• Wagner Lacerda

João Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, pequena cidade de Minas Gerais, no dia 27 de junho de 1908. O primeiro dos seis filhos de Florduardo Pinto Rosa e de Francisca Guimarães Rosa mudou-se, ainda bem pequeno, para a casa dos avós, em Belo Horizonte, onde concluiu o curso primário. Após uma rápida passagem, no início do curso secundário, pela cidade de São João del Rei, ele retornou a Belo Horizonte, indo estudar no conceituado – e caro – Colégio Arnaldo, o que só foi possível graças ao apoio financeiro de um tio fazendeiro muito rico. Lá, então, concluiu o curso secundário. Em 1925, com apenas espantosos 16 anos, já estava matriculado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.

Veio o ano de 1930, extremamente significativo na vida do jovem João. Depois de alguns anos de estudo, ele se graduou em medicina. O novo médico, então, foi trabalhar em Itaguara, na época, distrito de Itaúna – também no estado de Minas Gerais -, onde ficou por dois anos. Foi ali que o futuro escritor começou a tomar contato com pessoas, lugares e eventos do sertão, figuras essas que viriam a inspirar e a ser fundamentais no desenvolvimento da sua obra. Foi, ainda, no mesmo ano, que João Guimarães Rosa se casou pela primeira vez: da união com Lígia Cabral Pena, em cerimônia realizada no dia 27 de junho, nasceram suas duas filhas: Vilma e Agnes. E, como se já não fosse emoção suficiente, foi, também, no marcante 1930 que ele publicou seus primeiros contos na extinta revista O Cruzeiro.

No ano de 1932, Guimarães Rosa retornou, mais uma vez, para a capital mineira. Em Belo Horizonte, ele serviu como voluntário da Força Pública durante a Revolução Constitucionalista. Tempos depois, ele viria a trabalhar na mesma Força Pública – atual Polícia Militar –, mas, então, como concursado. Foi durante a Revolução Constitucionalista que, em missão na cidade de Passa Quatro, próxima ao limite entre Minas Gerais e São Paulo, veio a conhecer outro médico mineiro que, também, viria a ser muito conhecido – assim como o jovem João, não pela medicina: o futuro presidente Juscelino Kubitschek. Depois dessa época, Guimarães Rosa trabalhou como oficial médico no 9º Batalhão de Infantaria em Barbacena.

Em 1934, surge uma nova faceta do múltiplo João. Ele presta concurso para o Itamarati e é aprovado em segundo lugar. Nascia, então, o Guimarães Rosa diplomata. No ano de 1938, quando começou a Segunda Guerra Mundial, ele era cônsul-adjunto na cidade de Hamburgo, na Alemanha. Foi também nesse mesmo ano que o jovem diplomata conheceu aquela que viria a ser sua segunda esposa: Aracy Moebius de Carvalho. O casal, inclusive, viria a ajudar vários judeus a fugir dos nazistas rumo ao Brasil, tanto forjando passaportes falsos para eles quanto levando-os escondidos em carros da embaixada até os aeroportos que seriam a chance, talvez única, de uma nova vida. Em 1942, quando o Brasil rompeu relações com o regime nazista, João Guimarães Rosa foi preso, juntamente com outros brasileiros, na cidade de Baden-Baden. Assim que foi libertado, seguiu para Bogotá, onde atuou como secretário da Embaixada Brasileira. E, com o final da guerra, voltou para a Europa, estabelecendo-se em Paris, entre os anos de 1946 e 1951, período em que passou a escrever com bastante frequência e em razoável quantidade.


Casa de Guimarães Rosa, em Cordisburgo, Minas Gerais. Hoje, transformada em museu da vida e da obra do escritor.

Autor: Tiago Macedo

Fonte:https://web.archive.org/web/20161027171159/http://www.panoramio.com/photo/90207101


Estudante, médico, diplomata, marido, pai... Mas, e o escritor Guimarães Rosa? O jovem João, como já dissemos, começou a despontar para o universo das letras em 1930, com a publicação de seus contos na revista O Cruzeiro, intitulados: “Caçador de camurças”, “Chronos Kai Anagke”, “O mistério de Highmore Hall” e “Makiné”. Após isso, o escritor mineiro publicou, em 1936, uma coletânea de poemas intitulada Magma, obra que veio a ser premiada pela Academia Brasileira de Letras. Aliás, Magma foi seu único livro de poesias. E no ano seguinte, surgiu a obra Contos, que viria, mais tarde, após acréscimos, cortes, ajustes e reparos, a ser republicada, já com o nome de Sagarana.

E foi Sagarana que, após longo hiato de 10 anos, revelou a face mais conhecida de João Guimarães Rosa: nascia o prosador do sertão mineiro, cheio de superstições, maneirismos e vocábulos regionalistas; um homem de outra época, de outro lugar... de outro mundo! Ainda assim, sem deixar de ser, paradoxalmente, universal e atemporal, como veremos. Cabe lembrar, aqui, que as experiências sertanejas do escritor nasciam da experiência. Ele acompanhou diversas caravanas de tropeiros pelo interior de Minas Gerais e, lá, foi conhecendo pessoas, lugares, falas, olhares, sabores... Não é que sua obra se torne, então, um diário. Nada disso. Sua imaginação fértil e seu talento ímpar vão muito além do mero relato, mas não se pode negar que a raiz das suas viagens está lá, presente na gênese das suas narrativas.

Talvez, 1956 seja o centro da produção literária de João Guimarães Rosa. Nesse ano, deu-se a publicação do conjunto de novelas Corpo de baile e, também, daquela que é considerada a obra prima do escritor – para muitos críticos, a obra prima da literatura brasileira: Grande Sertão: Veredas. A história do jagunço-filósofo Riobaldo, do seu amor proibido por Diadorim, do diabo que vive dentro de cada um de nós, até hoje, perturba, seduz e atrai uma legião de apaixonados leitores e cria, na literatura brasileira, um novo estilo de escrita literária: o “roseano”.

Após Grande Sertão: Veredas, o escritor ainda lançou vários livros de contos, antes de ser eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras em 1963. Fosse por sua formação extremante vinculada ao misticismo e à religiosidade do interior do Brasil, fosse por uma certa indisposição “premonitória”, o fato é que Guimarães Rosa adiou a posse na ABL por quatro anos. Ele sempre falava no receio de ser tomado por uma forte emoção e de ser perigosamente abalado por ela quando da ocasião da posse.

Enfim, em 16 de novembro de 1967, o escritor mineiro o fez e, recebido por Afonso Arinos de Melo Franco, assumiu seu lugar na cadeira de número 2 – ocupada em primeiro lugar pelo escritor multifacetado Coelho Neto e cujo patrono era o poeta ultrarromântico Álvares de Azevedo -, sucedendo a João Neves da Fontoura. Três dias depois, com apenas 59 anos, João Guimarães Rosa morreria de infarto. Saía de cena o pai de Riobaldo, Diadorim, Hermógenes, Miguilim, Manuelzão, Augusto Matraga e tantos outros. Ou não saía de cena? Como ele prório afirmou no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: “[...] a gente morre é para provar que viveu.”



Foto de Capa: João Guimarães Rosa

Direitos de Imagem: Academia Brasileira de Letras

Fonte: https://www.academia.org.br/academicos/joao-guimaraes-rosa/biografia

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