• Wagner Lacerda

O cinema: reflexões e ensinamentos

Um garoto de dez anos entra no cinema pela primeira vez. Estamos em 1983. As primeiras imagens na tela mostram um sujeito imenso, com armadura negra, voz gutural e presença assustadora. Darth Vader é o nome dele. Não do garoto... do sujeito na tela, claro! Aliás, na verdade, o sujeito na tela se chama Anakin Skywalker; mas isso é história para outra hora...

Muito tempo e muitos filmes depois, o garoto já não tem mais dez anos – aliás, há muito tempo, não é mais um garoto... E se vê pensando no que o cinema representou e continua representando para ele. A Sétima Arte encheu seu mundo de significado, diversão e sonho. Ainda hoje, ele se emociona com E.T. e as crianças passando com suas bicicletas em frente à lua, enquanto a fantástica trilha sonora (pleonasmo?) de John Williams toca ao fundo. Ou vibra com Marty McFly chegando aos anos 50 a bordo do DeLorean. O sonho é a essência do cinema, como, a propósito, Georges Méliès nos ensinou há muito tempo.

De Volta para o Futuro, dirigido por Robert Zemeckis, estreou em 1985. Apenas dois anos depois, o garoto, já um pouco maior, assistiu à 59ª cerimônia do Oscar, acompanhando sua mãe, e descobriu que existiam outros tipos de filmes. Conheceu, ali, Platoon, de Oliver Stone, Hannah e suas Irmãs, de Woody Allen, Veludo Azul, de David Lynch... E descobriu que tinha muito a aprender com o cinema!


Cartaz do filme Platoon (1986), de Oliver Stone

Autor: Bill Gold

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Platoon_(film)#/media/File:Platoon_posters_86.jpg


O cinema diverte e faz sonhar, mas, também, provoca reflexões e ensina a viver. Não existe qualquer critério de valoração entre uma coisa e outra. Um filme que “faz pensar” não é, necessariamente, de melhor qualidade que um filme que “faz sonhar”. Inclusive, a mesma obra que funciona de uma forma pode, também, funcionar de outra. Star Wars é exemplo disso. Se, por um lado, a imaginação viaja por uma galáxia muito, muito distante, por outro, a jornada de Anakin Skywalker, de seus filhos Luke e Leia, do anti-herói Han Solo e de seu amigo Chewbacca, e de tantos outros, tem muito a ensinar, por exemplo, sobre ética, democracia, autoritarismo, vaidade, persistência...

Feitas tais ressalvas, passamos a refletir sobre filmes de cunho prioritariamente reflexivo. É, quase, um exercício metalinguístico: pensar sobre o cinema que faz pensar! E, para tentar cumprir um certo efeito lógico-didático, dois nomes foram selecionados para um diálogo prolífico e interessante.

Nesse sentido, um primeiro já surge em destaque: o do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918/2007). Martin Scorsese – outro gênio da Sétima Arte – afirma que qualquer adolescente que pensasse em fazer filmes nas décadas de 50 e 60 do século passado seria, com certeza, influenciado por Bergman. Mas o que o torna tão importante assim? Dentre as quase duzentas peças de teatro e as dezenas de filmes e documentários que dirigiu, tendo roteirizado a maioria deles, a sua marca é inconfundível: a garantia de muitas reflexões, análises e elaboradas teorias por parte do público. Quem está acostumado com o cinema que causa taquicardia, provavelmente, vai estranhar suas obras. É possível afirmar sem medo: Ingmar Bergman é o maior filósofo da história do cinema. Ou seria o maior diretor de cinema da história da filosofia?

Tal tendência já se mostrava no seu primeiro filme, Crise (1945), e, com o tempo, foi sendo cada vez mais refinada em sua filmografia. Lançados de forma quase simultânea, entre os anos de 1956 e 1957, O Sétimo Selo e Morangos Silvetres fazem parte das listas de filmes mais importantes da história do cinema. O primeiro é um tratado sobre fé, ideologia, vida, morte, Deus. O cavaleiro Antonius Block retorna das Cruzadas e encontra a Europa devastada pela Peste Negra. De que valeu estar lá longe de sua família defendendo a cristandade? Dúvida existencial que retornaria com toda a força em Luz de Inverno (1962), onde um pescador desesperado com a notícia da iminente utilização de uma bomba nuclear pela China vai até uma igreja em busca de conforto espiritual. Porém, o pastor não consegue ajudá-lo, já que passa por uma severa crise em relação a sua própria fé. Coincidentemente, o cavaleiro e o pescador são interpretados pelo mesmo ator, Max von Sydow, um dos preferidos de Bergman. É em O Sétimo Selo que Block/von Sydow joga xadrez com a Morte em uma cena antológica.

Morangos Silvestres é, também, uma história de busca de sentido para a vida. Mas, aqui, esse sentido é menos divino e mais terreno. O professor Isak Borg, de 78 anos, interpretado magistralmente por Victor Sjöström, viaja de carro com sua nora Marianne até a Universidade de Lund, onde receberá o título de doutor honoris causa. Só uma das cenas iniciais, que mostra o professor tendo um sonho muito estranho na noite anterior à viagem, já vale o ingresso. Em um misto de Surrealismo e Expressionismo Alemão, de Salvador Dalí e Fritz Lang, Bergman mostra o professor Borg presenciando o que pode ser seu próprio enterro. Contundente e incômodo, mexe com o espectador. E, aí, é dada a largada para uma grande reflexão sobre a vida e sobre o significado dela... e do que se fez com ela.

O já citado Luz de Inverno compõe com Através de um Espelho (1961) e O Silêncio (1963) a chamada Trilogia do Silêncio. Nos três filmes, são analisados, além das perspectivas da perda da fé – conforme já foi citado –, relacionamentos familiares, inveja, loucura, amor, linguagens... Em O Silêncio, as irmãs Anna e Ester viajam pela Europa, juntamente com o filho adolescente da primeira, e ficam obrigadas a parar em um país estrangeiro, dentro de um cenário de guerra. Isoladas em um hotel praticamente deserto, as irmãs enfrentam-se e amparam-se em um misto de amor e ódio, de inveja e empatia. O clima angustiante e a exímia montagem são coroados pela belíssima atuação de Ingrid Thulin, que interpreta Ester, a irmã mais velha, uma culta tradutora de livros.

O tema de duas mulheres isoladas em um cenário perturbador voltaria ao centro da produção cinematográfica de Bergman em Persona – Quando Duas Mulheres Pecam (1966). O subtítulo simplório colocado no Brasil não dá conta da riqueza dramática e metalinguística escondida no título do filme... Persona faz referência às máscaras teatrais gregas e, por extensão, ao conceito psicanalítico que se desenvolveu a partir delas. Usamos máscaras no dia a dia, simulamos opiniões, escondemos intenções, disfarçamos desejos, mascaramos o verdadeiro eu. Mas, será isso necessariamente ruim? Após atuar na tragédia Electra, a famosa atriz Elisabeth Vogler, simplesmente, para de falar. Uma dedicada enfermeira, Alma, é designada, então, para cuidar da atriz. Passado certo tempo, não há evolução no quadro e a psiquiatra de Elisabeth decide que ela deve tentar se reestabelecer em uma isolada casa de praia, onde só estarão a atriz e Alma. O que se desenvolve a partir daí é uma aula de filosofia, sociologia, psicanálise e teatro. Evidentemente, o grande destaque da produção é a dupla central, interpretada pela mais querida e recorrente dupla de atrizes na filmografia de Ingmar Bergman: Liv Ulmann (Elisabeth) e Bibi Andersson (Alma). Certamente, é um dos filmes mais misteriosos e complexos do diretor sueco, sendo, sempre, suscetível a inúmeras revisões e a intermináveis discussões.



Antonius Block joga xadrez com a Morte em O Sétimo Selo (1956), de Ingmar Bergman

Autor: Erasmo Ruiz

Fonte: https://redehumanizasus.net/62259-o-setimo-selo-de-ingmar-bergman-jogando-xadrez-com-a-morte/


Nascido em 1941 – quase no ano em que Bergman lançava Crise, conforme já dissemos, seu primeiro filme – o diretor polonês Krzysztof Kieslowski, que morreu em 1996, parece ser o melhor interlocutor do diretor sueco nesse diálogo que propusemos. Há semelhanças entre ambos: estiveram ligados ao meio teatral; escreveram os roteiros da maioria de seus filmes; usavam neles, de forma recorrente, certos atores e atrizes; encontraram espaço de trabalho na televisão. Como falamos de cinema filosófico e reflexivo, parece que o fato de Bergman e Kieslowski construírem seus próprios roteiros acaba os tornando perfeitos para essa análise. Em outras palavras, os diretores expressam nas telas o que os roteiristas refletem, expõem e procuram compreender. O diálogo, aqui, é esse. Poderia incluir Woody Allen, Michelangelo Antonioni, Luis Buñuel, e tantos outros.

Dentre as grandes obras de Krzysztof Kieslowski, duas merecem destaque: a Trilogia das Cores e a minissérie televisiva Decálogo. Tanto uma quanto a outra trazem uma vasta gama de reflexões, análises e críticas, tendo como base a sociedade do final do século XX.

Na Trilogia das Cores, o diretor polonês questiona: qual é a importância dos valores pelos quais os revolucionários franceses lutaram em 1789 para o mundo que se aproxima do século XXI? Além disso, o que a liberdade, a igualdade e a fraternidade representam não para a coletividade, mas para o indivíduo? Assim, nasceram A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994), inspirados em tais valores e questões.

No primeiro dos três filmes, a magnífica Juliette Binoche interpreta Julie, que perde a filha e o marido em um trágico acidente de carro. Ela, então, resolve se desprender do passado e libertar-se de tudo que a ligue a sua antiga vida. Mas, será mesmo possível? Julie não é livre nem para sofrer, já que constantemente é questionada sobre sua dor, sobre a ausência de choro e de desespero. No segundo, o mais leve dos três – até com uma certa pitada cômica –, o polonês Karol é humilhado pela jovem esposa francesa e sente-se traído após ela pedir o divórcio. Completamente só e sem recursos, ele deixa a França e volta para a Polônia, onde vai se reerguer. Apesar de nunca esquecer a esposa, pela qual nutre um misto de amor e sentimento de vingança, Karol se impõe na sociedade e passa a ser tratado com respeito e, até, com admiração. Ele, enfim, percebe que a igualdade não é algo que se ganha, mas algo que se conquista e pelo qual é necessário lutar continuamente. E em “A Fraternidade é Vermelha”, Irène Jacob interpreta a modelo Valentine, que, certo dia, atropela uma cadela. Ao ver o endereço do tutor do animal na coleira, ela vai até o lugar. Ela conhece, então, um juiz aposentado que tem um estranho hábito: passa os dias ouvindo as conversas dos vizinhos por meio de um aparelho de escuta. O desacordo inicial é imediato e Valentine pensa em denunciar o juiz, mas ambos acabam se entendendo e construindo uma amizade diferente e produtiva, com a positividade inocente dela aprendendo com a negatividade racional dele. E vice-versa! A fraternidade é construída mesmo entre pessoas tão diferentes. A fotografia dos três filmes é um primor, com o azul acentuando a liberdade/solidão de Julie, o branco ressaltando a humanidade de Karol e o vermelho destacando os laços humanos construídos entre a modelo e o juiz.

Já nos dez episódios do Decálogo, Krzysztof Kieslowski é mais “bergmaniano” que nunca. Por meio dos Dez Mandamentos bíblicos, o diretor polonês visita temas caros ao diretor sueco: morte, vida, fé, ideologia, amor, insanidade, Deus... Os telefilmes são curtos – não passam de uma hora – e, em cada um deles, Kieslowski, tomando como base um dos mandamentos, mergulha fundo na mente, no coração e na alma do homem. Em “Amarás a Deus sobre todas as coisas”, um adolescente se vê indeciso entre a racionalidade científica do pai e a crença religiosa da tia; em “Honrarás pai e mãe”, uma jovem descobre que aquele que acreditava ser seu pai, na verdade, não o é; em “Não matarás”, um jovem advogado idealista confronta o pensamento vigente e suas próprias ideias – esse episódio, posteriormente, foi transformado em um longa-metragem de sucesso. Enfim, nos dez episódios, a angústia existencial e os questionamentos incisivos estão presentes: quem sou eu? Qual é o significado disso tudo?

Como já foi dito, nenhum tipo de filme é melhor que outro porque faz ou não pensar. Assistir a este ou àquele filme sempre deve ser um direito inalienável do público. Mas, que tal dar uma chance a obras consistentes, complexas e que, talvez, possam nos ajudar a refletir sobre nossas próprias vidas?

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