• Professor Wagner Lacerda

O início da Era de Ouro do Cinema nos Estados Unidos

A festa do Oscar de 1940 mostrava que a criação dos irmãos Lumière alçava novos voos, atingindo outros patamares. O ano de 1939 tinha sido, mesmo, um marco e, simultaneamente, um divisor de águas. Naquele ano, o cinema norte-americano produziu uma quantidade enorme de clássicos e mostrou que indústria e arte podiam andar juntas, coroando uma série de esforços que, nos primórdios do cinema, reuniu o pioneirismo de Georges Méliès e Alice Guy Blachés, a postura visionária da United Artists – de Charlie Chaplin, Douglas Fairbanks, Mary Pickford e D. W. Griffith –, o apuro técnico de Sergei Eisenstein e as inovações do Expressionismo Alemão.

No dia 29 de fevereiro de 1940, Bob Hope conduzia, no Dorothy Chandler Pavillion, em Los Angeles, uma cerimônia que punha frente a frente alguns concorrentes como ...E o Vento Levou, de Victor Fleming, No Tempo das Diligências, de John Ford, Ninotchka, de Ernst Lubitsch, O Morro dos Ventos Uivantes, de William Wyler e O Mágico de Oz, dirigido parcialmente, também, por Fleming. Na plateia, disputando os prêmios de interpretação, astros e estrelas do quilate de Clark Gable, Laurence Olivier, James Stewart, Vivien Leigh, Bette Davis, Greta Garbo... Foi, ainda, nessa cerimônia que Hattie McDaniel recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por seu desempenho em ...E o Vento Levou, tornando-se a primeira artista negra a receber o prêmio.

Assim, o cinema conquistava a crítica, o público e o imaginário mundial. Dali em diante, era só crescer... Ainda em 1940, do dia 15 de outubro, Chaplin lançava uma de suas obras-primas: O Grande Ditador. Ele escreveu, protagonizou e dirigiu seu primeiro filme falado, que já nasceu destinado a um lugar na história do cinema com sua sátira impiedosa e sagaz ao nazismo e ao fascismo. Qualquer coletânea das grandes cenas do cinema sempre mostrará aquela em que Chaplin brinca alegremente com um globo terrestre.

Seis meses antes, no dia 12 de abril, outro grande filme tinha sido lançado. Rebecca, a Mulher Inesquecível, baseado em romance de Daphne du Maurier, trazia na direção um inglês que mudaria, para sempre, os rumos da Sétima Arte: Alfred Hitchcock. Ele chegou da Inglaterra em alta: foram dele o primeiro filme falado nas terras da rainha – Chantagem e Confissão, de 1929 – e uma das maiores bilheterias da época – Os 39 Degraus, de 1935. O sucesso era enorme e atraiu o lendário produtor David O. Selznick – produtor de ...E o Vento Levou –, que, desde 1937, passou a tentar contratá-lo. A parceria só foi fechada em 1939 e Hitchcock cruzou o Atlântico para dirigir Rebecca, a Mulher Inesquecível. Logo vieram o reconhecimento da crítica e do público, ainda que o Oscar de 1941 viesse a premiar o filme, mas, não, seu diretor – o vencedor seria John Ford, por As Vinhas da Ira. Aliás, capítulo à parte, a Academia jamais premiou Chaplin e Hitchcock como diretores... Enfim, azar do Oscar.


Alfred Hitchcock

Autor: New York Film Academy

Fonte: https://www.nyfa.edu/student-resources/alfred-hitchcock/


Ainda viriam muitas outras grandes produções do mestre do suspense nessa década. Sabotador (1942), A Sombra de uma Dúvida (1943), Quando Fala o Coração (1945), Interlúdio (1946) e, principalmente, o genial Festim Diabólico (1948) eram uma pequena amostra do que ainda sairia da mente do diretor, com a década seguinte registrando o auge da filmografia de Hitchcock.

Somente um diretor norte-americano rivalizava com o diretor inglês, simultaneamente, em prestígio junto à crítica, poder junto à indústria e idolatria junto ao público: Orson Welles. Ele chegou muito jovem ao mundo do cinema, com apenas 26 anos, mas com uma carreira já razoavelmente consolidada no teatro e no rádio. Este, aliás, foi o que abriu as portas da Sétima Arte para Welles. Em 30 de outubro de 1938, ele transmitiu pela CBS uma versão dramatizada de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, relatando a chegada de naves marcianas à Terra. Além da magnética narração, Orson Welles foi responsável pela direção, pela produção e pelo roteiro, arrastando uma multidão de ouvintes, mas, também, gerando pânico e caos em várias cidades dos Estados Unidos. Com impressionantes 23 anos, ele mudava a história do rádio e a dele próprio. O estúdio RKO fechou com o jovem astro um contrato de três filmes e lhe deu liberdade absoluta para criar suas obras. No entanto, apenas um dos projetos deu frutos e chegou às telas de cinema. Em 5 de setembro de 1941, o mundo conhecia aquele que para boa parte da crítica especializada é o maior filme de todos os tempos: Cidadão Kane.

A busca incessante pelo poder é mostrada em flashbacks que tentam reconstruir a vida do magnata da imprensa Charles Foster Kane – interpretado pelo próprio Orson Welles. O que o público vê é a investigação de um jornalista que tenta descobrir o significado da última palavra dita por Kane antes de morrer: Rosebud – efetivamente, quando descoberto, converte-se em uma grande surpresa. No entanto, o que tornam a obra um clássico inigualável não são essa surpresa, a história envolvente ou, mesmo, a polêmica construção do personagem principal, inspirada pela vida real do poderoso e influente William Randolph Hearst. A marca principal de Cidadão Kane é a sistematização e articulação de diversas técnicas que mudaram para sempre o modo de fazer cinema. Todas elas já haviam sido utilizadas em maior ou menor escala por diversos diretores, mas nunca antes tinham sido tão importantes para a estrutura narrativa daquilo que o público veria nas telas. A profundidade e a duração das cenas, os ângulos baixos das câmeras e os jogos de luz e sombra – já bastante utilizados pelo cinema noir da época –, dentre outras ferramentas e estratégias, deixaram um legado que diretores e suas equipes utilizam, reinventam e reutilizam até hoje.

Ainda assim, no Oscar de 1942, o filme de Welles levaria, apenas, o prêmio de melhor roteiro. Tal prêmio foi dividido pelo próprio diretor e por Herman Mankievicz, em uma das histórias mais controversas dos anos de ouro de Hollywood. Mankievicz alegava ter escrito o roteiro sozinho, enquanto Welles garantia ter participado – inclusive, havia testemunhas de ambos os lados. Fato é que essa dúvida que, provavelmente, jamais será solucionada, transformou-se, em 2020, no ótimo Mank, dirigido por David Fincher, produzido pela Netflix e indicado em diversas categorias para o Oscar de 2021. E por falar em Oscar, Orson Welles, assim como Chaplin e Hitckcock, também nunca levou o prêmio de melhor diretor. Pois é...


Foto promocional de Cidadão Kane distribuída pela produção do filme para uso da mídia em geral

Autor: a própria produção de Cidadão Kane

Fonte: http://1.bp.blogspot.com/_29_shKT4Elw/TMu5-Wc0kEI/AAAAAAAALCI/tY-_mZ484Lk/s1600/Orson_Welles-Citizen_Kane1.jpg


O já citado cinema noir era, digamos, o estilo dominante da época. Hitchcock e Welles, geralmente, não são classificados como típicos representantes do gênero, ainda que tenham estado sempre muito próximos dele e produzido grandes filmes repletos de suas características – como duas obras-primas, coincidentemente, surgidas no mesmo ano, 1958: Um Corpo que Cai, do primeiro, e A Marca da Maldade, do segundo. Nesse meio, outros nomes surgem com maior representatividade: Billy Wilder, Howard Hawks e John Houston.

Wilder se destacou em vários gêneros. Mas foi responsável por três grandes obras do noir: Pacto de Sangue (1944), Crepúsculo dos Deuses (1950) e A Montanha dos Sete Abutres (1951). O primeiro foi um sucesso absoluto de crítica e público desde seu lançamento, tendo como destaque o roteiro primoroso elaborado pelo próprio diretor e pelo mestre da literatura noir: Raymond Chandler. Tal trama traz todos os motes do gênero e um desempenho exemplar da dupla de protagonistas, interpretada por Fred MacMurray e Barbara Stanwyck. Já o filme de 1950 transformou-se em um dos grandes clássicos da história da Sétima Arte. Crepúsculo dos Deuses conta a história de um encontro casual entre um roteirista azarado, interpretado por William Holden, e uma atriz do cinema mudo esquecida pela crítica e pelo público, em desempenho antológico de Gloria Swanson. Apesar de ficcional, o filme expõe todo o lado obscuro de Hollywwod e mostra como a transição entre o cinema mudo e o cinema falado não se deu de forma tranquila e benéfica para todos. Explorando flashbacks, o roteiro conduz a um final surpreendente, quando o personagem de Holden acaba encontrando o sucesso de uma maneira que não esperava. Além disso, o fato de Swanson ser, na vida real, uma atriz de cinema mudo esquecida pelo mundo aumentou a lenda em torna da obra-prima de Billy Wilder.

1950 parece ter sido um ano de sorte para as grandes atrizes do cinema. Fora do noir, mas nos bastidores obscuros do mundo artístico, A Malvada traz desempenhos impressionantes de Bette Davis e Anne Baxter, tendo sido ambas indicadas para o Oscar de melhor atriz em 1951. Na verdade, o elenco feminino é de um brilho inigualável na história do cinema. Além das protagonistas, Thelma Ritter e a veterana Celest Holm também brilharam, sendo ambas indicadas para o prêmio de melhor atriz coadjuvante na cerimônia de 1951. Até Marylin Monroe estava lá, em um de seus primeiros papéis importantes nas telas. O filme, indicado a um total de 14 Oscars – recorde que permanece até hoje, empatado com Titanic e La La Land – mostra como Eve Harrington, uma fã ambiciosa e inescrupulosa interpretada por Baxter, infiltra-se na vida pessoal e profissional de Margo Channing, uma grande estrela da Broadway interpretada por Davis. É de consenso que o mau relacionamento entre Davis e Baxter na vida real teria colaborado bastante para o conflito entre Channing e Harrington que se viu na ficção.

Mas, voltando ao cinema noir, é preciso falar de detetives! O já citado Raymond Chandler foi, junto a outro grande nome da literatura do gênero – Dashiel Hammett –, um dos responsáveis pela chegada ao cinema do detetive durão, intransigente e cheio de métodos e estratégias questionáveis – o personagem mais representativo, junto à femme fatale, desse tipo de filme. Chandler criou Philip Marlowe e Hammett, Sam Spade, ambos, possivelmente inspirados em um homem chamado Samuel Marlowe, o primeiro detetive particular licenciado negro de Los Angeles. Fato é que Marlowe e Spade foram uma resposta aos intelectualizados e elegantes europeus Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Curiosamente, ambos foram interpretados no cinema pelo mesmo ator: o galã nada convencional Humphrey Bogart. Em O Falcão Maltês – outrora, Relíquia Macabra –, dirigido por John Houston em 1941, Bogart é Sam Spade. Já em À Beira do Abismo, de 1946, dirigido por Howard Hawks, o ator é Philip Marlowe. Talvez, ambos os filmes nem sejam as melhores produções do cinema noir. Mas, com certeza, nada é mais representativo do gênero que Bogart de sobretudo e chapéu, com sua cara de poucos amigos e sua voz exótica, investigando e solucionando mistérios e caçando criminosos, às vezes, tão perigosos quanto ele.


Humphrey Bogart em O Falcão Maltês, de 1941

Autor: Richard Demeter Jr

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/509680882800943465/


Humphrey Bogart também protagonizou um dos grandes clássicos da década de 40 fora da esfera do noir – na verdade, um dos maiores clássicos de toda a história da Sétima Arte: Casablanca. Produzido em 1942 e lançado entre o fim do ano e o início de 1943, o filme dirigido por Michael Curtiz é presença garantida em toda e qualquer lista feita pelo mais avalizado crítico ou pelo mais apaixonado cinéfilo. A obra reúne uma sensível história de amor, várias características do cinema noir – lembrando, a tendência dominante da época – e o cenário da Segunda Guerra Mundial – que viria a tomar conta do cinema ainda na década de 40 e se consolidaria na década seguinte. O inconcluso romance entre Rick Blaine (Bogart) e Ilsa Lund (Ingrid Bergman) é o tema central do filme, que se desenvolve na cidade marroquina de Casablanca, tendo como pano de fundo a grande guerra que assolava o mundo à época. Aliás, o elenco todo do filme é um primor, com coadjuvantes de primeiríssima linha: o astro do Expressionismo Alemão Peter Lorre, no papel de um criminoso; Claude Reims, o homem invisível do filme homônimo de 1933, como um corrupto e bajulador policial francês; Conrad Veidt, de O Gabinete do Dr. Caligari (1920), interpretando um oficial nazista; dentre outros. Enfim, um elenco de primeiro nível, um roteiro instigante, uma fotografia belíssima, um conjunto inspirado... Uma verdadeira obra-prima. Uma grande curiosidade sobre Casablanca é que a icônica frase que mesmo quem não viu associa ao clássico de Michael Curtiz – “Toque outra vez, Sam” – jamais foi dita! A frase realmente dita pela personagem de Ingrid Bergman para o pianista vivido por Dooley Wilson, na verdade, foi “Toque uma vez, Sam. Pelos velhos tempos”... Parece, mas não é... Os responsáveis pela confusão e pela consequente popularização da sentença que nunca existiu podem ter sido dois: os irmãos Marx, que usaram a frase incorreta em Uma Noite em Casablanca, comédia de 1946, ou Woody Allen, que lançou o filme Play it again, Sam em 1972 – tal filme foi lançado no Brasil com o título de Sonhos de um Sedutor.

E no meio de tantas intrigas, mistérios, corrupção, detetives, guerra e assassinatos que dominavam o cinema da época, cabe citar um ponto fora da curva. Lançado em 20 de dezembro de 1946, pouco antes do Natal, A Felicidade Não se Compra é certamente, um dos melhores – talvez, o melhor – de temática natalina já feitos até hoje. James Stewart está simplesmente perfeito no papel de George Bailey, um homem bom e solidário que está prestes a se matar. No entanto, um anjo, que precisa fazer uma boa ação para ganhar suas asas, é mandado à Terra para tentar fazê-lo mudar de ideia, mostrando-lhe, através de flashbacks, sua importância para todos os moradores da pequena cidade de Bedford Falls. Como teria sido a vida de todos se Bailey nunca tivesse existido? A direção segura e o roteiro bem elaborado de Frank Capra não deixam que a obra, em momento algum, decaia para o dramalhão ou para o proselitismo, fazendo com que sua mensagem de esperança e felicidade ecoe até hoje.

Enfim, estava só começando. A consolidação e a ampliação da indústria cinematográfica nos Estados Unidos ainda progrediriam muito mais nas décadas seguintes. Isso, sem contar o que acontecia do outro lado do Atlântico, na Europa, ou no Japão, na União Soviética e, até mesmo, na América Latina. Mas, isso tudo é assunto para outro dia...

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