• Raphael Uba de Faria

O Maior do Leste

Até os anos 1990, nós, brasileiros, pouco sabíamos sobre o futebol europeu. Não havia internet, poucos campeonatos eram transmitidos por aqui e, quando eram, o cenário era muito diferente do atual. Ainda não existia a Lei Bosman e os jogadores de um país pertencente à União Europeia eram considerados estrangeiros dentro de outro país do mesmo bloco. Não se via um time com 11 titulares de países diferentes, como é possível ver hoje em dia. O que sabíamos do cenário futebolístico europeu restringia-se aos grandes times dos principais campeonatos, ou seja, Itália, Espanha, Alemanha e Inglaterra, que tinham alguns jogadores de Holanda, Bélgica, França, Suécia e, mais raramente, de países que ficavam além da antiga Cortina de Ferro.

O futebol do leste europeu era um grande mistério. Tínhamos conhecimento de seleções que fizeram história em algum momento, como a Hungria de 1954, ou a Tchecoslováquia de 1962. Quanto aos clubes, ouvíamos as histórias incompletas e obscuras do Steaua Bucareste, campeão da Liga dos Campeões da Europa na temporada 1985-86, e do Estrela Vermelha, de Belgrado, campeão em 1990-91. Eu vivia em uma cidade bem pequena, onde essas informações eram ainda mais raras. Curiosamente, ainda criança, nos mesmos anos 1990, meu pai me presenteou com um jogo de futebol de botão do, para mim, desconhecido Dínamo Kiev. No final da década, eu ouviria a primeira menção ao time na televisão quando ele chegou às semifinais da Liga dos Campeões de 1998-99, eliminando Barry Town, do País de Gales e Sparta Praga, na fase preliminar, Arsenal, Panathinaikos e Lens, na primeira fase, e o Real Madrid nas quartas de final, até parar no Bayer de Munique após um 3x3 em Kiev e uma derrota por 1x0 em Munique. Anos depois, com as facilidades da internet já estabelecidas, comecei a pesquisar mais sobre o Dínamo e descobri sua riquíssima história.


Escudo atual do Dínamo Kiev (que não é o mesmo do meu time de botão)

Direitos de Imagem: Domínio Público

Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/04/Dinamo_Kiev_1975.jpg


Fundado em 13 de maio de 1927, o Dínamo Kiev (comum e desnecessariamente chamado Dínamo de Kiev, no Brasil, já que o nome do clube inclui o da cidade), fazia parte da Sociedade Esportiva Dínamo, ligada ao Ministério da Administração Interna da União Soviética (e à KGB) e fundada quatro anos antes, em Moscou. Era comum que os clubes do país fossem ligados a algum ministério, sindicato, exército, etc. Juntamente com a sociedade, foi fundado o Dínamo Moscou. Depois, a sociedade foi expandida para outras cidades do imenso país e surgiram os Dínamos Tbilisi, Minsk, Batumi, Brest e vários outros, além, é claro, do Dínamo Kiev (todos controlados pelos ministérios locais). Em 1936, foi organizada a primeira edição do Campeonato Soviético e a equipe da então República Socialista Soviética da Ucrânia, estava entre as fundadoras.

A história do Dínamo tem um episódio marcante durante a Segunda Guerra Mundial, que foi contada em detalhes no livro Futebol e Guerra, de Andy Dougan. Durante a ocupação nazista na Ucrânia, os times foram dissolvidos, mas alguns jogadores, que, agora tinham outros empregos, organizaram times amadores para continuar jogando futebol. Oito ex-jogadores do Dínamo se uniram a três ex-jogadores do Lokomotiv Kiev e começaram a jogar sob o nome de Start. Em sua maioria, os jogos eram disputados contra equipes formadas por membros das forças de ocupação. Assim, o Start enfrentou e derrotou uma equipe do exército alemão. Outro selecionado do exército, mais forte, foi escalado para mais um jogo e foi derrotado por 6x0. Em seguida, formou-se uma equipe de húngaros, também derrotada em duas partidas por 5x1 e 3x2. A fama do Start cresceu e o exército alemão decidiu colocar sua melhor e invicta equipe, formada pela artilharia antiaérea Flakelf. Os jogadores do Start foram ameaçados e exigiu-se que eles entregassem o jogo. Não se submetendo às maeaças, os ucranianos foram a campo e derrotaram os alemães por 5x3. Uma semana depois, o Start enfrentou mais uma vez o time do exército (dos dois primeiro jogos) e venceu por 8x0. Após essa partida, os jogadores foram presos, torturados (um deles não sobreviveu) e enviados para campos de trabalho forçado. Passados os trágicos momentos da guerra, a vida foi, aos poucos, se restabelecendo, assim como os esportes, e o Dínamo voltou à ativa.

No período inicial do campeonato soviético e nos anos pós-guerra, a competição foi amplamente dominada pelos times de Moscou, sobretudo por Spartak, CSKA e Dínamo Moscou. Mas, em 1961, o Dínamo Kiev roubou a cena, conquistou seu primeiro título nacional e iniciou sua grande história de sucesso. Durante as décadas que se seguiram, a equipe ucraniana foi a única capaz de enfrentar, constantemente, os russos, que dominavam o campeonato, ainda que outras equipes, como o Dínamo Tbilisi (1964 e 1978) e o Ararat Erevan (1973), tenham conquistados alguns títulos. Ao levantar o troféu do Campeonato Soviético de 1990, o décimo terceiro de sua história, o Dínamo Kiev deixou para trás o seu maior rival, Spartak Moscou, com doze conquistas, e se eternizou como o maior campeão soviético de todos os tempos!

Mas a equipe foi mais longe! Em 1974, tendo conquistado a Copa da URSS, o Dínamo Kiev teve direito a disputar a Taça dos Campeões das Taças de 1974-75 (também conhecida como Recopa Europeia). Hoje em dia, é comum que se diga que essa competição era equivalente à atual Liga Europa, a segunda competição mais importante do continente, o que é um tanto quanto impreciso. A competição reunia todas as equipes europeias de haviam conquistado as copas nacionais, como a Copa da Inglaterra, Copa Itália, Copa da Alemanha, etc. Portanto, o nível era altíssimo! No ano em questão, lá estavam Real Madrid, Liverpool, Monaco, Malmö, Ferencváros, Estrela Vermelha, Eintracht Frankfurt, PSV Eindhoven e outros. Fazendo uma campanha espetacular, o Dínamo passou por CSKA Sófia, Eintracht Frankfurt, Bursaspor e PSV Eindhoven, atingindo a Final da competição, na qual enfrentaria o poderoso Ferencváros, o maior time da Hungria. Sem tomar conhecimento do adversário, o Dínamo venceu por 3x0. O destaque daquele time era Oleg Blokhin, um dos maiores jogadores da história da União Soviética. No comando, estava o lendário Valeriy Lobanovskiy, criador do futebol científico (que defende que cada ação do jogo deve ser planejada e que a equipe deve prevalecer sobre o talento individual) e campeão do Campeonato Soviético de 1961, como jogador, que treinaria o time até 1990, de 1997 a 2000 e em 2001-02. Com o título, a equipe de Kiev se garantiu na disputa da Supercopa Europeia.


Equipe do Dínamo Kiev na semifinal da Taça dos Campeões das Taças de 1974-75. Oleg Blokhin é o primeiro agachado, da esquerda para a direita.

Diretos de Imagem: desconhecido


Em mais um capítulo marcante de sua história, o Dínamo Kiev desembarcou em Munique para enfrentar o poderosíssimo Bayern de Munique, de Franz Beckenbauer, Sepp Maier e Karl-Heinz Rummenigge. Bicampeão da Liga dos Campeões da Europa em 1973-74 e 1974-75, seria tricampeão em 1975-76 e era base da seleção alemã campeã da Copa do Mundo de 1974. O título seria disputado em dois jogos, um na Alemanha Ocidental, outro na União Soviética. A equipe da Bavária era praticamente imbatível, sobretudo em casa. Como era de se esperar, o jogo foi muito difícil e disputado, com o Bayern mostrando toda a sua força e qualidade, mas o zero permaneceu nos dois lados do placar até os vinte e um minutos do segundo tempo, quando, enfim, a rede foi estufada por... Oleg Blokhin! Dínamo 1x0! Vitória!


Valeriy Lobanovskiy

Direitos de Imagem: Domínio Público

Fonte: https://www.ecured.cu/Valeri_Lobanovsky


Alguns dias depois, lá estavam os dois times reunidos em Kiev, diante de 102 mil pessoas, no atual Estádio Olímpico. Mais um jogo duro e disputado, com os soviéticos mostrando que também tinham muita força e qualidade. A partida não teve heróis improváveis, como muitas vezes acontece no futebol. Com dois gols, Blokhin garantiu o título ao Dínamo Kiev com um expressivo 3x0 no resultado agregado!

Em 1985, aos 33 anos, idade avançada para um jogador naquela época, Blokhin ainda estava no Dínamo e partiu para a disputa da Taça dos Campeões das Taças de 1985-86. Como sempre, equipes muito fortes estavam na competição: Atlético de Madrid, Benfica, Sampdoria, Rapid Viena, o poderosíssimo Dukla Praga, da Tchecoslováquia, Monaco, Estrela Vermelha, Galatasaray. Não se intimidando, os soviéticos derrotaram Utrecht, dos Países Baixos, Universitatea Craoiva, da Romênia, Rapid Viena (com um inacreditável 9x2 no agregado) e Dukla Praga. A final foi disputada contra o Atlético de Madrid. O resultado? 3x0 para o Dínamo, com mais um golzinho de Blokhin!

Na Supercopa Europeia daquele ano, o Dínamo enfrentou o Steaua Bucareste, primeiro clube do leste europeu a vencer a Liga dos Campeões da Europa, derrotando o Barcelona. Desta vez, o torneio foi disputado em jogo único, no Estádio Luís II, em Mônaco. Apesar de toda a luta, o Dínamo não conseguiu vencer. O jogo terminou 1x0, com gol marcado por um jovem jogador de vinte e um anos, um tal Gheorghe Hagi, apelidado “o Maradona dos Cárpatos”... História para outro dia.

Na temporada seguinte, 1986-87, o Dínamo continuou mostrando muita força e chegou às semifinais da Liga dos Campeões da Europa. No caminho até lá, passou por Béroé, da Bulgária, Celtic e Besiktas (com um massacrante 7x0 no agregado), antes de parar diante do Futebol Clube do Porto, que conquistaria o título diante do Bayern de Munique. O feito seria repetido, como dissemos logo no início, na temporada 1998-99, ainda sob a batuta de Lobanovskiy e com a presença dos craques Andriy Shevchenko e Serhiy Rebrov.


Escudo do Dínamo Kiev entre 1970 e 1988 (esse, sim, o mesmo do meu time de botão!)

Direitos de Imagem: Domínio Público

Fonte: logos-word.net


Após a dissolução da União Soviética, o Dínamo Kiev começou a disputador o Campeonato Ucraniano. Perdeu o primeiro título, de maneira surpreendente, para o Tavria Simferopol, mas, depois, emendou nove títulos consecutivos, até ser derrotado pelo milionário Shakhtar Donetsk na temporada 2001-2002. Desde então, os títulos tornaram-se mais escassos. Sofrendo, como tantos outros clubes tradicionais com o novo período do futebol europeu, dominado por times de propriedade de bilionários, o Dínamo conquistou apenas mais sete títulos nos dezenove campeonatos nacionais que se seguiram (todos os outros tendo ficado com seu novo rival). Mesmo assim permanece na liderança geral (16 a 13) e é o atual campeão. Até o momento, também não venceu mais nenhum título europeu. Mesmo assim, o Dínamo ainda possui uma boa equipe e revela muitos jogadores, que, via de regra, são rapidamente contratados por clubes dos grande centros do futebol europeu.

Com uma história riquíssima e repleta e conquistas (ainda faltando a Liga dos Campeões da Europa), o Dínamo Kiev é considerado pelos especialistas e pela grande maioria dos apaixonados por futebol como a maior equipe do leste europeu de todos os tempos!

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