• Raphael Uba de Faria

O Circuito Oval de Monza

O Autódromo Nacional de Monza, na Itália, é um dos templos do automobilismo mundial. Todos os anos, desde 1950 (exceção feita a 1980), uma massa vestida de vermelho se dirige ao autódromo para acompanhar o Grande Prêmio da Itália de Fórmula 1 e torcer pela Ferrari e, dependendo da temporada, alguma outra equipe ou piloto italiano que possa estar correndo. A festa também costuma ser grande quando algum descendente de italianos vence. Mas a história das corridas nessa pista remonta ao ano de 1922, quando o recém-inaugurado circuito recebeu, pela primeira vez na história, o Grande Prêmio da Itália, vencido por Pietro Bordino, a bordo de um carro da Fiat.

Todo fã de Fórmula 1 está familiarizado com o traçado de Monza: as variantes Del Rettifilio, Della Roggia, Ascari, as duas curvas de Lesmos, a Parabólica (agora, rebatizada como Michele Alboreto). E todos já repararam que na reta que antecede a Variante Ascari, a pista sofre um leve declínio e passa por baixo de alguma coisa que não se pode ver nas transmissões oficiais... Mas o que há por cima? Há a Curva Nord Alta Velocità, ou Curva de Alta Velocidade Norte, parte do agora escondido traçado oval de Monza!



“Viaduto” no circuito de Monza, com a Curva de Alta Velocidade Norte, com seus 45º de inclinação, acima.

Fonte: https://www.formula1.com/en/latest/features/2015/9/high-risk--high-interest---a-brief-history-of-italian-banking.html


Pode soar estranho aos ouvidos, até mesmo de fãs de automobilismo, falar-se em traçados ovais na Europa, já que nos acostumamos a vê-los nos Estados Unidos. Mas há alguns. Como vimos no primeiro texto do Almanaque de Arte e Cultura, intitulado O Nascimento do Automobilismo, o primeiro autódromo da Europa, Brooklands, na Inglaterra, era considerado um oval, apesar de ter um traçado um pouco estranho se comparado aos ovais norte-americanos. O mesmo não se pode dizer do oval de Monza. Esse, sim, é um oval com formato típico, com 4,25 quilômetros de extensão e duas curvas com inclinação de 45º, as curvas de Alta Velocidade Norte e Sul.



Traçado do Grande Prêmio da Itália entre 1955 e 1961, com as partes mista e oval utilizadas simultaneamente e sem as variantes, adicionadas posteriormente.

Fonte: https://www.formula1.com/en/latest/features/2015/9/high-risk--high-interest---a-brief-history-of-italian-banking.html


O traçado oval de Monza foi utilizado durante muitos anos, de sua criação, em 1922, até 1933 e entre 1955 e 1961, quando foi deixado de lado. O mais curioso, é que ele não era usado isoladamente, como vemos em Indianápolis, por exemplo, onde algumas corridas acontecem no oval e outras, no circuito misto, que inclui trechos do oval. Não! Em Monza, não! O autódromo italiano tinha um traçado espetacular, em que as retas principais do circuito misto e do oval seguiam lado a lado, ocupando as atuais reta dos boxes e parte dos próprios boxes. Após percorrer completamente o circuito misto, os pilotos saíam à direita de onde hoje fica a Variante Del Rettifilio e entravam no traçado oval, para concluir a volta. Fantástico!



Curva de Alta Velocidade Norte ao lado da Variante Del Rettifilio

Fonte: https://wp.clicrbs.com.br/formula1/files/2012/09/monzaold11.jpg


Mas porque o traçado oval foi abandonado? Em 1961, aconteceu um terrível acidente, o mais letal da história da Fórmula 1, que vitimou o piloto alemão Wolfgang von Trips e quinze espectadores. Ainda que o acidente tenha acontecido na reta que antecede a Parabólica (Michele Alboreto), portanto, na parte mista, ele selou o futuro do traçado oval. As modificações propostas para aumentar a segurança do circuito determinavam a inclusão das variantes, até então, inexistentes, e o abandono do oval na Fórmula 1. Ele era considerado muito perigoso em função, não só da altíssima velocidade alcançada, mas da forte inclinação das curvas e, obviamente, da inexistência de áreas de escape. Isso sem falar na confusa reta de largada, compartilhada entre o misto e o oval e sem divisões, como podemos vislumbrar ver na foto abaixo.



Trecho em que começa a reta compartilhada pelos traçados oval e misto. Podemos ver que a divisão entre eles desaparece assim que a reta se inicia.

Fonte: https://areadeescape.files.wordpress.com/2009/12/48monza1.jpg


O oval foi utilizado até 1969, na disputa dos 1000 Km de Monza, quando foi definitivamente abandonado. Então, foi-se deteriorando e alguns trechos foram ocupados por vegetação rasteira. No final da década de 1990, sua demolição foi considerada, mas um movimento iniciado por fãs impediu que isso acontecesse. No início dos anos 2000, ele foi revitalizado e aberto para visitação, voltando a integrar oficialmente o Autódromo Nacional de Monza. Desde então, fala-se muito sobre a possibilidade de ele voltar a ser utilizado em corridas, até mesmo para a Fórmula 1, mas nenhuma ação efetiva foi tomada nesse sentido.



Vista aérea do Autódromo Nacional de Monza em que é possível ver, claramente, os traçados misto e oval.

Fonte: https://stringfixer.com/pt/Autodromo_Nazionale_Monza#wiki-4



Mapa atual do Circuito Nacional de Monza

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Aut%C3%B3dromo_Nacional_de_Monza#/media/Ficheiro:Monza_track_map.svg

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