• Raphael Uba de Faria

J.M.W. Turner: da calma das cidades aos mares violentos


J.M.W. Turner – O Lutador Temeraire – 1839

Direitos de Imagem: Domínio Público via The National Gallery

Fonte: https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/joseph-mallord-william-turner-the-fighting-temeraire


Olá, pessoal!


Joseph Mallord William Turner foi um dos maiores pintores britânicos de todos os tempos. Tendo seu talento reconhecido ainda na juventude, Turner produziu prolificamente, deixando uma obra com cerca de quinhentas e cinquenta pinturas a óleo, duas mil aquarelas e trinta mil pinturas em papel, o que é impressionante! Um prodígio, ele foi admitido na Academia Real de Artes (Royal Academy of Arts) em 1789, com apenas quatorze anos! Dez anos depois, foi nomeado “Membro Associado” da academia, posto reservado a apenas quarenta artistas!

O rápido reconhecimento permitiu que ele se dedicasse exclusivamente à sua arte, algo não muito comum. Viajando pela Inglaterra e pela Europa, ele fez inúmeros esboços nos quais trabalhava, posteriormente, em sua galeria.


J.M.W. Turner –Uma Igreja Romanesca Perto de Lyon – 1802

Direitos de Imagem: Creative Commons CC-BY-NC-ND (3.0 Unported) via Tate Museum

Fonte: https://www.tate.org.uk/art/artworks/turner-a-romanesque-church-near-lyons-d04422


Durante seus anos de estudo na academia, Turner desenhou modelos de gesso de antigas esculturas e estudou pinturas de nudez, que o capacitavam a pintar as muito valorizadas imagens históricas. O objetivo principal da Academia Real era difundir a arte inglesa, até então depreciada, pela Europa e o tema histórico era o porto seguro para o sucesso àquela época. Todavia, a pintura de Turner se transformou para sempre quando ele conheceu a obra do pintor barroco francês Claude Lorrain, famoso por suas pinturas de paisagens, algo que não era ensinado na Academia, mas que estava em ascensão entre o público burguês e que fascinava Turner, um grande admirador da natureza. Quando contemplou “Porto Marítimo com o Embarque da Rainha de Sabá” em uma exposição na Inglaterra, Turner, que era um perfeccionista, começou a chorar e disse que jamais seria capaz de criar algo assim.


Claude Lorrain – Porto Marítimo com o Embarque da Rainha de Sabá – 1648

Direitos de Imagem: Domínio Público via The National Gallery

Fonte: https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/claude-seaport-with-the-embarkation-of-the-queen-of-sheba


Inspirado pela obra do francês, ele começou a estudar assiduamente as técnicas de luz e de sombra, o que foi fundamental para o desenvolvimento de sua pintura. Essas técnicas o destacariam de seus colegas ingleses, tornando-o o mais conceituado pintor da época. Ao observarmos alguns de seus quadros percebemos que ele se esforçou para levar essas técnicas ao extremo.


J.M.W. Turner – Erupção do Monte Vesúvio – 1817

Direitos de Imagem: http://www.williamturner.org/

Fonte: http://www.williamturner.org/eruption-of-vesuvius/


Cento e trinta anos após a morte de Turner, o letrista e baterista Neil Peart escreveu os versos “as calçadas podem fervilhar com energia intensa, mas a cidade é calma neste mar violento” para a música The Camera Eye (O Olho da Câmera), do álbum Moving Pictures, da banda canadense Rush. Foi daí que veio a inspiração para o título deste artigo. Ainda que escritos em um contexto diferente, esses versos parecem descrever perfeitamente uma faceta da obra de Turner.

Quando observamos suas pinturas de cidades, vemos, quase sempre, um cenário que transmite tranquilidade, com a vida transcorrendo calmamente, como em “O Grande Canal, Veneza, com gôndolas e figuras em primeiro plano” apresentado na parte final deste texto. Mas, ao olharmos suas representações do mar e algumas de outras paisagens, tudo muda! Percebemos traços rápidos e revoltos, muitas vezes mesclados em um único movimento, que criam uma atmosfera pouco definida, que tenta transmitir a força da natureza em contraposição à vulnerabilidade dos homens. A arte se conecta de maneiras surpreendentes!

Se, por um lado, contemplamos e admiramos com tranquilidade suas paisagens urbanas, por outro, somos arrebatados por uma série de emoções ao vermos suas cenas marítimas. Claramente, Turner tenta provocar um sentimento impactante, buscando levar o observador para dentro da cena, para que possa sentir, por exemplo, o medo causado por uma tempestade no mar. Suas pinturas “Tempestade de Neve – barco a vapor na boca de um porto” e “A Ponte do Diabo no Passo São Gotardo”, são ótimos exemplos.


J.M.W. Turner – Tempestade de Neve – barco a vapor na boca de um porto – 1842

Direitos de Imagem: Creative Commons CC-BY-NC-ND (3.0 Unported) via Tate Museum

Fonte: https://www.tate.org.uk/art/artworks/turner-snow-storm-steam-boat-off-a-harbours-mouth-n00530


J.M.W. Turner – A Ponte do Diabo no Passo São Gotardo – 1841-1843

Direitos de Imagem: Coleção Privada via Meisterdrucke

Fonte: https://www.meisterdrucke.at/kunstdrucke/Joseph-Mallord-William-Turner/39683/No.0586-Die-Teufelsbr%C3%BCcke,-St.-Gotthard,-um-1841-(WC-und-Tusche).html


Com o passar do tempo, suas pinturas foram se tornando cada vez mais abstratas, para espanto geral. A arte ainda era vista, naquela época, como algo que devia reproduzir a realidade o mais precisamente possível. Mas Turner estava extrapolando esses limites, experimentando algo novo, tentando traduzir sentimentos através de seu pincel. Ele estava abrindo as portas da arte para uma nova era! Essa mudança fica evidente em duas representações do Grande Canal de Veneza, uma de 1818 e outra de 1840.


J.M.W. Turner – O Grande Canal, Veneza, com gôndolas e figuras em primeiro plano – 1818

Direitos de Imagem: Coleção Privada via Meisterdrucke

Fonte: https://www.meisterdrucke.pt/impressoes-artisticas-sofisticadas/Joseph-Mallord-William-Turner/819912/O-Grande-Canal,-Veneza,-com-g%C3%B4ndolas-e-figuras-em-primeiro-plano,-c.1818.html


J.M.W. Turner – Veneza: O Grande Canal com Santa Maria della Salute

Direitos de Imagem: Coleção Privada via www.william-turner.org/

Fonte: https://www.william-turner.org/Venice-Grand-Canal-With-Santa-Maria-Della-Salute.html


A pintura de Turner continuou sendo apreciada após sua morte e espalhou-se pelo mundo, influenciando decisivamente o Impressionismo e o Expressionismo abstratos. No ano de 2005, sua obra O Lutador Temeraire, que abre nosso texto, foi eleita pelos britânicos a maior pintura da nação, em pesquisa realizada pela BBC, de Londres. Entretanto, Turner considerava que suas obras primas eram duas pinturas sobre a ascensão e queda do Império Cartaginês. Quando as contemplamos, fica evidente que o impacto causado por Claude Lorrain sempre o acompanhou.


J.M.W. Turner – Dido Construindo Cartago – 1815

Direitos de Imagem: Domínio Público via The National Gallery

Fonte: https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/joseph-mallord-william-turner-dido-building-carthage


J.M.W. Turner – O Declínio do Império Cartaginês – 1817

Direitos de Imagem: Creative Commons CC-BY-NC-ND (3.0 Unported) via Tate Museum

Fonte: https://www.tate.org.uk/art/artworks/turner-the-decline-of-the-carthaginian-empire-n00499




Fontes:

PADBERG, Martina. J.M.W. Turner. Paris: Könemann, 2007.

https://www.artsy.net/article/artsy-editorial-jmw-turner-britains-great-painter-tempestuous-seas

https://www.larousse.fr/encyclopedie/personnage/Claude_Gell%C3%A9e_ou_Gel%C3%A9e_dit_Claude_Lorrain/126542

https://www.larousse.fr/encyclopedie/personnage/Joseph_Mallord_William_Turner/147705

https://www.tate.org.uk/art/artists/joseph-mallord-william-turner-558

http://www.turnersociety.com/turner/

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