• Professor Wagner Lacerda

Qual é o Valor da Cultura Nerd?

Todas as pessoas têm um amigo ou uma amiga que já assistiu, dezenas de vezes, aos filmes da trilogia original de Star Wars. Ou que sabe em qual revista e em que número o Batman surgiu pela primeira vez. E, se você não compartilha de uma amizade dessas, pode ser que você seja o/a nerd... O fato é que ninguém passa ileso por esse universo infinito de aventuras, embates, heróis e vilões.

Durante muito tempo, houve bastante preconceito em relação a tal universo, associando-o a meros produtos comerciais ou a efêmeras bobagens infanto-juvenis – já incorrendo, nisso, em um erro grave: parte-se do pressuposto de que tudo o que é de apreciação e consumo de crianças e de jovens é de má qualidade. Nem o sucesso estrondoso da dupla George Lucas e Steven Spielberg, nos já longínquos anos setenta, foi capaz de reverter tal situação. Ao contrário, parece até que agravou, tendo-se em vista a aversão de grande parte da crítica especializada a Tubarão, E.T.: O Extraterrestre, Indiana Jones e tantos outros. Aversão que, lamentavelmente, dura até hoje; diminuiu sensivelmente, mas não desapareceu.

E se diminuiu, isso parece se dever a dois motivos preponderantes. Primeiramente, houve um claro aumento de qualidade e de quantidade de obras para consumo preferencial dos nerds. No cinema, Quentin Tarantino, Cristopher Nolan e as irmãs Wachowski criaram filmes que já fazem parte da história do cinema. Nos quadrinhos, Alan Moore, Neil Gaiman, Art Spiegelman e, claro, Will Eisner levaram a nona arte para um patamar nunca antes alcançado.

Houve, também, o aparecimento de figuras que, associadas a tal universo por diversos motivos, modificaram o olhar da sociedade, como um todo, em relação à cultura nerd. Nesse sentido, Stephen Hawking, Carl Sagan, Steve Jobs, Bill Gates, Edward Snowden, dentre muitos outros, são exemplos que poderiam ser citados.

Mas, antes de refletir sobre a permanência e a pertinência dessa cultura, é preciso fazer duas ressalvas. Não há, aqui, qualquer rigor científico no uso do termo nerd. Sabemos que há inúmeras diferenças entre ele, geek e pop, bem como em relação àquilo que provém da cultura de massa. E, mesmo para a origem do termo, há várias explicações, que vão desde um personagem do Dr. Seuss até uma companhia de eletricidade do Canadá. Para nós, basta definir essas pessoas como apaixonadas por mundos muito distantes de nós no tempo e no espaço, repletos de super-heróis, elfos, magos, telepatas poderosos, macacos evoluídos, androides indestrutíveis... Mundos, aliás, para os quais os nerds se dedicam com carinho, afinco e total interesse.

Ainda, cabe discutir, mesmo que brevemente, o termo cultura. Como defini-lo? Em A Interpretação das Culturas, obra lançada em 1973, que é referência nos estudos de antropologia, bem como nos de outras ciências humanas, Clifford Geertz defende que seja construído um conceito minimamente suficiente de cultura, mesmo reconhecendo de antemão a dificuldade de tal tarefa.

No primeiro capítulo de sua obra, Geertz chama as tentativas de definição de cultura de “pantanal conceptual” (1978, p.14). Ele cita a obra Mirror for Man, de Clyde Kluckhohn – e a chama, inclusive, de “uma das melhores introduções gerais à antropologia” (1978, p.14) – para exemplificar o que diz. Segundo Geertz, em cerca de vinte e sete páginas de um capítulo dedicado ao conceito de cultura, Kluckhohn apresenta onze definições para ela!

Ora, por mais que se entenda que um conceito das ciências humanas não é como um conceito das ciências naturais – não se define, por exemplo, cultura como se define a gravidade –, não dá para se trabalhar com determinado conceito, em nenhuma ciência, que tenha onze possíveis definições. Assim, Geertz propõe que seja elaborado um conceito minimamente suficiente de cultura, um conceito que, mesmo não atingindo a padronização total, seja, ao menos, “internamente coerente e, o que é mais importante, que tenha um argumento definido a propor” (1978, p. 14-5). Ele, então, define sua proposta:


“O conceito de cultura que eu defendo […] é essencialmente semiótico. Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado.” (GEERTZ, 1978, p.15)


Em outras palavras, surge a cultura como rede de significados que o homem tece para a sua vida e como a consequente tentativa de interpretação desses mesmos significados. Entendemos, e usamos, o conceito, nesse texto, em total acordo com o que foi proposto por Clifford Geertz.


Will Eisner, na Comic Con de San Diego em 2004

Direitos de Imagem: Pattymooney via creativecommons

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Will_Eisner_(San_Diego_Comic_Con,_2004).jpg


Explicado o termo nerd, explicado o termo cultura. Podemos, então, retornar à questão do título: qual é o valor da cultura nerd? Como rede de construção e de interpretação de significados, e como consequente tentativa de entendimento do mundo e de inserção nele, toda cultura tem valor. Não faz mais sentido, por exemplo, falar em alta ou baixa cultura... Dizer que cultura “x” é relevante, mas “y” não é... Logo, a intenção, aqui, não é destacar a importância da cultura nerd em relação a nenhuma outra, mas, sim, mostrar como ela é uma maneira rica, complexa e inteligente de estar no mundo.

E o que há por aí para ler, assistir, apreciar? Star Wars revolucionou o cinema em 1977 e continua arrebatando mentes e corações até hoje, quarenta e três anos, nove filmes e incontáveis lucros depois. A maior saga do cinema conta a história de queda e de redenção de Anakin Skywalker, impetuoso e irascivo, que cai frente ao lado sombrio da Força e torna-se um dos mais temidos vilões da história do cinema: Darth Vader, a amedrontadora conjunção das ideias de George Lucas, da voz de James Earl Jones e do corpanzil de David Prowse. Depois de uma longa vida de violência e ódio, Vader/Anakin encontra o perdão pelas mãos de Luke Skywalker e é recebido de volta pelos mestres Jedi Yoda e Obi-Wan Kenobi, completando, assim, a jornada do herói. Erros, queda, aprendizado, arrependimento, perdão, redenção. A evolução se dá pelo caminho... e o caminho se faz caminhando! Não foi sempre assim que narrativas deram corpo aos grandes heróis da cultura ocidental? Aquiles, na Ilíada, Ulisses, na Odisseia, Eneias, na Eneida, Rei Arthur, em A Demanda do Santo Graal, Vasco da Gama, em Os Lusíadas...

Mas o grande universo de Star Wars não se resume a isso. Há a questão mitológica do pai que pode ser destronado pelos filhos – Urano e os Titãs? Cronos e os Olímpicos? Há os ensinamentos de paz, tolerância e autocontrole, claramente, inspirados na cultura oriental e ministrados pelo poderoso Yoda. Há uma discussão interessante sobre ética e moral, ou sobre a falta delas, capitaneada pelo anti-herói Han Solo. Não é só uma grande aventura... mas poderia ser! Que mal há nisso? Juntamente com o Tubarão, de Steven Spielberg – lançado dois anos antes –, George Lucas, em 1977, (re)inventou os blockbusters e mudou a história do cinema.

Assim como Star Trek mudou a história da televisão. A série original – que durou apenas três temporadas entre 1966 e 1969 – foi uma verdadeira revolução para a época. Quem apostaria em uma série de ficção científica em que longos diálogos, raciocínios elaborados e confrontos argumentativos ocupam o centro da cena e deixam, em segundo plano, ação, armas poderosas e batalhas espaciais? Pois foi o que o criador da série, Gene Roddenberry, fez. E o sucesso do programa dura até hoje, mostrando a tripulação da USS Enterprise indo audaciosamente aonde nenhum homem jamais esteve. Não é que não haja ação e aventura; evidentemente, há. Mas o foco dos episódios está nas questões políticas, filosóficas e sociológicas enfrentadas pela tripulação comandada pelo capitão James T. Kirk e por seu imediato, o Senhor Spock – aliás, um dos maiores ícones da cultura nerd. Muito a frente de seu tempo, Star Trek já discutia imperialismo, democracia, autoritarismo, racismo, sexismo, religiões, guerra, paz e, até mesmo, o papel da tecnologia na sociedade. Uma lista enorme de séries e filmes derivados da ideia original mostram o quanto Kirk e seus comandados têm lugar garantido nos corações dos nerds.

Depois desses primeiros momentos, como se diz, o resto foi história. Vieram Blade Runner: O Caçador de Androides (1982), de Ridley Scott, com os dilemas existenciais dos replicantes e discussões sobre o uso indiscriminado da tecnologia, e, no mesmo ano, E.T.: O Extraterrestre, de Spielberg, mostrando o egoísmo, a ambição desmedida e a falta de empatia, marcas da sociedade contemporânea. Já a trilogia De volta para o futuro, lançada entre 1985 e 1990, com os três filmes dirigidos por Robert Zemeckis, foi um verdadeiro marco, misturando comédia, viagens no tempo e os dilemas éticos que elas envolveriam. Ainda, não nos esqueçamos dos filmes protagonizados por Indiana Jones, o explorador que trouxe história e arqueologia para as discussões do mundo nerd.

E não dá para não falar de Matrix (1999), dirigido pelas irmãs Wachowski. Já quase na virada do milênio, vimos a caverna de Platão ser atualizada e transformada em um grande computador – ou quase isso... – que tudo controla e que transformou a humanidade em escrava, sobrevivendo em troca de ilusões de paz e segurança. A junção de filme noir, de ficção científica e do pensamento do filósofo grego levou multidões para os cinemas, ganhou elogios quase unânimes da crítica e mudou o modo de fazer cinema no mundo.

No século XXI, os grandes filmes da cultura nerd ficaram por conta de Christopher Nolan e Quentin Tarantino, sem esquecer da saga épica da Marvel, que entre 2008 e 2019 prendeu a atenção de muitos fãs dos quadrinhos ávidos por ver as criações do gênio Stan Lee tomar conta das telonas do mundo todo. Quadrinhos que, aliás, juntam o melhor da Marvel, de Nolan e de Tarantino. Dois dos melhores filmes de super-heróis de todos os tempos surgiram já no novo século: Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) e Pantera Negra (2018). O primeiro trouxe para as telas duas questões perturbadoras: como lidar com uma mente insana que é, simplesmente, amoral, não seguindo qualquer regra ou padrão? É correto abandonar alguns pricípios éticos em benefício de uma razão primordialmente justa? Já o segundo abordou a construção da identidade negra por meio da história da lendária nação africana de Wakanda e de seu rei T’Challa. Em Tarantino, a violência gráfica nas duas partes de Kill Bill (2003 e 2004) é decalcada dos quadrinhos. Há, ainda, a notável inserção na história – e a reescrita dela – em Bastardos Inglórios (2009) e em Era Uma Vez em Hollywwod (2019). E o que dizer das aulas de ciências de Nolan em A origem (2010) e Intersestelar (2014)?


Capa do filme Matrix (1999)

Autor: Larry Kummer

Fonte: https://fabiusmaximus.com/2017/01/28/review-of-philosophy-of-the-matrix/


Os quadrinhos são outra parte riquíssima dessa cultura. Inexplicavelmente, vistos no Brasil como “coisa de criança e de adolescente”, eles atingiram um nível artístico absolutamente inquestionável, passando a ser intitulados como a nona arte. Na verdade, muitas graphic novels são muito superiores a vários livros que foram e são publicados regularmente. Mas o puro e simples preconceito não deixa que tais qualidades sejam percebidas, ressaltadas e divulgadas. Em tempo, quando dizemos superiores, não estamos nos referindo à parte visual, já que não seria possível fazer essa comparação. Estamos, mesmo, referindo-nos ao texto, à parte escrita... Há histórias primorosas e profundas no universo das HQs, estruturadas com maestria e repletas de personagens marcantes.

O que dizer do belíssimo e misterioso universo mitológico de Sandman, de Neil Gaiman, com todas as suas múltiplas narrativas derivadas, misturando do gótico ao pós-moderno? Quanto de política e de filosofia se pode aprender e discutir em V de Vingança e em Watchmen, escritas por Alan Moore e desenhadas, respectivamente, por David Lloyd e Dave Gibbons? Lembrando que ambas as obras foram adaptadas pelo cinema e transformaram-se em bons filmes – mais no caso da primeira que no da segunda. “O povo não deve temer o seu governo. O governo é que deve ter medo de seu povo” e “Quem vigia os vigilantes?” são sentenças épicas já gravadas na alma de cada fã dos quadrinhos.

E para quem acha que heróis são “coisa de criança e de adolescente”, Stan Lee demonstrou o contrário... Seja nas páginas do Homem-Aranha, que, apesar dos superpoderes, padece de problemas cotidianos como os de qualquer reles mortal, seja nas páginas de X-Men, que reproduzem os dilemas da questão racial nos Estados Unidos da América na década de sessenta, por meio da questão mutante no mundo atual fictício da HQ – o professor Xavier e Magneto representam, respectivamente, Martin Luther King e Malcom X, com suas posições antagônicas, mas não inimigas.

Isso é só uma amostra minúscula... Há a história antiga em Asterix, de Uderzo e Goscinny; a tinta ácida de Robert Crumb; o olhar analítico do mundo pós-moderno em Will Eisner; o Japão cyberpunk em Akira, de Katsuhiro Otomo; a dolorosa reconstituição e a necessária denúncia do Holocausto na obra-prima Maus, de Art Spiegelman; as chocantes reportagens de guerra, feitas em campo, transcritas no papel e desenhadas por Joe Sacco; as tirinhas “psicológico-filosófico-existenciais” de Mafalda, Charlie Brown, Snoopy, Calvin, Haroldo; a atualidade e o sarcasmo de André Dahmer e de Carlos Ruas...

Por puro preconceito, você vai deixar, mesmo, de conhecer esse universo e essa cultura fascinantes? E, veja, faltou falar de literatura... Mas, aí, é melhor deixar para outra hora e para outro texto.



BILIOGRAFIA

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

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