• Wagner Lacerda

Remando contra a maré: José Saramago e a literatura política

Pode a ficção pensar – ou repensar – o real? E em caso de resposta positiva, sob que parâmetros ela o faz? Aristóteles (2005), já na Antiguidade, dizia que a história apenas relata o que aconteceu, enquanto a poesia – entenda-se, a literatura –, mais filosófica e virtuosa, diz o que poderia ter acontecido. Poderia, assim, a literatura gerar novos espaços de reflexão, criando realidades alternativas por onde se poderão vislumbrar, diríamos, alternativas à realidade?

Impera, no século XXI, um pretensioso discurso que afirma ser a única opção viável para o homem. Segundo ele, fora do mercado globalizado, e sem estar sob suas ordens, não há qualquer possibilidade de sobrevivência. De forma uníssona e repetitiva, se não no todo, em grande parte, a mídia, as instituições públicas e o sistema educacional – incluídas, aí, as universidades e faculdades – reproduzem a máxima da verdade singular: só há um caminho, o resto é fantasia.

Há muito que se questionar. E, felizmente, há quem questione. Junto a outros intelectuais e artistas de seu tempo, o escritor português José Saramago foi uma voz dissonante e consciente em tempos de barbárie neoliberal e guerras “antiterror”. Nascido em 16 de novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, em Portugal, e morto em 18 de junho de 2010, em sua casa na Ilha de Lanzarote, Saramago foi, em toda a sua vida, um contestador. Fosse questionando os cânones literários, as religiões, o mercado ou o estado, a preocupação central de sua obra e de sua militância sempre foi a desumanização de nossa sociedade – desumanização esta que ele, convictamente, associava ao referido “caminho único”.

Aliado às convicções marxistas do escritor, um imperioso humanismo a tudo perpassa, dos romances aos contos, passando por memórias, discursos e entrevistas. O homem é sempre o centro de suas preocupações. Em um discurso proferido por José Saramago no Palácio Real de Estocolmo em 10 de dezembro de 1998, por ocasião da entrega do Prêmio Nobel a ele, na mesma data em que se comemoravam os cinquenta anos da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ele afirma:

"Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante."

José Saramago recebe o Prêmio Nobel de Literatura de 1998

Direitos de Imagem: Servicio Educativo en Lenguaje y Literatura

Fonte:https://serviciodelenguajeyliteratura.blogspot.com/2010/12/discurso-de-jose-saramago.html

O discurso ficcional pode questionar e repensar a realidade, trilhando caminhos que se afastam cada vez mais dos discursos oficiais e das verdades autoinstituídas. E, aliás, é discutindo essas verdades que a face política da atividade literária se expõe. Michel Foucault diz que em nossa sociedade “a ‘verdade’ está circularmente ligada a sistemas de poder, que a produzem e a apoiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem” (1996, p.14). E diz ainda:

"O problema não é mudar a 'consciência' das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade.

Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder – o que seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder – mas de desvincular o poder da verdade das formas de hegemonia (sociais, econômicas, culturais) no interior das quais ela funciona no momento.

Em suma, a questão política [...] é a própria verdade." (FOUCAULT, 1996, p.14)

A literatura pode não só denunciar essas “formas de hegemonia”, como pode colaborar, também, no trabalho em desvincular delas “o poder da verdade”. Não é à toa que, por exemplo, nos regimes autoritários, dentre os primeiros perseguidos políticos, encontram-se, sempre, os escritores – e, também, outros artistas, em geral, e intelectuais que lutam contra as estruturas de poder dominantes.

Não superestimemos, porém, a atividade literária – e, por extensão, a atividade artística em todo o seu conjunto. A literatura propõe alternativas, repensa, denuncia, discute, mas não é, a priori – ou, ao menos, não deveria ser –, um instrumento político – entendendo, aqui, político em um sentido bastante restrito: aquele que se limita à militância partidária.

Falar em “arte política” – inserida, aí, a literatura – é menosprezar aquilo que o trabalho artístico tem de mais marcante: a multiplicidade de temáticas, o convite ao livre e amplo pensamento, a possibilidade da existência – ao menos nas páginas dos livros – do “outro”. Além disso, imputar à arte um possível dom de modificação direta e objetiva da realidade vigente é, certamente, dotá-la de um atributo um tanto exagerado e esperar dela algo que está além de suas potencialidades.

Em suma, a arte pode, e muito, colaborar na construção de uma nova sociedade, mas não pode, nunca, mudá-la sozinha. O trabalho artístico não oferece respostas ou soluções, mas, sim, mais e mais perguntas que podem redimensionar essa mesma sociedade. Daí, acessando-se outras formas de existir, abrem-se as portas para aquilo que antes não era visto; e o que era tido como verdade absoluta passa a ser efetivamente questionado. É aqui que a escrita literária, o pensamento filosófico e a ação política – no sentido que lhe conferia Aristóteles, a “arte de bem viver” – unem-se de maneira indissolúvel e transformadora.

Em entrevistas feitas por Carlos Reis (1998), esse pergunta a Saramago se a ficção tem mesmo legitimidade para dar uma nova versão dos fatos. O escritor, então, responde-lhe:

"Acho que tem toda a legitimidade, porque se se está a dar uma nova versão dos factos, é porque se está a falar de factos de que temos conhecimento por uma certa versão deles. Evidentemente que aquilo que nos chega não são verdades absolutas, são versões de acontecimentos, mais ou menos autoritárias, mais ou menos respaldadas pelo consenso social ou pelo consenso ideológico ou até por um poder ditatorial que dissesse 'há que acreditar nisto, o que aconteceu foi isto e portanto vamos meter isto na cabeça'”. (REIS, 1998, p.86)

Estaria Saramago, em consonância às palavras de Foucault, questionando o regime de produção da verdade? Claramente, sim. Ele, segundo suas próprias palavras, confere legitimidade à ficção para tal questionamento. E é por não acatar regimes de verdade dos outros saberes e discursos, que ela gera tanto incômodo em quem detém o poder e quer propagar suas “verdades” políticas e históricas. Pretensas histórias oficiais, definitivamente, não se afinam com a história que a literatura pode contar. Lembrando-nos mais uma vez de Aristóteles, ela conta o que poderia ter acontecido. E o que poderia ter acontecido, por vezes, não interessa ser divulgado. Colocando a verdade – ou a “verdade”, como queria Foucault – em questão, o escritor passa a atuar politicamente no microcosmo social e filosoficamente no macrocosmo.

Enfim, a arte sozinha, como já apontado, não muda a realidade, mas pode colaborar bastante nesse processo. “Escrever é um meio de ação”, afirma Alejo Carpentier (19--, p.94). E Eduardo Prado Coelho discute: “Que define desde o princípio um intelectual? A coragem de dizer ‘não’” (2004, p.16).

O escritor português José Saramago encaixa-se bastante bem no que compreendemos como esse intelectual atuante que diz não e que, como “militante das palavras”, engaja-se em defesa do que acredita. Tanto a sua obra literária, que compreende romances, contos, crônicas, poemas, memórias e teatro, quanto os seus textos e exposições não ficcionais, como discursos, entrevistas e artigos e ensaios escritos para jornais e revistas, trazem um intelectual firmemente disposto a atuar na construção de uma outra história que venha a contrariar a autodenominada história oficial.

Saramago foi um escritor bastante profícuo e versátil. Já em 1947, ele lançava seu primeiro livro: o romance Terra do Pecado, pela Editorial Minerva, em Portugal (tal obra foi relançada, posteriormente, quando das comemorações dos 50 anos de sua publicação, em 1997, pela Editorial Caminho, também em Portugal).

Mas é, somente, vários anos depois, com a publicação de Objecto Quase, em 1978, que aparecem indícios de um pensamento político-filosófico consistente na obra de José Saramago. Os seis contos do livro – "Cadeira", "Embargo", "Refluxo", "Coisas", "Centauro" e "Desforra" – seguem uma “quase” – alusão, aqui, ao título da obra – sequência em que as histórias se sucedem construindo um painel crítico da vida do homem. Vão desde a sua alienação – imposta pelo estado totalitário em “Cadeira” ou pela tecnologia repressora em “Embargo” – até o apogeu da sua natureza livre e espontânea, em “Desforra”, passando pela humanização das coisas e pela “coisificação” dos homens, em “Coisas”. Nas linhas da “quase” sequência desses contos delineia-se a consciência de quem os escreve e coloca-os em ordem.

Livro de contos Objecto quase

Direitos de Imagem: Companhia das Letras

Fonte: https://www.blogletras.com/2008/01/letras.html

A ação transformadora e o pensamento questionador dos quais temos falado, capazes de possuir grande poder de renovação, passam a surgir, então, nos textos de Saramago, demonstrados pelas atitudes dos personagens. Por vezes, isso ocorre de forma mais explícita em textos claramente engajados, como em Levantado do Chão (1980); em outras, de forma mais alegórica, como em Ensaio sobre a Cegueira (1995), Todos os Nomes (1997) e A Caverna (2000). Tudo transcorre tendo em vista uma crítica à desumanização da sociedade – a mesma para a qual ele alertou no discurso de 1998. Como afirma Augusto Santos Silva: “A primeira palavra que o escritor José Saramago dirige, através dos seus romances, aos leitores é a recolocação da humanidade na história” (2005, p.13); recolocar a humanidade na história, como também afirma Silva, “significa resgatar da sombra e do esquecimento os que estão por baixo, na hierarquia das posses e dos privilégios” (2005, p.13). Em outras palavras, utilizando-nos da expressão repetida por diversas vezes por nomes como Walter Benjamin e Berthold Brecht, Saramago narra nesses romances – e em diversos outros textos –, a história dos vencidos, resgatando-os do esquecimento e recolocando-os em condições de existência e respeito.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. 17. ed. Tradução do francês de Antônio Pinto de Carvalho. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

CARPENTIER, Alejo. Literatura e Consciência Política na América Latina. Tradução de Manuel J. Palmeirim. São Paulo: Global, 19--.


COELHO, Eduardo Prado. Novas configurações da função intelectual. In: MARGATO, Izabel e GOMES, Renato Cordeiro (orgs.). O papel do intelectual hoje. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.


FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 12. ed. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1996.


REIS, Carlos. Diálogos com José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1998.


SARAMAGO, José. A Caverna. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.


­­­­­­______. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­______. Levantado do Chão. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.


______. Objecto quase. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.


______. Todos os Nomes. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


SILVA, Augusto Santos. O escritor exorta os seus concidadãos (ou o discurso político da ficção de Saramago). In: MARGATO, Izabel e GOMES, Renato Cordeiro (orgs.). Literatura / Política / Cultura: (1994-2004). Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005.

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