• Professor Wagner Lacerda

O jogo que nunca acabou

O calendário marcava 10 de setembro de 1972. Em plena Guerra Fria, uma simples partida de basquete se transformaria em um enorme imbróglio. Cinco dias antes da tal partida, terroristas palestinos haviam invadido um alojamento e matado onze atletas israelenses. Apesar disso, foi voz unânime que os jogos deveriam continuar, até para que o evento, que sempre se propõe a ser um congraçamento pacífico dos povos, não se curvasse perante o terror fundamentalista. No entanto, fato, o clima não era dos melhores.

Mas, voltemos ao jogo. Naquele dia 10, Estados Unidos e União Soviética entraram em quadra para disputar a medalha de ouro no torneio de basquete. O clima da Guerra Fria, que dividiu o mundo em dois polos opostos – liderados pelos norte-americanos e pelos soviéticos – após o fim da Segunda Guerra Mundial, tomava conta de jogadores, dirigentes, jornalistas e torcedores. Então, a partida começou e o que se viu foi a materialização de tal clima.


Os Estados Unidos achavam que haviam ganhado...


Jogadores muito nervosos erravam lances simples e cometiam muitas faltas. Parecia, mesmo, que tudo não poderia terminar tão bem... Desde a aparição do basquete nas Olimpíadas, na edição de 1936, os Estados Unidos haviam vencido todos os jogos que tinham disputado e, naquele momento, eram heptacampeões. Porém, tinham um time muito jovem, ao contrário do selecionado soviético, que já havia disputado centenas de partidas com a mesma formação. Além disso, os representantes do bloco comunista já haviam disputado outras quatro finais olímpicas com os líderes do bloco capitalista, tendo perdido todas. O sentimento de vingança tomava conta dos rapazes de uniforme vermelho.

A União Soviética foi melhor em todo o primeiro tempo, que terminou em 26 x 21. No segundo tempo, a tônica continuava a mesma, até que, faltando seis minutos para o final, os rapazes de uniforme branco conseguiram impor seu jogo mais veloz e dinâmico e encostaram no placar. Faltando dez segundos para o final, o placar era favorável aos soviéticos e marcava 49 x 48. Então, os norte-americanos sofreram uma falta e converteram os dois lances livres – 50 x 49 para o time do Tio Sam. Faltavam três segundos. Bola em jogo.

Aí, veio a confusão. Faltando um segundo, o árbitro brasileiro Renato Righetto atendeu a um pedido de tempo do banco soviético e interrompeu a partida. O problema é que eles alegaram estar pedindo tempo desde os anteriores lances livres convertidos pelos Estados Unidos e exigiram que o cronômetro retornasse para os três segundos restantes. Então, William Jones, secretário da Federação Internacional de Basquete, interveio e atendeu o pedido da União Soviética. Eis que o jogo recomeçou e um longo passe soviético deu errado. Comemoração norte-americana! Fim? Calma... Quando a partida havia recomeçado, o relógio do ginásio ainda estava sendo ajustado e os soviéticos alegaram ter sido prejudicados. Voltaram, novamente, os três segundos... Em meio a uma enorme confusão, Ivan Edeshko encontrou Alexander Belov livre, que subiu para encestar e fechar o jogo em 51 x 50. O tumulto foi generalizado, mas o fato é que o ouro vermelho foi confirmado e os antigos heptacampeões, que, até hoje, reclamam dessa partida, sequer permaneceram no ginásio para receber suas medalhas de prata.


Alexander Belov converte a cesta final

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