• Raphael Uba de Faria

Rush - Conterparts

Counterparts. Traduzido para o português como Contraparte, partes que se complementam ou, mais do que isso, que não possuem função uma sem a outra. Esse é o título do 15º álbum de estúdio do Rush. Ele foi lançado em um momento de transição da sonoridade da banda que vinha abandonando elementos que marcaram seus álbuns dos anos 1980, como a forte presença de teclados e sintetizadores desde os dois álbuns anteriores, Presto e Roll the Bones.

Antes de partirmos para o álbum em si, vale mencionar sua capa e seu encarte. Para ilustrar a ideia de contraparte, o artista Huge Syme (que só não desenhou a capa do primeiro disco da banda) teve uma ideia simples e brilhante: um parafuso e uma porca. Envolvendo-os em um retângulo preto, sobre um fundo azul, ele criou uma arte minimalista, mas muito bela e extremamente representativa. Quando abrimos o encarte, nos deparamos com vários outros exemplos do mesmo conceito, como Yin e Yang, peças de um quebra-cabeças, os três patetas, o sol e a lua, cara e coroa, pedra, tesoura e papel e muitos outros. Um destes exemplos vem acompanhado de uma imagem sensacional da fábula da tartaruga e da lebre, com a lebre sentada sobre a tartaruga, pegando uma carona. Neil Peart disse que a dualidade foi o único tema que, a seu ver, unia todas as músicas, o que influenciou na escolha do título.


Capa de Counterparts

Direitos de Imagem: Rush e Huge Syme


O álbum é aberto com a excelente Animate, mencionada pelo baixista, Geddy Lee, como uma de suas músicas favoritas compostas pela banda. Fugindo do comum, ela começa pelo refrão e só depois chega à estrofe. Ela também chama a atenção por ter um baixo muito marcante, mas bastante simples se comparado à esmagadora maioria das músicas da banda. Muitos dos álbuns do Rush não possuem uma música título, como o primeiro álbum, Rush, Cares of Steel, Permanent Waves, Moving Pictures e outros. Quando isso acontece, o, título está escondido na letra de alguma música. No caso de Counterparts, está, exatamente, em Animate (“my counterpart, my foolish heart...”). Embora pareça uma música que fala de amor e relacionamentos, ela trata de um homem que está tentando aprender a dominar seu lado mais suave e emotivo, em contraposição ao seu lado mais agressivo. A letra é influenciada pelos conceitos de anima e animus, do psiquiatra Carl Jung.

A segunda música, Stick it Out, tem uma melodia muito mais pesada, bem mais próxima do heavy metal e ganhou um clipe, que vocês podem assistir clicando aqui.

Logo depois, vem Cut to the Chase, iniciada com um suave riff de guitarra de Alex Lifeson. Essa excelente música, tem uma progressão bem interessante, evidenciada pela ótima mixagem do álbum, que deixa todos os elementos presentes muito aparentes. Neil sempre escrevia muitas reflexões sobre o mundo e a vida e, nessa música, ele faz uma brilhante observação sobre os limites da cultura ocidental:


é o motor do mundo ocidental

girando em todos os extremos

puro como o desejo de um amante

maligno como o sonho de um assassino


Dá para refletir um bocado sobre isso... Talvez na exaltação das individualidades, que permitem os extremos, em contraposição à exaltação do coletivo, como na cultura oriental, que mantém tudo mais próximo, mais harmônico. Seja como for, o resto da letra também permite muitas reflexões. Vale a pena conferir. É só clicar aqui.

A quarta música, Nobody’s Hero, fala sobre pessoas que, com suas pequenas lutas diárias, tornam-se heróis. Ela foi escrita após Neil Peart, letrista e baterista, ter descoberto que um antigo amigo homossexual, com quem trabalhou em Londres, havia falecido. Neil o tinha como um modelo de pessoa e dizia que foi ele quem o ensinou a não ser homofóbico. É uma balada que se inicia com violão e vai ganhando peso ao longo de sua execução.

Between Sun and Moon tem uma história curiosa. Surgiu enquanto Alex e Geddy tocavam livremente, improvisando, durante um ensaio. Geddy percebeu um riff criado pelo guitarrista e disse que não soava como Alex Lifeson, mas como Rolling Stones. A partir daí, trabalharam sobre esse riff e sobre uma bela e contemplativa letra, trazida por Neil, em parceria com Pye Dubois. Posteriormente, Alex diria que se inspirou em Keith Richards para compor o riff inicial e em Pete Townshend para compor o riff que antecede o refrão, fazendo da música, uma grande homenagem ao rock dos anos 1960.

Alien Shore apresenta uma sonoridade mais experimental, diferente das músicas anteriores, mas abrindo passagem para as seguintes. Como geralmente acontece nos álbuns do Rush, ainda que soe diferente, ele se encaixa muito bem no conjunto da obra.

Em seguida, vem Speed of Love que ainda trás um ar de anos 1980 (até mesmo com alguns teclados e sintetizadores). Neil Peart disse que ela surgiu da motivação de escrever mais músicas sobre o amor e, não, músicas de amor, como ele havia feito em outros momentos. Double Agent retoma o experimentalismo de Alien Shore, sobretudo nos vocais. A música começa a cappella e apresenta trechos falados, dois elementos pouco explorados pela banda. Ela possui uma progressão bem interessante.

Agora, chegamos a um clássico da banda, a ótima instrumental Leave That Thing Alone. Quando o álbum foi lançado, muitos fãs pensaram haver alguma ligação entre ela e a música instrumental do álbum anterior, Roll the Bones, cujo título é Where is My Thing?. Entretanto, em entrevistas posteriores, Alex e Geddy disseram não haver qualquer conexão, fora o fato de as duas possuírem a palavra “thing” no título. Ela também possui uma sonoridade experimental bastante acentuada, mais do que as músicas anteriores. Certamente, por ser uma faixa instrumental, ela permitiu que as experimentações fluíssem de maneira mais natural. Tudo se encaixa perfeitamente, com destaque para o belíssimo solo de guitarra (ouça uma versão ao vivo aqui).

Aproximando-nos do fim do álbum, encontramos Cold Fire, que começa com um riff potente e marcante e depois passa para uma melodia mais suave. Tem uma sonoridade bem interessante, que parece fazer um resumo do álbum, misturando elementos de suas músicas mais pesadas com as mais leves. Fechando o álbum, Everyday Glory tem uma batida bastante pop, que, assim como Speedy of Love, remete brevemente ao som do Rush nos anos 1980.

Counterparts é um bom álbum, com várias músicas muito interessantes. Ele mostra o contínuo processo de experimentação, variação sonora e evolução da banda. Traz os últimos elementos dos anos 1980 e abre caminho para o som mais denso e menos experimental que começa a ser trabalhado no álbum seguinte, Test For Echo.


Lebre e Tartaruga no encarte de Counterparts

Direitos de Imagem: Rush e Huge Syme

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