• Raphael Uba de Faria

Alexander Von Humboldt: Forrest Gump e Indiana Jones

Olá, pessoal!


Quem já assistiu ou leu Forrest Gump, lembra-se claramente de que ele está presente na maioria dos grandes acontecimentos da história dos Estados Unidos no século XX. Desde a Guerra do Vietnã ao caso Watergate, de encontros com personagens históricos como John Lennon e Elvis Presley à presença em catástrofes naturais como o Furação Carmen. Temos certeza de que algo assim só seria possível em uma obra de ficção. Isso, até conhecermos a fantástica história do naturalista, geógrafo e explorador alemão, Alexander von Humboldt (1769-1859), não por estar presente em grandes acontecimentos, mas por ter influenciado toda uma época.


Alexander von Humboldt de Friedrich Georg Weitsch

Direitos de Imagem: Domínio Público

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Alexandre_humboldt.jpg


Nascido no castelo de Tegel, nos arredores de Berlim (naquela época, parte da Prússia), Humboldt teve uma vida extremamente ativa, pesquisando, viajando, descobrindo, criando teorias científicas, fazendo previsões sobre a natureza e influenciando pessoas, desde seu amigo e conterrâneo Goethe, até o presidente norte-americano Thomas Jefferson e o naturalista inglês Charles Darwin. Alexander é irmão do também ilustre Wilhelm von Humboldt, linguista e fundador da Universidade de Berlim e do sistema educacional alemão, posteriormente copiado por outros países, como Japão e Estados Unidos (sempre que nos referirmos apenas a Humboldt, estaremos falando de Alexander). Antes de falarmos sobre a influência que Humboldt exerceu no mundo, vamos entender como ele se tornou popular.

Dono de uma mente inquieta e de uma memória assombrosa, Humboldt, desde jovem, observava a natureza com um olhar curioso e adorava fazer anotações, medições e análises, das quais se lembrava com precisão décadas depois. Rapidamente ele se familiarizou com a flora e a fauna de sua terra natal e de outras regiões da Europa, como os Alpes Suíços, as tundras do norte do continente e as pradarias. Os dados coletados se tornariam fundamentais para criar sua teoria da natureza quando se encontrava na América do Sul.

Sua expedição ao nosso continente foi realizada na companhia de outro personagem notável, o botânico, médico, filantropo, industrial e outras coisas mais, Aimé Bonpland, um francês que, inclusive, viveu por algum tempo no Brasil. Eles conseguiram autorização da Coroa Espanhola para empreender pesquisas científicas na América e desembarcaram na Venezuela em 1799, para uma jornada épica, digna dos melhores filmes de Indiana Jones, que duraria até 1804.

Uma vez em terras sul-americanas, Humboldt observou os efeitos que a destruição da floresta venezuelana, que dava lugar a gigantescas plantações de uma única espécie (as famosas plantations) exerciam sobre o meio ambiente. Ele identificou e registrou o aumento da temperatura nas regiões desmatadas, o empobrecimento do solo, a erosão, a diminuição do tamanho dos lagos, as inundações e enchentes em períodos de chuva decorrentes da perda da mata ciliar e chamou a atenção para os perigos do desmatamento já naquela época, no final do século XVIII. Mas as partes mais emocionantes da viagem ainda estavam para começar.

Após algum tempo em território venezuelano, Humboldt e Bonpland partiram em busca do famoso Rio Cassiquiare, que supostamente ligava o Rio Negro, afluente do Amazonas, ao Rio Orinoco, outro grande de curso d’água, do qual os europeus tentavam provar a existência havia quase trezentos anos. Após semanas de viagem em meio à densa vegetação da floresta e enfrentando perigos como crocodilos-do-orinico e onças-pintadas (Humboldt deu de cara com uma quando estavam acampados na margem do rio), eles finalmente atingiram a entrada do Cassiquiare. Por ele, navegaram por mais algum tempo, até que, de repente, desembocaram no Rio Negro. Estava provada a existência da ligação entre as bacias do Amazonas e do Orinoco, que implicou na descoberta do que pode ser considerada a maior ilha fluvial do mundo!


A ilha fluvial formada pelos rios Negro, Cassiquiare e Orinoco.

Fonte: http://salvador-nautico.blogspot.com/2017/04/cassiquiare.html


Em seguida, partiram para o Equador, para escalar o Chimborazo, um vulcão, até então, considerado o pico mais alto do mundo, com 6.267 metros de altitude. Nenhum homem jamais tido ido tão alto. Os nativos que os acompanhavam abandonaram a expedição em determinada altitude, deixando Humboldt, Bonpland e outros três acompanhantes, sozinhos. Esgueirando-se por passagens estreitas, com paredes de pedras que por vezes se soltavam de um lado, e desfiladeiros assustadores do outro e parando constantemente para fazer anotações e medições, eles conseguiram vencer a montanha. Observando o mundo lá do alto, Humboldt concebeu a ideia que a natureza era um todo vivo e conectado, em que cada elemento dependia um do outro. Ele acabava de criar o conceito de natureza como a entendemos hoje.

Mas ele foi além! Ele percebeu que a vegetação mudava à altura em que subiam a montanha e que em determinadas altitudes, ela se parecia com a vegetação da Prússia, com a da tundra do norte da Europa, com a dos Alpes Suiços... Humboldt descobriu que a vegetação muda da mesma forma à medida que se afasta da Linha do Equador ou que se ergue nas montanhas. Aqueles esquemas que estudamos desde cedo nas escolas, com uma montanha com plantas diferentes foi criado por ele!

Deixando o Equador ele passou por México, Cuba e Estados Unidos, país em que sua influência foi fortíssima. Lá ele se tornou amigo do então presidente Thomas Jefferson, para quem fez fortes críticas sobre a escravidão, que o indignara tanto nos Estados Unidos e na América Espanhola. Posteriormente, na França, conheceria e influenciaria o jovem venezuelano Simón Bolívar a quem apresentou diversas impressões sobre a América do Sul e sobre o domínio espanhol, que acabaram alimentando o pensamento e a posterior luta pela independência da região.

Ao retornar da América, Humboldt havia se tornar o segundo homem mais conhecido do mundo, atrás apenas de Napoleão. Circulando entre as elites culturais e científicas dos Estados Unidos e da Europa, suas ideias influenciaram a ciência, a arte, a educação e a política mundiais. Alguns dos maiores escritores de todos os tempos, como Ralph Waldo Emerson, William Wordsworth, Samuel Coleridge, Henry David Thoreau, entre outros, revelaram profunda admiração e reconheceram a influência do naturalista sobre sua obra. Mas a maior homenagem viria de seu amigo Johann Wolfgang von Goethe que se inspirou na sede por conhecimento de Humboldt (somada às lendas sobre um alquimista do fim da Idade Média) para desenvolver seu personagem mais icônico, que queria conhecer tudo o que podia ser conhecido: Fausto!

Diversos estudiosos e exploradores, entre eles, Charles Darwin, atribuem a Humboldt o empurrão que os levou a realizar suas descobertas. Darwin levava os livros de Humboldt para onde ia e os levou em sua viagem no Beagle, quando, influenciado por várias ideias propostas ou sugeridas por Humboldt, criou a teoria da evolução das espécies.

Mas nada melhor para comprovar a influência e a importância de Humboldt do que a facilidade com que encontrarmos seu nome por aí. Temos a Corrente de Humboldt, na costa do Pacífico, na América do Sul, a lula-de-humboldt, o pinguim-de-humboldt e mais centenas de animais e plantas, alguns minérios, diversos acidentes geográficos (nos Estados Unidos, Venezuela, Colômbia, Equador, China, Groênlândia, África do Sul, Antártica, até mesmo um Rio Humboldt em Santa Catarina), parques, escolas, etc, batizados em sua homenagem. Até mesmo fora da Terra, há o Mar de Humboldt, na Lua!

Com sua inquietude e curiosidade naturais, sua visão interdisciplinar em um período em que a segmentação científica ganhava cada vez mais força e uma dedicação incrível à ciência, Alexander von Humboldt se transformou em um dos maiores cientistas de todos os tempos. Sua vivência, suas aventuras (ainda faria outra expedição para a Rússia com mais de sessenta anos) e a incrível influência que exerceu sobre sua sociedade nos mais diversos campos não abrem espaço para Forrest Gump ou Indiana Jones nenhum botar defeito! Para quem quiser conhecer sua história mais a fundo, indico o excelente livro “A Invenção da Natureza”, de Andrea Wulf, especialista em Humboldt que refez muito de seus passos, inclusive a escalada do Chimborazo, lançado no Brasil pelo selo Crítica, da Editora Planeta.




Fontes


WULF, Andrea. A Invenção da Natureza: a vida e as descobertas de Alexander von Humboldt. São Paulo: Planeta, 2016.


http://salvador-nautico.blogspot.com/2017/04/cassiquiare.html


https://www.deutschland.de/pt-br/topic/conhecimento/humboldtjahr-2019-sieben-fakten-zu-alexander-von-humboldt


https://www.dw.com/pt-br/como-humboldt-p%C3%B4s-a-am%C3%A9rica-latina-no-mapa-da-ci%C3%AAncia/a-47566859


https://www.dw.com/pt-br/1804-humboldt-retorna-da-expedi%C3%A7%C3%A3o-pela-am%C3%A9rica-latina/a-1284527


https://www.dw.com/pt-br/wilhelm-von-humboldt-e-a-revolu%C3%A7%C3%A3o-da-educa%C3%A7%C3%A3o/a-39366493


https://www.goethe.de/ins/br/pt/kul/fok/ksm/21462442.html

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