• Raphael Uba de Faria

Albert, B.B. e Freddie: os Reis do Blues

Quase todos nós já ouvimos falar de B.B. King, o lendário guitarrista de Blues cuja história pessoal está intrinsecamente ligada à do estilo musical desde meados dos anos 1940. Isso sem falar em sua imagem que parecer ser a própria personificação do Blues. Dada sua importância para o gênero e o significado de seu sobrenome (Rei), ele ficou conhecido como o “rei do blues”, e exerceu enorme influência sobre a grande maioria dos guitarristas de blues, jazz e rock que surgiram depois dele. Mas ele não foi o único a carregar esse sobrenome e a moldar o futuro da guitarra. Houve outros dois: Freddie e Albert. Vamos conhecer um pouco mais sobre os três.

Em resumo, o Blues nasceu na segunda metade do século XIX, no sul dos Estados Unidos, mais precisamente nos estados do Alabama, Geórgia, Louisiana e Mississippi. Criado pelos descendentes de escravos africanos que trabalhavam nas enormes fazendas de algodão, ele retratava os aspectos mais corriqueiros de suas duras vidas. O nome do estilo deriva da palavra blue (azul), cuja cor é relacionada, na cultura norte-americana, à tristeza. Com o advento do rádio e o surgimento das gravadoras, já no século XX, o Blues começou a se difundir, passando a ser conhecido em outros estados do país. Na década de 1930, Robert Johnson catapultou o estilo, contribuindo enorme e fundamentalmente para sua popularização. Na década seguinte, quando BB King começou a tocar, o Blues já era um gênero consolidado.

Nascido, precisamente, em uma plantação de algodão, na pequena cidade de Itta Bena, Mississippi (embora considerasse a cidade vizinha de Indianola como sua cidade natal), no ano de 1925, ele foi batizado Riley Benjamin King por seus pais, Nora Ella King e Albert King (que não é o mesmo Albert de quem falaremos). Sua mãe os deixou para viver com outro homem quando ele tinha apenas quatro anos e ele foi criado por sua avó até os quatorze anos, na cidade de Kilmichael, quando ela morreu e ele foi viver por dois anos com seu pai em Lexinton, antes de voltar para a terra de sua avó. Alguns anos depois, foi viver em Indianola com um de seus tios. Seu contato com a música teve início na igreja, atraído pelo ministro local que tocava guitarra durante as celebrações religiosas. Ainda novo aprendeu a tocar esse mesmo instrumento.


B.B. King

Fonte: https://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/05/b-b-king-o-rei-do-blues-morre-aos-89-anos.html


Inicialmente, como era comum, fazia apresentações nas cidades da redondeza e, com alguma frequência, se apresentava com bandas da igreja. Nos anos 1940 fez algumas apresentações em programas de rádio e sua grande oportunidade veio em 1948, quando se apresentou no programa de Sonny Boy Williamson, na cidade de West Memphis, Arkansas. Naquela época, King vivia com sua esposa na cidade vizinha de Memphis, no Tennessee, a grande capital do blues no período. Agarrando sua chance, BB começou a se destacar e a formar uma considerável base de fãs. Poucos anos depois, já era considerado o principal nome do Blues.

Com a fama, ele conseguiu seu próprio programa na rádio. Foi então que, procurando por um nome artístico, apelidou-se Beale Street Blues Boy (menino do Blues da Rua Beale, o centro do Blues em Memphis), posteriormente alterando para Blues Boy King e, finalmente, B.B. King. Daí em diante, sua fama só cresceu e ele se tornou conhecido em todo o país e na Europa e, posteriormente, em todo o mundo.

Destacando-se pelos solos de guitarra com poucas notas (algo raro, principalmente hoje em dia) e por sua voz poderosa, B.B. King estabeleceu-se com um dos nomes mais importantes da música moderna. Todos os grandes guitarristas que surgiram depois foram influenciados, direta ou indiretamente, por seus acordes e ele realizou inúmeras apresentações por todo o mundo, tocando com um sem número de artistas dos mais diversos gêneros e sendo unanimemente respeitado. Em 2012, ele tocou na Casa Branca, ao lado de outros grandes nomes da música, como Buddy Guy, Greg Allman e Mick Jagger e cantou alguns versos da música Sweet Home Chicago em parceria com o então presidente Barak Obama (confira clicando aqui).

B.B. King partiu no ano de 2015, deixando uma obra grandiosa e inúmeras apresentações icônicas, em muitas delas, acompanhado de outros músicos brilhantes. Mas voltemos no tempo, mais precisamente para 1951, para apresentar mais um dos King.

Pense em uma figura imponente. Um metro e noventa e três de altura, mais de cento e dez quilos e com uma Flying V, a guitarra mais chamativa de todas, pendurada em seu pescoço. Ah, sim! De cabeça para baixo e virada para o lado contrário, pois ele é canhoto. Agora imagine que você é B.B. King. Essa figura começa a espalhar por todos os cantos, a mentira deslavada de que é seu meio-irmão. Obviamente, você ficaria irritado! B.B. King ficou! Seu suposto parente apresentava-se como Albert King! Para piorar as coisas, B.B. havia dado um nome para sua guitarra: Lucile. Albert resolveu fazer o mesmo com a dele e a chamou... Lucy!


Albert King

Direitos de Imagem: David Warner Ellis

Fonte: https://www.udiscovermusic.com/artist/albert-king/


Nascido, em 1923, coincidentemente em Indianola - sim, a mesma Indianola onde viveu B.B. - Albert não era um King verdadeiro. Seu nome de batismo era Albert Nelson, filho de Will Nelson. Sua vida não foi tão diferente assim da de seu “parente” famoso. Ele também nasceu em uma plantação de algodão e teve contato com a música na igreja, onde seu pai tocava guitarra. Seu pai deixou sua família quando ele tinha cinco anos e ele se mudou, com sua mãe e duas de suas irmãs (no total, eram treze filhos) para Forrest City, Arkansas, antes de irem para Arcola, Mississippi. Ainda criança, ele construiu seu primeiro violão com uma caixa de charutos e um arame da vassoura. Seu primeiro trabalho foi colhendo algodão e, depois, trabalhou em diversas áreas antes de conseguir viver da música.

Durante algum tempo, a estratégia de dizer que era irmão de B.B. King funcionou perfeitamente! Eles tinham vivido na mesma cidade e Albert tinha o mesmo nome do pai de B.B., então, as pessoas acreditavam. Alguns cartazes de suas apresentações exibiam as palavras “irmão de B.B. King”! Em uma entrevista para o livro “Crossroads: How The Blues Shaped Rock ‘n’ Roll (and Rock Saved the Blues)” – Encruzilhada: como o Blues moldou o Rock ‘n’ Roll (e o Rock salvou o Blues), em tradução livre –, de John Milward, B.B. King falou sobre isso: “ele chamou sua guitarra de Lucy e, por um tempo, saiu por aí dizendo que era meu irmão. Isso me incomodou até que eu o conheci e percebi que ele estava certo. Ele não era meu irmão de sangue, mas, com certeza, era meu irmão de Blues”.

Ainda que tenha mantido seu “nome artístico”, Albert logo se destacou por sua incrível qualidade e por seu estilo único, bem diferente do de B.B., e parou de usar seu “parentesco” para chamar atenção. Ao contrário do que os guitarristas canhotos costumam fazer, invertendo as cordas da guitarra, Albert simplesmente virava a guitarra para o outro lado e tocava com as cordas posicionadas de “cabeça para baixo”, o que diferenciava seu som do som dos demais guitarristas.

Em 1967, Albert King marcou definitivamente seu nome na história da música ao lançar o álbum Born Under a Bad Sign (Nascido Sob um Signo Ruim), cuja música título (ouça aqui), além de influenciar todas as bandas de Rock que já existiam ou que surgiram nos anos 1960 e 1970, se tornou um hino do Blues por conseguir, em poucas linhas, sintetizar a alma do gênero. Versos como “má sorte e problemas foram meus únicos amigos, eu estou sozinho desde que tinha dez anos”, “eu não sei ler, eu não aprendi a escrever, toda minha vida tem sido uma grande luta” e “se não fosse pela má sorte, você sabe que eu não teria sorte alguma”, são extremamente representativas quando pensamos na origem do Blues e de seus músicos.

Albert King teve uma carreira extremamente consistente e, assim como B.B. King, se apresentou em diversos países e com vários músicos de altíssimo nível. Sua influência é facilmente percebida em todos os guitarristas de blues que surgiram depois dele e visível em músicas de bandas como Cream, Led Zeppelin, Rolling Stones e muitas outras. Infelizmente, morreu com apenas 69 anos, deixando quinze álbuns gravados.

Mais novo entre os King e, também, sem parentesco algum com os outros dois, Freddie King nasceu Frederick King Christian, filho de Ella Mae King e T.J. Christian, em Gilmer, Texas, no ano de 1934. Aos seis anos aprendeu a tocar violão com sua mãe e seu tio.

Freddie mudou-se com sua família para Chicago, quando tinha quinze anos. Naquela época, muitas famílias do sul dos Estados Unidos estavam migrando para Chicago em busca de uma vida melhor. Em sua bagagem, levaram o Blues, que começou a se desenvolver independentemente por lá, com novas características e abordagens. Enquanto no sul os instrumentos mais utilizados eram o violão (ou guitarra) e a gaita, com vocais mais suaves e, por vezes, melancólicos, no norte, instrumentos elétricos, pianos e saxofones começaram a ser utilizados. A sonoridade também era diferente, mais poderosa e, muitas vezes, mais alegre. Foi nesse cenário que Freddie começou a se destacar.


Freddie King

Fonte: https://texasbluesalley.com/woodshed/course-collections/freddie-king-courses


Antes de poder viver da música, Freddie trabalhou em uma usina siderúrgica. Nesse período, conheceu sua esposa, Jessie Burnett, com quem teve sete filhos. Ao mesmo tempo, costumava frequentar as casas de show da cidade, onde assistiu a várias apresentações de muitos ícones do blues, como Muddy Waters, Elmore James e Howlin’ Wolf, além do mesmo Sonny Boy Williamson, dono do programa de rádio em que B.B. King se destacou. Não tardou para que ele conhecesse Howlin’ Wolf e Muddy Waters e começasse a tocar em algumas bandas, inclusive bandas de apoio desses artistas.

Uma das características mais marcantes de seu estilho, é que ele tocava com uma palheta de plástico presa no dedo indicador e uma palheta de metal presa no dedão, artifício que aprendeu com Eddie Taylor, outro grande nome do Blues. Além disso, Freddie não passava a correia de sua guitarra no pescoço. Simplesmente a pendurava no ombro direito.

Em 1960 ele lançou seu primeiro disco “You Got To Love Her With Feeling”. No ano seguinte, lançou um single com as músicas Have You Ever Loved A Woman e Hide Away (ouça aqui), dois clássicos do Blues. A música instrumental Hide Away estourou e Freddie King se tornou o primeiro músico de Blues a emplacar um hit nas paradas de música pop. A ótima aceitação dessa música fez com que ele gravasse mais faixas instrumentais, que fizeram dele um dos artistas mais vendidos de Blues da década de 1960. Ele começou a fazer grandes apresentações nos Estados Unidos e na Europa. No mesmo período, Freddie começou a se apresentar com artistas e bandas de Rock. Já na década de 1970, teve até mesmo um disco, Burglar, produzido por Eric Clapton, que também tocou guitarra base nas gravações.

Com o sucesso cada vez maior, os shows eram constantes, quase diários. Freddie não tinha tempo para descansar, se alimentava muito mal, e desenvolveu úlceras estomacais. Em 1976 ele também sofreu com uma pancreatite aguda e não suportou as complicações causadas por essas doenças, tendo sua vida encerrada com apenas 42 anos. Sua influência na música é notável, deixando marcas profundas, assim como B.B. e Albert, no Blues e no Rock ‘n’ Roll. Ele foi agraciado com um dia em sua homenagem no Texas, seu Estado natal, o Dia Freddie King, 3 de setembro.

Apesar de não terem nenhum parentesco, B.B., Albert e Freddie, ficaram conhecidos como “Os Três Reis do Blues” (The Three Kings of Blues), em função da sua imensurável contribuição para o gênero e para a música de uma maneira geral. Cada qual com seu estilo único, marcante e envolvente!


Referências

https://12bar.de/cms/albums/three-kings-of-blues/

https://www.rockhall.com/inductees/freddie-king

https://www.npr.org/2012/04/12/150496715/freddie-king-rock-hall-inductee-patriarch-of-blues-rock

https://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=128496104

https://www.udiscovermusic.com/artist/albert-king/

http://www.blueswithafeelin.com/gurus--inspirations.html

https://encyclopediaofarkansas.net/entries/albert-king-617/

https://www.allmusic.com/artist/albert-king-mn0000617844/biography

https://achievement.org/achiever/b-b-king/#interview

https://www.ebiografia.com/b_b_king/

http://www.bbking.com/

http://www.bbking.com/content/about

http://paisdobaurets.blogspot.com/2011/08/os-reis-do-blues.html

https://www.washingtonpost.com/news/acts-of-faith/wp/2015/05/15/how-the-church-gave-b-b-king-the-blues/

https://www.britannica.com/biography/B-B-King

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