• Raphael Uba de Faria

De Formação Rochosa a Ícone do Cinema

Atualizado: 8 de nov. de 2020

Imagine que você está caminhando em meio às árvores em uma região razoavelmente plana e, de repente, se depara com uma rocha de 275 metros de altura com um formato totalmente peculiar! Ela não faz parte de uma serra ou uma cadeia de montanhas e não há mais nada parecido ao redor. Após o espanto e admiração, você irá se perguntar: como isso veio parar aqui?

Muito provavelmente foi essa a reação dos primeiros seres humanos que se depararam com a Torre do Diabo, localizada em Wyoming, nos Estados Unidos. Reação que certamente se repetiu quando os primeiros europeus a encontraram. Desde o início do século XIX, cientistas tentam explicar como ela se formou. Ela é composta por basalto, uma rocha ígnea (ou magmática), que indica que foi formada por magma expelido do centro da terra. Mas, até hoje, os cientistas não foram capazes de definir como esse magma foi expelido.

Torre do Diabo – Wyoming – Estados Unidos da América

Direitos de Imagem: Domínio Pública – Mike Goad on Pixabay -

Fonte: https://pixabay.com/photos/wyoming-s-devils-tower-devils-tower-3915790/

Há quatro teorias principais sobre a questão, mas nenhuma delas é conclusiva. A primeira afirma, simplesmente, que a pressão proveniente do calor no interior da Terra forçou a rocha para cima. A segunda, diz que uma grande massa de rocha magmática se infiltrou entre a rocha sedimentar (formada por restos de matéria orgânica, de pedregulhos e outros sedimentos) da superfície e ficou “escondida” ali, até que a rocha sedimentar fosse totalmente erodida e ela pudesse aparecer.

A terceira teoria afirma que ela é o que restou de um vulcão, sendo, o que se chama, de neck (pescoço) vulcânico. Imagine um vulcão em seu formato tradicional de funil intertido. No centro dele, há uma passagem por onde o magma sobe até ser expelido, chamada chaminé. Após uma erupção, ocorre o processo de resfriamento do magma, agora chamado de lava, que forma as rochas magmáticas, como o já citado basalto. Dependendo da velocidade com que resfria, a lava forma colunas de padrões geométricos que podem ser triangulares ou quadrangulares, se resfriada rapidamente, e pentagonais ou hexagonais se resfriada lentamente. Esses padrões são formados na camada mais próxima à chaminé. Na Torre do Diabo, o resfriamento foi lento e resultou em colunas hexagonais, como podemos ver na imagem a seguir.

Colunas Hexagonais na Torre do Diabo

Direitos de Imagem: NPS – National Park Service (Serviço Nacional de Parques)

Fonte: https://www.nps.gov/deto/learn/nature/tower-formation.htm

Com o passar dos anos, após sua extinção, o vulcão vai sofrendo o processo de erosão e a camada exterior vai se deteriorando até que reste apenas a parte mais densa formada pela rocha compactada próxima à chaminé. Isso é o chamado neck vulcânico.

Finalmente, a quarta teoria, mais recente, afirma que o magma encontrou água subterrânea em seu caminho. Ao entrarem em contato a água evaporou e o vapor causou uma explosão na superfície, formando uma cratera. A lava teria, então, ficado presa, resfriado e se solidificado dentro dessa cratera. Parece uma boa explicação...

Naturalmente impressionante, a Torre do Diabo se tornou, em 1906, o primeiro Monumento Nacional dos Estados Unidos, por decreto do presidente Theodore Roosevelt, que a considerou de interesse científico. Setenta e um anos depois ela se tornaria um ícone do cinema e da cultura pop, conhecida em todo o mundo. Quem visitou nossa página de contato se deparou com essa incrível formação rochosa ao fundo. Muitos devem ter entendido; outros tantos, não. Que relação ela teria com contato? A resposta é a mesma que explica sua ascensão cinematográfica.

Em 1977, o então jovem diretor Steven Spielberg, já famoso por Tubarão, produziu outro filme, que se tornaria um dos mais emblemáticos da história do cinema: Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Nele, diversas pessoas que tiveram diferentes formas de contato com OVNIs (objetos voadores não identificados) começam a ter visões e fazer desenhos, esculturas e outras representações de uma montanha. Essa montanha é, precisamente, a Torre do Diabo, local onde os alienígenas pousam e entram em contato com os seres humanos! Já famosa pelas suas características naturais e ponto de encontro de alpinistas, a torre passou a receber um número ainda maior de visitantes após a realização do filme.


Capa da edição de 30 anos de Contatos Imediatos do Terceiro Grau

Direitos de Imagem: Columbia Pictures Industries – Sony Pictures

Fonte: https://www.sonypictures.com/movies/closeencountersofthethirdkind

E de onde veio seu nome? Ao que tudo indica, de um erro de tradução! O que acontece é que durante uma expedição comandada pelo coronel Richard Irving Dodge, seu interprete entendeu mal o termo nativo que designa a formação e o traduziu como “Torre do Deus Mau”, rapidamente convertido para Torre do Diabo, que nada tem a ver com os nomes mais utilizados pelos nativos norte-americanos, que são Covil do Urso, Casa do Urso ou Toca do Urso. Essas denominações derivam de lendas indígenas, que afirmam que o monólito foi erguido por deuses para proteger pessoas que estavam sendo perseguidas por um urso. Tentando alcançá-las, o urso teria arranhado e marcado a montanha com suas garras (o que explicaria as colunas de pedra em suas laterais).

Desde 2005, os nativos norte-americanos lutam para que a formação tenha seu nome alterado oficialmente para Covil do Urso, alegando que a denominação atual leva a crer, erroneamente, que os rituais realizados há séculos por eles no local seriam maléficos. Entretanto, enfrentam forte oposição de políticos que afirmam que alterar o nome prejudicaria o turismo e causaria perdas econômicas para a região... Será mesmo?

Seja como for, a Torre do Diabo continua sendo cultuada pelos nativos, e admirada por cientistas, alpinistas, amantes da natureza, cinéfilos e ufólogos. Quem quiser saber mais sobre ela, pode acessar o site do Serviço Nacional de Parques (https://www.nps.gov/deto/index.htm) onde é possível, até mesmo, visualizar câmeras que enviam imagens do local, por diferentes ângulos, captadas a cada sessenta segundos, vinte e quatro horas por dia!


Referências:

https://brasilescola.uol.com.br/geografia/vulcoes.htm

https://br.sputniknews.com/sociedade/201509242219236/

https://novaescola.org.br/conteudo/1099/como-os-vulcoes-se-formam-e-agem-no-brasil-os-ja-extintos-podem-voltar-a-atividade

http://vulcanoticias.com.br/wp/dicionario-de-vulcanologia/

https://www.nps.gov/deto/index.htm

https://www.passeidireto.com/arquivo/26402285/oque-e-neck-vulcanico

https://www.todamateria.com.br/rochas-sedimentares/

https://www.youtube.com/watch?v=FGwfjmAUM4w

https://www.youtube.com/watch?v=N9sr2Fl6v10

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