• Raphael Uba de Faria

O Futebol e a Sociedade: Religião - Parte 1/2

Olá, pessoal!

O futebol pode nos dar uma boa visão sobre questões sociais, políticas e religiosas. Apesar de hoje em dia ser um esporte globalizado, a origem e a história de dos times podem revelar muito sobre as sociedades. Há clubes que representam a elite burguesa, os trabalhadores, estudantes e, também, seguidores de algum grupo político ou religioso.

Hoje, iniciaremos uma série que abordará essas questões, apresentando clubes, seleções e confrontos clássicos que se destacam em cada uma delas. Nosso primeiro tema é a religião, que se dividirá em duas partes.

Derry City

Formado na Irlanda do Norte, o Derry City tem uma história peculiar. Enquanto o restante do país é de maioria protestante, a cidade de Derry, localizada na fronteira com a católica República da Irlanda, é, assim como ela, de maioria católica.

Na Irlanda do Norte, a religião está ligada à política. Os católicos são mais próximos do movimento nacionalista, que luta pela independência do país (integrante do Reino Unido, juntamente com Inglaterra, Escócia e País de Gales) e posterior unificação à República da Irlanda, enquanto os protestantes aderem ao grupo unionista, que defende a permanência no Reino Unido.

Escudo do Derry City Football Club

Direitos de Imagem: Derry City Football Club

Fonte: https://www.derrycityfc.net/

Desde seu surgimento, em 1928, o Derry City disputava o campeonato da Irlanda do Norte sem maiores problemas, mas, a partir dos anos 1960, a tensão político-religiosa se intensificou, o time passou a ser perseguido e, em 1971, foi impedido de jogar em sua cidade, sob a alegação de que seu estádio, Brandywell, não era seguro. A situação durou oito meses e, dentro desse período, em 30 de janeiro de 1972, exatamente em Derry, ocorreu o Domingo Sangrento, quando a polícia abriu fogo contra manifestantes católicos desarmados que caminhavam em direção ao centro da cidade protestando contra a política do governo britânico de prender suspeitos de terrorismo sem julgamento prévio. Quatorze pessoas foram mortas, dentre as quais, seis menores.

Nos meses seguintes o Derry City fez vários pedidos para voltar a jogar em Brandywell e, apesar de as autoridades afirmarem que o estádio, agora, era seguro, os demais participantes da competição vetaram. Então, em outubro de 1972, os dirigentes do clube optaram por se retirar da liga.

Durante treze anos, a equipe disputou apenas torneios regionais juvenis e solicitou constantemente reingresso no campeonato, mas a organização sempre negou. Percebendo que o retorno nunca seria permitido, o Derry City decidiu se inscrever no campeonato da República da Irlanda em 1985, o que foi possível após conseguir seu desligamento da federação de futebol da Irlanda do Norte, junto à própria federação e à FIFA. Uma licença especial da UEFA (União das Associações Europeias de Futebol) permitiu ao clube disputar seus jogos no Brandywell. Desde então, o Derry City compete no campeonato irlandês de futebol.

Tottenham Hotspurs

O Tottenham Hotspurs foi fundado no distrido londrinho de mesmo nome, no ano de 1882. Em suas ruas vivia grande parte da população judaica de Londres, que logo adotou o time do bairro. Apesar de não ter sido fundado por judeus, o clube construiu uma ligação muito próxima a eles.

Quando os Spurs (apelido do time) iam jogar em outras partes da capital inglesa, os torcedores adversários os chamavam pelo termo pejorativo “yids” (referência à língua falada por comunidades judaicas espalhadas pelo mundo) e, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, entoavam cânticos antissemitas, faziam referências ao holocausto e imitavam o som do gás dos campos de concentração nazistas. Então, os torcedores do clube adotaram o termo para eles mesmos.

Escudo do Tottenham Hotspurs Football Club

Direitos de Imagem: Tottenham Hotspurs Football Club

Fonte: https://www.tottenhamhotspur.com/

A década de 1930 marcou ainda mais essa ligação. Naquele período, estima-se que um terço da torcida que frequentava o White Heart Lane, estádio do Tottenham, era de formada por judeus. Além disso, no ano de 1935, foi marcado um amistoso entre Inglaterra e Alemanha. Em função de um revezamento nos jogos da seleção inglesa, o palco do confronto acabou sendo o White Heart Lane. A polêmica que envolvia o jogo só aumentou a partir de então. Chegado o dia da partida, a bandeira nazista foi estendida no estádio, mas, durante um momento de desatenção dos policiais, o torcedor do Tottenham, Ernie Wooley escalou a arquibancada e a arrancou!

Apenas em 2013 o termo ‘yid” foi proibido pela federação inglesa de futebol, inclusive como autodenominação dos torcedores dos Spurs. Mas, assustadoramente, nada foi dito com relação às outras formas de ofensa.

Neste século, em função do fortalecimento da imagem do clube no cenário mundial, a torcida do Tottenham cresceu e se diversificou, mas a relação com a população judaica continua. Inclusive, o crescimento da equipe está fortemente ligado às figuras de seus três últimos presidentes, Irving Scholar, Alan Sugar e Daniel Levy, todos, descendente de judeus.

Real Madrid

O Real Madrid é considerado o maior clube do mundo. Desde 1920, com alguns intervalos, e ininterruptamente desde 1943, o clube carrega em seu escudo a coroa real do país, que possui uma cruz em seu ponto mais alto.

Escudo do Real Madrid Club de Fútbol

Direitos de Imagem: Real Madrid Club de Fútbol

Fonte: https://www.realmadrid.com/pt

No ano de 717, a Espanha foi ocupada por muçulmanos e só em 1492 conseguiu retirá-los do país. Durante esse período, pequenos reinos surgiram na Espanha à medida em que novas regiões eram reconquistadas pelos cristãos. Na segunda metade do século XV, estes reinos foram unificados por Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os Reis Católicos, e conseguiram por fim, tomar Granada, o último reduto muçulmano na Península Ibérica. Este longo conflito fortaleceu a ligação dos espanhóis com a Igreja Católica e, mesmo depois de quinhentos anos, a maioria absoluta da população espanhola, cerca de 67%, é católica.

Em 2014, o Real Madrid assinou um acordo de patrocínio com um banco dos Emirados Árabes Unidos e decidiu retirar a cruz de seu escudo nos países muçulmanos. Em 2017, o clube cedeu direitos exclusivos de produção, distribuição e venda de seus produtos no Oriente Médio a outro grupo do mesmo país e, mais uma vez, a cruz foi retirada. Houve muitos questionamentos a respeito alterar o símbolo maior do clube, mas, apesar da polêmica, a decisão foi mantida.

Referêcias:

https://www.derrycityfc.net/club-history/

https://premierleaguebrasil.com.br/tottenham-e-judaismo/

https://gauchazh.clicrbs.com.br/esportes/noticia/2019/05/ligado-aos-judeus-tottenham-ja-sediou-jogo-da-alemanha-nazista-cjwci8szm01h701mc4xmswr3h.html

https://trivela.com.br/por-patrocinio-arabe-real-madrid-tira-cruz-crista-escudo/

https://extra.globo.com/esporte/real-madrid-retira-cruz-crista-de-escudo-em-acordo-sobre-uniforme-no-oriente-medio-20818704.html

http://lafutbolteca.com/tag/escudo-futbol-real-madrid-cf/

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