• Professor Wagner Lacerda

O Intelectual Moderno Revê o Passado

A segunda metade do século XIX foi um dos períodos mais conturbados, mas também mais produtivos da história contemporânea. Consolidam-se a Revolução Industrial e a unificação da Itália e da Alemanha. Espalham-se revoluções liberais por toda a Europa, ainda o centro do mundo de então. Os antigos estados absolutistas procuram se adaptar aos novos tempos e o imperialismo ressurge na Ásia e na África.

No campo das ciências ocorre um salto qualitativo. Doenças que antes matavam milhares começam a ser erradicadas, ou, ao menos, tornam-se passíveis de tratamento. Descobrem-se vacinas, realizam-se reformas sanitárias nas grandes cidades e a prática da prevenção de doenças começa a se disseminar. Pesquisas e descobertas extremamente relevantes datam desse período. Desenvolvem-se, dentre outros, a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, e o Positivismo, de Auguste Comte.

Naturalmente, nem todo o cenário mostrou-se tão positivo. As deficiências do sistema capitalista começam a ser expostas e grande parte das populações torna-se segregada social e economicamente. As anunciadas promessas de um futuro “maravilhoso” não se mostram acessíveis a todos, e tensões surgem e agravam-se.

Tais tensões chegam ao campo das artes, e todo o panorama cultural vai mudar, prenunciando os conflitos que permearão a vida do homem do século XX. A literatura, a pintura, a música, dentre outras formas artísticas, passam, então, a tematizar esse universo conflituoso.

Na literatura, especificamente, passa a vigorar não mais um estilo único, mas um conjunto de estilos simultâneos e independentes, sem que nenhum venha a prevalecer. Como afirma Merquior: “A pluralidade de estilos é o aspecto mais ostensivo do segundo Oitocentos” (MERQUIOR, 1979, p.101). Entenda-se segundo Oitocentos como sendo o período que se estende desde a segunda metade do século XIX até, aproximadamente, à primeira Guerra Mundial. Partindo da “convivência” não tão pacífica entre o Realismo, o Naturalismo, o Parnasianismo, o Impressionismo e o Simbolismo e chegando até às primeiras vanguardas europeias – Futurismo, Cubismo, Expressionismo –, encontramos o caldeirão literário em plena ebulição. O intelectual se vê atordoado pela velocidade do seu mundo. Por vezes, mostra-se plenamente fascinado, por outras completamente perdido. Se em certos momentos procura respostas para tudo, em outros permanece totalmente indiferente.


A situação da cultura clássica no Brasil


Fica então a questão: será que nesse acelerado mundo ainda havia lugar para a cultura clássica? Por mais que possa parecer paradoxal, a resposta é sim. Mas como entender a volta a um passado tão longínquo em pleno século XX?

O Brasil de então – ou, seria melhor dizer, sua classe dominante – procurava a todo custo imitar a Europa – principalmente a França – em todos os aspectos, inclusive o cultural. Como contraposição à “baixa qualidade” da cultura popular, o que poderia ser melhor que o refinado Parnaso Europeu com seus helenismos e latinismos renascidos? Retomar Grécia e Roma era, dentre outras, uma prática e eficiente ferramenta usada pelos elegantes intelectuais brasileiros para colaborar com o processo modernizador do país, para ajudar a pátria a caminhar rumo à “civilização”...

Nesse contexto, o Parnasianismo tornou-se, obviamente, o estilo da moda. Não que, como já foi falado, não houvesse outros estilos e autores circulando no meio literário. Mas, enquanto, por exemplo, o Simbolismo era tratado quase como uma arte marginal, que só veio a ser valorizada algum tempo depois, via-se o parnasiano Olavo Bilac ser chamado de “o Príncipe dos Poetas”.

No entanto, esse classicismo “purificador” e “civilizatório” não foi recebido com um uníssono sim por todos. Machado de Assis, dentre outros, usando de toda a sua refinadíssima ironia, por várias vezes critica indiretamente o uso excessivo da cultura clássica. Que não se diga, porém, que ele não reconhecia e, até mesmo não apreciava tal cultura; ele, apenas, não aceitava que fizessem uso desmedido e desnecessário dela, tal qual a prática corrente.


Murilo Mendes: a cultura clássica avança para o novo século


Fachada do Museu de Arte Murilo Mendes, em Juiz de Fora – MG

Autor: equipe de gerenciamento do Museu

Fonte:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fachada_do_Museu_de_Arte_Murilo_Mendes,_Juiz_de_Fora_MG.JPG

Murilo Mendes, já no século XX, parece seguir, no que diz respeito à cultura clássica, a mesma linha de Machado de Assis. Se por um lado a aprecia e, até mesmo, a utiliza, por outro denuncia, também com inteligência e elegância, seu uso desmedido e despropositado. Pode-se comprovar facilmente tais hipóteses nos textos do poeta que nos remetem à Belle Époque em sua cidade natal, Juiz de Fora – entende-se Belle Époque como o período que compreende o final do século XIX e o início do século XX. Em A Idade do Serrote, livro de memórias infanto-juvenis reconstruídas por um Murilo já adulto, em 1965-1966, e nas Chronicas Mundanas, escritas por ele durante um curto período, entre abril de 1920 e julho de 1921, para um jornal juiz-forano da época – A Tarde -, o que se pode ver é um escritor que se utiliza da cultura clássica sabendo do que fala e porque fala. Mesmo o jovem Murilo Mendes das Chronicas Mundanas já demonstra incrível segurança nas palavras que, felizmente, sobrevivem ao conturbado “segundo Oitocentos”. Entre a modernização enlouquecedora e o “passadismo” desmesurado, emerge a sensatez do novo escritor.


A cultura clássica invade a Belle Époque


Longe de se querer fazer, aqui, um rol de citações e referências clássicas em A Idade do Serrote e nas Chronicas Mundanas ou, ainda, de críticas ao classicismo exagerado feitas por Murilo Mendes nesses textos, pretende-se demonstrar, com exemplos bastante claros, nuances pouco percebidas na interação cultura clássica/Belle Époque dentro da obra de um escritor essencialmente moderno.

O que parece ser o fato mais relevante não é propriamente a relação do poeta com os clássicos, mas, sim, como ela se dava. Intelectual poliglota, poeta estudioso, leitor voraz: em todas as suas diversas facetas, o que se pode observar é um Murilo Mendes plenamente consciente do que se propõe a dizer. Ele, jamais, deixa emergirem figuras clássicas deslocadas e despropositadas. É exemplar de tal hipótese o que ocorre no capítulo de A Idade do Serrote intitulado “Marguí”. Relembrando uma antiga namorada, de nome Margarida – a Marguí do título –, Murilo traça, para o leitor, um retrato completo da amada. Diz em determinado momento:


Marguí era já mulher. Alta, magra, morena, de formas bem modeladas, os cabelos pretos anelados, tinha olhos de semente de melancia, lavados e brilhantes. As pernas nervosas, os seios altos, aliciadores, perturbadores, pontudos, conscientes. Seios que interferiam nas lamentações dos profetas, no livro primeiro da Eneida... (MENDES, 1994, p.931, grifo nosso)


Mosaico com a imagem do poeta Virgílio

Autor: Quartier Latin 1968

Fonte:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vergilio_mosaico_de_Monno_Landesmuseum_Trier3000.jpg


Mas que seios são esses que interferiam no livro primeiro da Eneida, a obra-prima do poeta romano Virgílio (70 a.C. - 19 a.C.) e epopeia máxima de Roma?


Aqui primeiro ousou fiar-se Enéias

E prometer-se alívio em seus pesares:

Pois quando, à espera da rainha, o templo

Nota peça por peça, quando o enlevam

De Cartago a fortuna, o gosto fino,

O artifício, o primor, acha em pintura

A fio as guerras d’Ílion, pelo orbe

Já soadas; o Atrida, o rei troiano,

E terror de ambos sobressai Aquiles.

[...]

À testa de milhares de Amazonas

Com lunados broquéis, Pentesiléia

Se abrasa em fúria, belicosa atando

Sob a despida mama um cinto de ouro,

E virgem com varões brigar se atreve.

(VIRGÍLIO, 2004, p.68-70, grifo nosso)


Chegando à Cartago, Enéas, enquanto espera pela chegada da rainha Dido, observa diversas pinturas que remetem ao cerco de Tróia, aos combates que se seguiram e aos variados personagens que os protagonizaram. Ocupando lugar de destaque, surge Pentesiléia, a rainha das Amazonas, que combateu ao lado dos troianos. Em uma altiva demonstração de sua força, ela luta com o seio desnudo. Tal motivação mostrava objetivamente o poder da mulher guerreira: quanto maior o seio da Amazona, maior sua vis – a sua força, no sentido mais amplo que a palavra possa ter.

Assim, ligam-se a amada de Murilo e a guerreira de Virgílio. Enquanto os seios desta interferem na guerra de Tróia, os daquela interferem na reconstrução memorialística do Murilo Mendes já maduro.

O que é importante de ser ressaltado é como Murilo construiu tal ligação. Ele não diz, aleatoriamente, “seios que interferiam na Eneida”, mas, sim, “seios que interferiam no livro primeiro da Eneida”. Entra em cena o Murilo leitor: a citação clássica é feita, apropriadamente, na hora e no lugar corretos.

Outro capítulo, de A Idade do Serrote, bastante pertinente ao conjunto de nossas hipóteses é “O Olho Precoce”. Nele, Murilo diz:


Cedo começou minha fascinação pelos dois mundos, o visível e o invisível. E não escreveu São Paulo que este mundo é um sistema de coisas invisíveis manifestadas visivelmente? Não vivemos inseridos num contexto de imagens e signos? (MENDES, 1994, p.973)


Ora, o que é esse mundo invisível senão o “mundo das ideias” de Platão? Vivendo inseridos em um contexto de imagens e signos, estaríamos vivendo na caverna? Mais uma vez, Murilo demonstra saber do que está falando. Sua filiação às ideias do filósofo grego revelar-se-ia mais tarde: “Tenho raiva de Aristóteles, ando à roda de Platão” (MENDES, 1994, p.47). Mas, aí, já é outra história...



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


MENDES, Murilo. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.


MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.


PEREIRA, Maria Luiza Scher (org). Imaginção de uma biografia literária: os acervos de Murilo Mendes e SILVA, Teresinha Vânia Zimbrão da (org). Chronicas Mundanas e outras crônicas: as crônicas de Murilo Mendes. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2004.


VIRGÍLIO. Eneida. São Paulo: Martin Claret, 2004.

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