gaztelu-Urrutia

Autor: Enrique Cidoncha

Fonte:https://www.premiosgoya.com/wp-content/uploads/2020/01/galder_gaztelu_urrutia_direccion_novelel_hoyo_the_platform_enrique_cidoncha-1024x732.jpg

Enfim, é o cinema sempre se renovando. Na esteira de Ken Loach, Constantin Costa-Gavras, Gláuber Rocha, Peter Bogdanovich, Robert Altman, Peter Weir e tantos outros, Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho, Bong Joon-Ho e Galder Gaztelu-Urrutia perguntam: que mundo é esse? Essa é a sociedade que queremos? O que pretendemos? Que valores defendemos – ou deveríamos defender? Assim, Lunga é a materialização da liberdade. Ki-Taek, da igualdade. Goreng, da fraternidade.

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