• Raphael Uba de Faria

Quando o Filme Afasta o Espectador do Original

Olá, pessoal!


O cinema se baseia, com uma frequência muito grande, em livros, quadrinhos, desenhos animados, videogames e outros, para elaborar novas produções. Em alguns casos, essas adaptações ficam excelentes, às vezes, até melhores que os originais. Entretanto, algumas produções ficam muito aquém do esperado ou do potencial que demonstravam e, por vezes, modificam elementos fundamentais das obras nas quais se inspiraram, o que pode afastar os espectadores das obras originais, o que é uma pena. Hoje vamos citar três exemplos.


Eu, Robô


Capa do Filme Eu, Robô, de 2004

Direitos de Imagem: 20th Century Studios

Fonte: http://www.impawards.com/2004/i_robot_ver6.html


Adaptado a partir do clássico de Isaac Asimov, o filme não tem praticamente nada a ver com o original. O livro é formado por nove contos que narram histórias da evolução dos robôs, desde meras máquinas produzidas para um fim específico até seres pensantes, conscientes de si (daí o nome da obra), que buscam entender o que são e de onde vieram, capazes de auxiliar os humanos nas tarefas mais difíceis e de pensar em si mesmos enquanto seres únicos, indivíduos, dotados de experiências próprias, assim como os humanos.

As histórias não possuem uma relação clara entre si, a não ser por dois fatores: primeiro, pela tomada de consciência de robôs diferentes, que se encontram nas mais diversas situações (dentro de uma estação espacial, em uma viagem de exploração a Mercúrio, servindo de babá uma menininha) e que, por motivos igualmente diversos, vão, aos poucos, adquirindo conhecimento de sua própria existência e, principalmente, de suas identidade, suas capacidades e, também, sua relação com os seres humanos. Segundo, porque todas as histórias são selecionadas e apresentadas como exemplos da evolução dos robôs pela psicóloga roboticista Susan Calvin. Ah! Quem viu o filme certamente reconhece o nome! Ela também está lá! Mas há grandes diferenças. No livro, seu papel e suas reflexões sobre os robôs são fundamentais! A história da personagem está intrinsecamente ligada à empresa U.S. Robots and Mechanical Men (Robôs e Homens Mecânicos dos EUA), responsável pela fabricação dos robôs e de seus cérebros positrônicos. No filme, sua importância foi drasticamente reduzida a um papel secundário. Além disso, ela tem a mesma idade da empresa: 75 anos.

O protagonista do filme, detetive Del Spooner, não existe na obra de Asimov. Nem mesmo o robô Sonny e, muito menos, uma rebelião de robôs com tentativa de assassinato de Spooner! Os robôs de Asimov obedecem às Três Leis da Robótica que os impedem de ferir humanos (1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a ser ferido; 2. Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei; 3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei). Tentar agir contra uma dessas leis gera um conflito em seu cérebro que causa sua destruição. Portanto, nada de rebelião de robôs.

O filme pode não ser ruim enquanto produção de ação hollywoodiana, mas destrói completamente a ideia original de Asimov e seus robôs e não explora nenhum dos excelentes contos originais, tornando-se somente mais um “bom filme de ficção científica”. Uma pena... Quem deixou de ler o livro por causa do filme, leia já!


O Último Mestre do Ar



Poster do filme O Último Mestre do Ar, de 2010

Direitos de Imagem: Paramount

Fonte: https://www.movieposterdb.com/the-last-airbender-i938283/88fe4ced


Baseado no desenho animado Avatar: a lenda de Aang, de Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko, O Último Mestre do Ar (que teve que alterar seu nome por causa do Avatar de James Cameron) já é ruim por si só. M. Night Shyamalan ficou longe de conseguir absorver a atmosfera e a profundidade da obra original, apesar de ter tentado, produzindo um filme fraco, que desagradou aos fãs do desenho, e com uma história que parece não fazer muito sentido para quem não o assistiu.

A ideia original de Shyamalan era produzir uma trilogia, mas a baixa aceitação impediu as continuações. Talvez, seu grande erro tenha sido tentar condensar uma quantidade significativa de episódios em um único filme. Como resultado, muita informação precisou ser passada em pouco tempo e elementos importantíssimos foram deixados de lado. Os personagens perderam muitas de suas características mais marcantes (como o senso de humor de Sokka, por exemplo), de seu carisma e de sua profundidade. Sim! Para quem não assistiu o desenho, Avatar, apesar de parecer bobo e infantil, é uma obra profunda, repleta de filosofia oriental, baseando-se em ensinamentos do zen budismo e do taoismo para construir seus personagens.

Inicialmente, Avatar parece uma simples luta do bem contra o mal, mas, à medida que os episódios vão se desenrolando, percebemos a complexidade dos personagens e as batalhas internas que cada um enfrenta numa busca constante por evolução e autocontrole. Um dos personagens mais cativantes do desenho, mas quase completamente nulo no filme, é o tio Iroh, uma fonte inesgotável de ensinamentos taoistas, úteis para qualquer pessoa. Ele leva a vida de uma maneira calma, lidando com seus problemas sempre com leveza e bom humor, e sempre tentando transmitir sua sabedoria a seu sobrinho, o príncipe Zuko, talvez o personagem mais complexo da série, cuja história e evolução apresentam lições valiosas.

Apesar de o filme ser muito fraco, quem não assistiu o desenho deveria dar uma chance a ele. Não importa que idade você tenha. No início poderá parecer, como disse anteriormente, infantil e bobo. Mas seu desenrolar é muito interessante e as lições do pensamento oriental nele apresentadas, são inestimáveis.


A Máquina do Tempo



Capa do filme A Máquina do Tempo, de 2002

Direitos de Imagem: Warner Bros.

Fonte: http://www.impawards.com/2002/time_machine_ver2.html


A adaptação de 2002 (há outra de 1960) da obra homônima de H.G. Wells, escrita em 1895, já mostra, desde o início, que não se manterá muito fiel ao original, além da premissa básica da viagem no tempo. Fora a mudança de cenário, de Londres para Nova York, a questão fundamental que leva o protagonista (no livro, chamado apenas “O Viajante no Tempo”) a criar uma máquina do tempo é drasticamente alterada. No original, ele é motivado por questões puramente científicas e pela incredulidade de seus amigos, enquanto, no filme, o que o move é a tentativa de salvar a mulher que ama. O livro se inicia com o Viajante no Tempo expondo, durante um jantar, suas ideias e reflexões sobre as três dimensões clássicas (comprimento, altura e largura) e a quarta dimensão (o tempo), afirmando que é possível se locomover pela última, assim como nas três primeiras e que ele havia criado uma máquina que o permitia fazer isso. Diante da descrença dos amigos, ele resolve experimentar a máquina e viajar no tempo.

Durante sua viagem, ele encontra os Morlocks e os Eloi, e a relação entre essas duas “espécies” é retratada de maneira bastante fiel no filme, apesar de os Eloi originais serem infantis (inclusive no tamanho) e ingênuos. Depois disso, nada de semelhante acontece. Toda a aventura do Viajante no Tempo é completamente diferente no livro, que levanta questões muito mais sérias e profundas, e no filme, que se resume a uma história de aventura e amor utilizando-se do pano de fundo criado por H.G. Wells. Essa dinâmica se mantém até o final do filme, que é completa e absolutamente diferente do final do livro, alterado, obviamente para deixá-lo mais agradável ao público.

Assim como Eu, Robô, A Máquina do Tempo, de 2002, é um bom filme de ação/ficção-científica hollywoodiana, mas, da mesma forma, deixa de lado elementos fundamentais do original para privilegiar um roteiro mais fácil, simplista e corriqueiro. Portanto, quem deixar de ler o livro por já ter visto o filme, perderá grande parte de sua essência, profundidade e originalidade. Quando optamos por uma versão contemporânea de uma obra centenária, deixamos de usufruir de um dos pontos mais interessantes do original: perceber como era o mundo e, nesse caso, como o futuro era imaginado na época em que foi escrito. Vale mencionar, ainda, que A Máquina do Tempo foi o primeiro livro a tratar desse tema e, portanto, apresentava algo completamente novo.


Os originais de Eu, Robô, Avatar: a lenda de Aang e A Máquina do Tempo, merecem ser conhecidos! Se você ainda não os conhece, não perca tempo! Busque por eles e divirta-se! E, se você gostou desse texto, deixe sua curtida no final! Obrigado e até mais!


Capa:

I, Robot

Direitos de Imagem: Don Dixon

Fonte: http://www.sfreviews.net/irobot.html


Avatar: a lenda de Aang

Direitos de Imagem: Michael Dante DiMartino, Bryan Konietzko, Nickelodeon

Fonte: https://thelastairbenderpg.weebly.com/--mundo-espiritual.html


A Máquina do Tempo

Direitos de Imagem: Warner Bros.

Fonte: https://colemanzone.com/Time_Machine_Project/r_cooper(9).htm

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