• Professor Wagner Lacerda

Escritora Política ou Miliante Literária?

Zoé Valdés nasceu em Cuba, em 1959 – coincidentemente, na capital Havana, no mesmo ano em que os rebeldes comandados por Fidel Castro e Che Guevara chegaram ao poder na ilha caribenha, derrubando o ditador Fulgêncio Batista. Trabalhou em vários cargos ligados à representação de seu país e em 1995, decepcionada com os rumos da Revolução, abandonou sua terra natal e foi, definitivamente, residir na capital da França. Os livros de Valdés dos quais falamos nesse texto – La nada cotidiana (O nada cotidiano) e La hija del embajador (A filha do embaixador) foram publicados, exatamente nesse ano tão marcante em sua vida.

Como era de se esperar, os livros da escritora são carregados de críticas, frontais ou veladas, ao regime cubano. Mas há diversas peculiaridades na construção dessas críticas. Se por um lado Zoé Valdés não apoia o sistema de governo da ilha, por outro também não é simpática ao seus opostos diametrais: o capitalismo liberal e o neoliberal. Ela não faz de sua obra, de maneira nenhuma, um panfleto partidário antirregime. É, sim, um texto libertário e humanista – no sentido mais simples e objetivo da palavra –, mas que jamais abandona seu status literário. Assim se constrói a obra da escritora cubana: em torno de conteúdos plurissignificativos, sua escrita vai penetrando no universo do simbólico e alterando toda e qualquer pretensa unicidade, reconfigurando, então, identidades e questionando “verdades”.

Ressalte-se que não está em questão, aqui, um possível julgamento da Revolução Cubana e de suas consequências. Além de não ser nossa intenção, parece-nos, mesmo, perda de tempo cair nas velhas armadilhas opositivas tipo “saúde de alto nível x liberdade de expressão”. O que se quer analisar são, apenas, as duas obras já citadas de Valdés, enquanto textos críticos a um regime, inegavelmente, de exceção e a seus excessos e desmandos. E, daí, entender como se constroem identidades em cenários tão complexos e adversos.


A escritora Zoé Valdés

Direitos de Imagem: Joan Antoni Guerrero

Fonte: https://joanantoniguerrero.wordpress.com/2013/01/21/zoe-valdes-fidel-y-raul-castro-saben-que-estan-en-peligro/


Nesse contexto, o tema central das obras de Zoé Valdés é, sem dúvida, o exílio e a difícil relação dos cubanos com sua terra natal. Em La nada cotidiana, está a questão presente:


“Ela sonha com mares de lágrimas escorrendo pelo rosto. Abra seus olhos para o caminho das mulheres que habitam as ilhas. Ela ainda está nua, deitada na areia, o mar ao seu redor acariciando sua pele. Ela foi forçada a voltar para a sua ilha. Aquela ilha que, querendo construir o paraíso, criou o inferno.

Ela não sabe o que fazer. Para que nadar? Por que se afogar?” (VALDÉS, 1996, p.20, tradução nossa)

Não saber o que fazer é a mais perfeita definição da situação em que se encontra o exilado. Marcela, em La hija del embajador, e a “Gusana”, em La nada cotidiana – o gusano é uma espécie de verme e, no livro, aparece como um epíteto nada glorioso dado pelos seguidores do regime aos “traidores” –, amigas de Daniela e Yocandra – as personagens principais, respectivamente, de cada um dos livros –, representam nas obras esses indivíduos que estão longe de sua terra de origem e que tentam se encontrar em um outro país.

Vejamos agora La hija del embajador:


“Sempre renove os abraços de despedida habituais. Ela ensaiou tudo em frente ao espelho. Sair é como virar uma esquina.” (VALDÉS, s/d, p.13, tradução nossa)


Eis a questão do exílio, também, exposta pelo viés da incerteza. O exilado sempre perde algo. Ele sabe que muita coisa vai ficar para trás, mas não pode permanecer; ir embora é um imperativo, não há escolha.

É importante ressaltar que nenhuma das duas personagens principais encontra-se no exílio, propriamente falando. Yocandra continua em Cuba e Daniela está indo a Paris, porém voltará daqui a um determinado período de tempo. Mas, os contatos delas com as amigas exiladas – no caso da primeira, por carta, e no da segunda, pessoalmente, na capital francesa – são fundamentais para a construção das identidades de ambas.

Yocandra e Daniela são, cada uma a seu modo, cubanas. A teia de significados que cada uma constrói para se sentir parte da ilha é diferente; é, diríamos, uma “cubanidade” particularizada, não um padrão delimitado ou esperado a ser seguido pelos nascidos dentro dos mesmos limites territoriais. Zoé Valdés opta, claramente, pela individualidade em detrimento de uma coletividade opressora e imposta. É esse o trabalho político da escritora, tendo em vista que ela se engaja, através de seus textos, na luta pelo respeito às liberdades individuais, liberdades essas, por vezes, solapadas pelo regime de Cuba.

O próprio nome de Yocandra já é um ótimo exemplo do que estamos falando. Vejamos alguns recortes do capítulo dois de La nada cotidiana, em que é descrito o nascimento da personagem:


“Minha mãe diz que foi em primeiro de maio de 1959. Ela estava grávida de nove meses, já sabia que eu era uma menina. Ela diz que caminhou desde a Havana Velha até a Praça da Revolução para ouvir o Comandante. E em pleno discurso comecei a tocar sua pélvis...

[...]

– Já pensaram em um nome?

– Veja... Eu gostaria de colocar Vitória... ou melhor, melhor... Pátria! Pátria é um nome muito original! Sou o pai, o pai de Pátria, da Pátria!

[...]

E meu pai, emocionado, soluçou acreditando-se glorioso.” (VALDÉS, 1996, p.21-6, tradução nossa)


Estamos falando da mesma pessoa? Pela leitura de um pequeno trecho do capítulo seguinte, entenderemos que sim. A personagem está caminhando pela rua quando ouve uma pessoa a chamando:


“– Pátria, está surda? Não se lembra de mim?

– É que eu mudei meu nome. Agora me chamo Yocandra.” (VALDÉS, 1996, p.32, tradução nossa)


Enfim, Pátria e Yocandra são a mesma pessoa. O que ocorreu foi uma escolha própria da personagem. Não mais o glorioso – e marca óbvia da coletividade – Pátria, mas o simples e único Yocandra. Aliás, nada mais identitário que o próprio nome. Do nascimento “apoteótico” até renegar o nome que lhe haviam dado, o que foi que aconteceu com Pátria/Yocandra? Ao contrário do que possa parecer, a personagem não detesta sua terra natal, seu problema é estar forçosamente vinculada a uma ideia que está vinculada a outra: pátria, nos governos de exceção, é o regime, e vice-versa – basta lembrar-nos do “Brasil, ame-o ou deixe-o”, lema categórico da ditadura militar brasileira. Construindo sua própria, e única, identidade cultural – com significados exclusivos para pátria e Pátria –, Yocandra procura defini-la longe de padrões delimitadores e pré-concebidos.

Podemos perceber, não através da mesma questão do nome, o mesmo processo de construção de uma identidade cultural individual e exclusiva por parte de Daniela:


“Finalmente sozinha. Ela se banhava, vestia-se, e, sem café da manhã, saía para a rua, corria por túneis, pontes e avenidas até o apartamento de Marcela. Estar sozinha em um apartamento era fascinante, fazia com que ela se sentisse menos subdesenvolvida, e esse local era um pequeno paraíso: sala de estar com almofadas distribuídas por toda parte e sala de jantar com móveis suecos baratos. Três quartos: o de hóspedes, o do dono e, no outro, Marcela tinha construído um laboratório para revelar fotografias. Cozinha espaçosa e arrumada. Dois banheiros, varanda minúscula, janelas góticas com cestos de flores, piso de madeira. Ela e Marcela odiavam estofados. Fotos e pôsteres por toda parte. Em cima de um pedestal havia uma pequena bandeira cubana.” (VALDÉS, s/d, p.63-4, tradução nossa)


Também, lá está Cuba – agora, como uma bandeirola no apartamento de Marcela.

Daniela e Yocandra – e Zoé Valdés –, reiterando, não odeiam sua terra natal. Apenas não aceitam ter suas individualidades sacrificadas por ela e nem por ninguém que, pretensamente, a representa. No entanto, devemos nos atentar a um detalhe: é preciso ter cuidado para não se pensar que o que está sendo construído por Valdés é uma carapaça em torno das duas personagens. O desafio da escritora é criar para elas um porto seguro a partir de onde possam se relacionar com o mundo.


Havana, capital de Cuba

Direitos de Imagem: Jorge Royan

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Havana_-_Cuba_-_3917.jpg


E não podemos encerrar sem abordar a questão do feminino. As identidades culturais estruturadas por Daniela e Yocandra têm três suportes básicos: ser cubana – e latino-americana –, querer preservar sua própria individualidade e ser mulher. A questão para ambas é entender como viver em um país fechado, ainda mais sendo mulher. Ora, não é nenhuma novidade o fato de a mulher estar sempre em uma perspectiva secundária em relação aos homens – seja em Cuba ou em qualquer entre país. Apesar de, felizmente, muitos avanços já terem sido conquistados, as mulheres ainda trabalham mais e ganham menos, têm seus direitos mais básicos desrespeitados – como o direito ao próprio corpo – e sofrem violências físicas e emocionais diversas.

Pierre Bourdieu explica:


“A dominação masculina encontra, assim, reunidas todas as condições de seu pleno exercício. A primazia universalmente concedida aos homens se afirma na objetividade de estruturas sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho de produção e de reprodução biológica e social, que confere aos homens a melhor parte, bem como nos esquemas imanentes a todos os habitus: moldados por tais condições, portanto objetivamente concordes, eles funcionam como matrizes das percepções, dos pensamentos e das ações de todos os membros da sociedade, como transcendentais históricos que, sendo universalmente partilhados, impõem-se a cada agente como transcendentes.” (BOURDIEU, 1999, p.45)


Bourdieu utiliza um termo bastante categórico – aparece, inclusive, no início do trecho de onde retiramos a citação acima – para definir a dominação masculina: violência simbólica. Além da mais que evidente dominação prático-pragmática do homem sobre a mulher, há outra velada, silenciosa, quase subliminar. Ela ocorre, efetivamente, no campo do simbólico, introjetando imagens na sociedade e associando-as ao universo feminino, como a fragilidade, o descontrole emocional e a falta de aptidão para o trabalho, principalmente intelectual.

Gradativamente, as mulheres foram recusando a subalternidade. E assim, também, fizeram-no no campo do simbólico. Para isso, foi de fundamental importância a contribuição de muitas escritoras, nas mais diversas épocas; lembramo-nos, aqui de Virgínia Woolf, Sylvia Plath e Clarice Lispector, só para citar alguns poucos exemplos. Zoé Valdés envereda por esse caminho. Yocandra – em La nada cotidiana – e Daniela – em La hija del embajador – são resistências simbólicas da escritora a uma posição de inferioridade da mulher, tanto em seus livros, como na vida real.

Ambas as personagens mantêm relacionamentos não condizentes com o que a sociedade espera da mulher e projeta para ela. Daniela embarca em uma paixão alucinada por um tal “Barón Mauve”, uma espécie de ladrão ao contrário que, alegoricamente, retira obras de arte falsas das casas da elite parisiense e as substitui pelas verdadeiras durante um mês – sendo que em um desses roubos Daniela até vai junto. Já Yocandra se casa com um homem mais velho – o Traidor –, apenas para poder usufruir de uma vida melhor. Ou seja, o casamento por ocasião desta e a paixão desmedida daquela não se conformam nos limites estabelecidos para as relações femininas. É Zoé Valdés dizendo não às ordens masculinas.

A leitura e a consequente análise das duas obras da escritora – La nada cotidiana e La hija del embajador – possibilitaram-nos tecer algumas considerações importantes sobre a construção de identidades em contextos sociopolíticos complexos e adversos. Em ambos os textos, a escritora procura refletir sobre situação da mulher em regimes de exceção – no caso específico, o cubano. Assim, nossa abordagem, desde o início, deu-se a partir de um viés cultural, focando a construção das identidades em modos individualizados e únicos que não seguem – e recusam-se a seguir – modelos pré-concebidos, padronizados e limitantes.



REFERÊNCIAS


BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.


VALDÉS, Zoé. La hija del embajador. Madrid: Ediciones Destino, s/d.


______. La nada cotidiana. Buenos Aires: Emecé Editores, 1996.

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