• Professor Wagner Lacerda

Colonialismo, Índia, Salman Rushdie e Star Trek

Salman Rushdie parece o homem certo para estudar a cultura no mundo contemporâneo. O escritor, nascido na Índia em 1947, no seio de uma família muçulmana liberal, morou por muitos anos na Inglaterra e lá estudou, tendo, inclusive, obtido o diploma em história na King's College, em Cambridge. Dessa forma, logo se viu em um “limbo”: jamais absorvido pelo estado europeu, ao mesmo tempo viu-se exilado culturalmente de sua terra natal, uma vez que “europeizado” nunca mais voltaria a ser visto como um oriental. Várias referências que são feitas a ele o tratam como “escritor anglo-indiano” ou ainda como “autor indo-britânico”. Coincidentemente, Rushdie nasceu em 1947, quase dois meses antes de a Índia declarar sua independência da coroa britânica. Mas, em verdade, esse dado pouco importa, porque o fato de o considerarmos um cidadão desterritorializado entre dois mundos diz respeito muito mais a uma questão cultural que, propriamente, a questões que envolvem limites geográficos.

Assim, a vida de Rushdie se envolve com a própria história de seu país. Em trânsito entre o Oriente e o Ocidente, como a própria Índia, o escritor vai construir grande parte de sua obra procurando entender como esses dois mundos, na maioria das vezes tão díspares, influenciam-se mutuamente, por intermédio de aproximações, contatos, conflitos e distensões.

É o que ocorre, por exemplo, em Oriente, Ocidente, livro no qual se encontra o conto “Tchekhov e Zulu”. A obra, publicada por Salman Rushdie em 1994, divide-se em três partes e cada uma delas reúne três contos. A primeira se chama “Oriente” – East, no original – e a segunda, “Ocidente” – West, no original. É importante ressaltar que os contos de cada uma dessas duas partes fazem referências diretas e indiretas aos dois universos culturais em questão, tentando entender a constituição da sociedade de cada um deles. Assim, enquanto de um lado desfilam Hamlet e Cristóvão Colombo, do outro surgem um antiqüíssimo profeta árabe e um humilde condutor de jinriquixá.

Mas é na terceira parte que os dois mundos distantes se encontram efetivamente. Nos três contos de “Oriente, Ocidente” – “A harmonia das esferas”, “Tchekhov e Zulu” e “O corteiro” –, a cultura ocidental e a cultura oriental estão frente a frente em um jogo de constante embate. O intelectual de dois mundos, indiano e britânico, do leste e do oeste, coloca seus conhecimentos e suas dúvidas nas linhas da ficção.

“Tchekhov e Zulu” conta a história de dois amigos indianos. O pano de fundo da narrativa é o assassinato da primeira-ministra da Índia Indira Ghandi, ocorrido em 1984, mas, efetivamente, o núcleo da história gira em torno das relações interculturais entre os dois personagens.

A primeira-ministra indiana Indira Ghandi

Autor: Departamento de Defesa do Governo dos Estados Unidos da América

Fonte: http://photos.lbl.gov/bp/#/search/4603730

Mas por que dizer interculturais se estamos falando de dois indivíduos originários da mesma nação? Não seriam ambos produtores e veículos de uma mesma cultura? A avaliação não é tão simples. Com uma amizade de longa data, desde a infância, Tchekhov e Zulu compartilham gostos, recordações e o mesmo emprego – ambos são diplomatas. Entretanto, quando se encontram em 1984 para uma missão de investigação do caso do assassinato da primeira-ministra, percebem que algo aconteceu. Suas idéias já não mais se afinavam e, devido a isso, até mesmo a amizade sofrera um baque, possivelmente incontornável.

A nação indiana, para os dois amigos, já não era mais a mesma. O emprego de diplomata de ambos os colocou em contato com o mundo ocidental, fazendo com que se vissem em trânsito entre esse novo mundo que conheciam e as antigas tradições do seu mundo de origem: o Oriente. Cada um estabeleceu esse contato de forma diferente. E, logicamente, cada um emergiu desse contato, também, de forma diferente. A Índia de cada um passara a ser, assim, menos um limite territorial e mais uma “comunidade imaginada” – referindo-nos, aqui, ao clássico conceito elaborado por Benedict Anderson.

Se a própria Índia é hoje – e já o era na época em que transcorre o conto – uma nação dividida entre o Oriente e o Ocidente, conservando, por um lado, suas tradições milenares e, por outro, tornando-se referência no novo século em áreas tão distintas como a pesquisa científica e a indústria cinematográfica, como exigir de seus cidadãos uma postura fechada e, até mesmo, essencialista?

Tchekhov e Zulu são indivíduos vivendo em trânsito entre espaços e tempos que se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e semelhança. Que, aliás, nada mais é que a dinâmica da cultura da época em que vivemos. A identidade cultural de cada um desses dois indianos é construída nesse tal trânsito e, volátil e fugidia, vai os afastando/aproximando de formas diferentes da terra natal. É no “entre-lugar” – a palavra exata é essa – que os dois personagens vão forjar suas identidades. Como as mulheres iranianas com o véu na cabeça e um I-Phone na mão, eles são mesmo elementos de dois mundos e, paradoxalmente, de nenhum deles.

É preciso explicar que Tchekhov e Zulu não são os nomes dos dois personagens – nomes estes que, aliás, nunca ficamos sabendo. Os seus apelidos foram retirados da série estadunidense Star Trek, ícone pop da ficção científica – e alegoria, no conto, da influência da cultura ocidental sobre os dois indianos –, tendo em vista o fato de ambos serem fãs da referida série. Quando Tchekhov vai à casa de Zulu, após o sumiço deste durante a tal investigação do assassinato de Indira Ghandi, a mulher do que sumira lhe diz chorando: “– Mesmo o estúpido nome você nunca acertou. Era com S. “Sulu”. Tantos episódios fui obrigada a ver, pensa que não sei? Kirk Spock McCoy Scott Uhura Tchekhov Sulu (RUSHDIE, 2011, p.112)”.

A série de ficção científica tem um duplo funcionamento na intriga do conto. Ao mesmo tempo que é uma alegoria da influência da cultura do Ocidente sobre os dois amigos – como já dissemos – é, também, ironicamente, a única possibilidade de contato e mesmo de intercâmbio cultural que vai sobrando para esses dois “novos” indianos. E há ainda uma referência indireta muito importante que se pode perceber através da presença de Star Trek em “Tchekhov e Zulu”. Mas para isso, é preciso contar, muito brevemente, a história da série.

A nave Enterprise, de Star Trek

Autor: Exfanding your Horizons

Fonte: http://www.exfanding.com/2011/06/users-guide-to-star-trek-original-and.html

Com a Terra em crise e a raça humana quase extinta, uma gigantesca nave chamada Enterprise é enviada aos limites da galáxia para estabelecer contato com outras raças – destacando-se os inteligentes e amistosos Venusianos, os perigosos e astutos Romulanos e os violentos e belicosos Klingons –, sendo que o objetivo principal da viagem é construir, com os vizinhos, a Federação Unida dos Planetas. Tais contatos não transcorrem com facilidade, mas, ao final, contribuem para que os sobreviventes humanos superem grande parte de seus defeitos e, também, alcancem o tão almejado progresso científico, exatamente a partir das intervenções alienígenas.

Já no mundo real, nos anos 80 do século passado, a Índia inicia um processo de abertura econômica para o Ocidente. O governo do período, com o primeiro-ministro Rajiv Ghandi – filho de Indira – à frente, diminui a interferência do estado na iniciativa privada, reduzindo drasticamente o número de setores em que se precisaria de licença para operar, corta impostos sobre exportações e baixa, sensivelmente, as tarifas de importação dos mais diversos equipamentos e máquinas. Evidentemente, tal pacote de abertura da economia aumenta o contato cultural e aproxima Oriente e Ocidente. No entanto, nem tudo transcorre de forma pacífica e harmônica. Nesse mesmo período, vemos o crescimento do fundamentalismo muçulmano, que procurava dar forças ao movimento separatista da Caxemira – região de intermináveis disputas e conflitos entre a Índia e o vizinho Paquistão. Enfim, a Índia de 1980 não nos lembra, bastante bem, a Federação Unida dos Planetas?

Foi por aí que a Índia delineou aquele duplo perfil, já apontado anteriormente, no limiar entre o mundo ocidental e o mundo oriental. Em constante trânsito entre espaços e tempos diferentes, reflete em seus cidadãos esse duplo pertencimento, fazendo com que, no conto, por exemplo, Tchekhov e Zulu partam para o Ocidente, mas, ao mesmo tempo, sintam que alguma coisa ainda os prenda às suas raízes.

Se, como foi dito, Star Trek é o que vai sobrando de contato entre os dois amigos, em que momento eles começam a se separar? Fundamentalmente, na maneira como realizam o trânsito entre Oriente e Ocidente e no modo como a terra natal passa a ser vista e concebida por eles. Tchekhov e Zulu, no momento em que se veem entre o mundo ocidental e o mundo oriental e percebem tal fronteira de forma diferente, não compartilham mais a mesma cultura. Em outras palavras, a identidade cultural passa a suplantar a identidade nacional; os personagens passam a ser, à sua própria maneira, indianos de uma nação muito mais imaginada que “real”.

Tchekhov seria mais “autêntico”. Ele ainda continua ligado à terra natal, apesar de possuir, também, uma casa na Inglaterra. Veste-se como um indiano e até mesmo seu cabelo “carrega” uma certa tradição – claro que “autenticidade” e “ser indiano”, aqui, são termos completamente essencialistas, arbitrados e configurados segundo a imaginação e a decisão, única e exclusivamente, do próprio Tchekhov. Já Zulu tenta configurar uma certa identidade que possa se adequar ao novo mundo que escolheu para morar. Ele, ao contrário do amigo, reside na Inglaterra, procurando mesclar-se e conviver com a cultura ocidental: “O jovem Zulu era um sikh moderno em matéria de cabelo, ostentando um bigode bem cuidado aos dezoito, mas imberbe, com um corte de cabelo em vez da longa cabeleira enrolada debaixo de um turbante (RUSHDIE, 2011, p.113)”.

O modo de ver a antiga metrópole é uma das questões que mais os afasta. Abaixo, são transcritos trechos de um diálogo entre os dois personagens enquanto observavam o movimento, durante o horário de almoço, em Londres:

“– Escroques – disse, sotto voce.

– Cadê? – gritou Zulu, saltando atleticamente e pondo-se de pé. – Devo persegui-lo?

Cabeças se viravam. Tchekhov agarrou a bainha do paletó de Zulu e o puxou de volta para o banco.

– Não dê uma de herói – repreendeu carinhosamente. – Me referia a todos, de modo geral; ladrões, cada um deles. Puxa como gosto de Londres! Teatro, balé, ópera, restaurantes!

[…]

Eu os aplaudo pelo sucesso: hurra! Mas então olho para minha própria terra e constato que ela foi espoliada por ladrões. Não posso negar que há um resíduo de angústia.

– Sinto muito saber de suas perdas – disse Zulu, enrugando a testa. – Mas decerto os culpados não estão na vizinhança.

– Zulu, Zulu, uma figura de linguagem, meu simplório príncipe-soldado. Os museus deles estão cheios de tesouros nossos, foi o que quis dizer. As fortunas e as cidades deles, construídas com pilhagens. E assim por diante. As pessoas perdoam, claro; esta é nossa natureza nacional. Mas as pessoas não precisam esquecer.

[…]

– Eles nos roubaram – disse, reclinando-se, com chapéu de palha e amarelado, nas almofadas listradas enquanto o poderoso Zulu remava.

[…]

– Você devia estar mais satisfeito – disse Zulu, armando os remos e tragando cola-cola. – Devia ser menos ansioso, menos irritadiço. Veja quanta coisa você tem! É suficiente. Recline-se e relaxe. Tenho menos, e para mim basta. O sol está brilhando. O período colonial é um livro fechado.” (RUSHDIE, 2011, p. 113-5)

O trecho transcrito é longo, porém necessário. Por ser, talvez, uma das passagens mais emblemáticas – se não a principal – do conto. “As pessoas não precisam esquecer” ou “O período colonial é um livro fechado”? Eis aí a grande dúvida do período pós-colonial, em qualquer lugar do mundo. Como no Brasil: Portugal é a pátria-mãe ou nada mais que um antro de ladrões que pilharam as riquezas da ex-colônia? A resposta não é simples, como não é simples arbitrar a contenda verbal entre Tchekhov e Zulu. Nem um, nem outro está certo ou errado. Cada um percebe o mundo à sua maneira e responde a ele da forma que melhor lhe satisfaz.

O impasse final vem pelos resultados e reflexos da investigação do assassinato da primeira-ministra Indira Ghandi. Zulu aceitara participar da missão de investigação, espionando grupos extremistas sikhs – os principais suspeitos do assassinato da presidente. No entanto, o personagem – ele mesmo um sikh – decepciona-se profundamente com seu país, seu governo e até com seu amigo Tchekhov – que, aliás, aparenta ser um muçulmano – por perceber que nada será feito para impedir que os sikhs – culpados ou não – sejam massacrados. Estava estabelecida a cisão completa. Zulu desliga-se da carreira diplomática e volta para a Índia, enquanto Tchekhov ascende na profissão. Paradoxalmente, o intolerante com o Ocidente fica e o tolerante retorna às raízes. Eles não partilhavam mais das mesmas ideias, do mesmo nacionalismo, da mesma nação imaginada. Enfim, não partilhavam mais da mesma cultura.


Referência Bibliográfica

RUSHDIE, Salman. Oriente, Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


Foto de Capa

Direitos de Imagem: Domínio Público - aceofnet on unsplash

Fonte: https://unsplash.com/photos/I3Em9PGzkzw

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