• Raphael Uba de Faria

Um Concerto para Orquestra e Guitarra?

Atualizado: 30 de out. de 2020

Olá, pessoal!

Comecemos com um questionamento. E se alguém resolvesse criar um concerto para orquestra e guitarra? Seria possível? Seria loucura? E, o mais importante: ficaria bom? Pois bem... Esse concerto existe e é sobre ele que falaremos hoje!

Em 1998, o guitarrista sueco Yngwie Malmsteen apresentou ao mundo o seu fabuloso concerto para guitarra elétrica, oficialmente, Concerto Suite for Eletric Guitar and Orchestra in E Flat Minor – Opus 1. Em bom português: Suíte de Concerto para Guitarra Elétrica e Orquestra em Mi Bemol Menor – Obra 1 (falaremos sobre o título daqui a pouco). Não se trata da apresentação de uma banda com uma orquestra ao fundo, como vemos com alguma frequência no meio musical. Trata-se, realmente, de uma obra escrita para orquestra, mas que tem, como instrumento principal, a guitarra elétrica. Para nós, brasileiros, pode parecer estranho o termo “guitarra elétrica”, já que entendemos que a guitarra é sempre elétrica. Entretanto, nos outros países, o termo guitarra, ou guitarra acústica, é usado para se referir ao violão. Antes de falarmos sobre o álbum, cabem dois parágrafos explicativos sobre o autor e o título.

Malmsteen é, antes de tudo, um virtuoso, ou seja, um músico com uma habilidade fora do comum na execução de seu instrumento, capaz de realizar coisas impressionantes, combinando técnica refinada, habilidade extrema e elementos de diversos estilos musicais. Ele se destacou no início dos anos 1980 no cenário do Heavy Metal pela incrível velocidade com que toca a guitarra e por sempre se utilizar de muitos elementos da música clássica, sobretudo dos períodos Barroco e Romântico, com forte influência de Paganini, Vivaldi, Bach, Mozart, Tchaikovski e Beethoven. Ele também faz uso de uma técnica de palhetada (a maneira como bate com a palheta na corda da guitarra) fortemente influenciada pela técnica do icônico guitarrista de Jazz Al Di Meola.

Hora de entender o título! Suíte indica uma composição formada por diversas partes interligadas. Dizendo de uma maneira mais simples: um álbum em que todas as músicas, na verdade, são partes de uma única música maior. Para os fãs de Rock, podemos citar as canções Close To The Edge, do Yes, Thick as a Brick, do Jethro Tull e Hemispheres, do Rush, como exemplos de suítes. Mi Bemol Menor indica a sequência de notas musicais seguidas durante a execução da música. Sabemos que as notas musicais são Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si. O bemol indica que a nota a ser tocada se situa entre duas dessas notas clássicas, no caso do Mi bemol, entre Ré e Mi, sendo mais aguda que a primeira e mais grave que a segunda. A título de curiosidade, as notas da sequência Mi bemol menor são: Mi bemol, Fá, Sol bemol, Si bemol, Dó bemol, Ré bemol e, mais uma vez, Mi bemol. Finalmente, Opus ou Obra, é um termo utilizado para indicar uma obra de arte e vem seguido por um número. Assim, sabemos que o concerto para guitarra que estamos analisando, é a obra de arte número 1, do tipo concerto, de Yngwie Malmsteen. A famosa 9ª Sinfonia de Beethoven, por exemplo, está numerada como opus 125.

Enfim, chegamos ao concerto! Malmsteen produziu algo deslumbrante! Seu concerto é fantástico! De cair o queixo! É extremamente rico em elementos, as músicas são ótimas e a execução é primorosa. Ele conseguiu unir com perfeição a guitarra e os instrumentos de orquestra. Tem de tudo lá: violinos, violoncelos, harpa, piano, percussão, cravo, contrabaixos, trombones, tubas, trompas, trompetes, tímpanos, flauta, viola e, até mesmo, um coral! Todas as músicas foram compostas pelo guitarrista (inclusive a parte orquestrada) e são executadas pela Orquestra Filarmônica de Praga, com regência de Yoel Levi, um dos maiores maestros de nosso tempo.

Concerto Suite for Eletric Guitar and Orchestra in E Flat Minor – Opus 1

Diretos de Imagem: Yngwie Malmsteen

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Concerto_Suite.jpg

O álbum começa apenas com a orquestra, na introdução da música Icarus Dream Fanfare. A primeira aparição de Malmsteen acontece na repetição da introdução, com uma única nota tocada na guitarra entre os acordes da orquestra. Em seguida, dispara uma sequência de notas rápidas para, depois repetir o que é tocado pela orquestra e se misturar a ela. Então, a música segue, apresentando uma melodia suave e cadenciada, embora imponente (imponência, essa, característica de todo o álbum). É muito difícil não admirar e se impressionar. Que bela composição! Em seguida, o início rápido, marcante e arrebatador de Cavallino Rampante, uma música que dá mais destaque à guitarra, atribuindo à orquestra a função de acompanhamento.

A partir da terceira música, Fugue (Fuga), entramos ainda mais no clima de um concerto. Daqui em diante, quase todas as faixas possuem nomes de movimentos (à exceção da quarta), deixando completamente evidente a homenagem e a conexão com os concertos clássicos. A guitarra volta a se mesclar com a orquestra de maneira mais harmônica. É uma composição bem empolgante e tem a primeira aparição do coral.

Prelude to April é uma música emotiva, tocada apenas violão, com elementos de orquestra mais suaves ao fundo. Ela evoluiu naturalmente e sem interrupção para a seguinte¸ Toccata, ainda no violão. A guitarra e os elementos mais marcantes da orquestra estão de volta em Andante, música animadíssima. O concerto segue com Sarabande, tocada também no violão, mas com presença constante da orquestra e longe do cenário emotivo de Prelude to April. A técnica e a velocidade de Malmsteen parecem se evidenciar ainda mais.

Entrando na parte final do concerto, temos a rápida sequencia de Allegro, mais veloz e impactante, e Adagio, mais envolvente e tocante. Vivace combina elementos sóbrios e poderosos com partes mais lentas e sentimentais. Presto Vivace e Finale encerram o álbum com velocidade e alegria, mantendo o clima grandioso e a forte presença da guitarra, dos instrumentos de orquestra e do coral.

Em 2002 o Concerto foi gravado ao vivo, com a Orquestra Filarmônica Novo Japão, regida por Taizo Takemoto, e disponibilizado em CD e DVD. É impressionante testemunhar como Malmsteen é capaz de guardar tantas músicas complexas, com um sem número de notas, em sua cabeça e executá-las sem acompanhar nenhuma partitura! E, claro, é incrível vê-lo tocar. Além do álbum original, são apresentadas cinco composições mais antigas do guitarrista. Black Star - Overture (apenas orquestrada), Trilogy Suite Op.5, The First Movement e Brothers abrem o show, enquanto Blitzkrieg e a espetacular Far Beyond the Sun (com direito a guitarra tocada com os dentes e Yngwie mais solto no palco após toda a concentração exigida ao longo do espetáculo) o encerram.

Concerto Suite for Eletric Guitar and Orchestra in E Flat Minor – Opus 1 with The New Japan Philarmonic - DVD

Direitos de Imagem: Yngwie Malmsteen

Fonte:https://www.metal-archives.com/reviews/Yngwie_Malmsteen/Concerto_Suite_for_Electric_Guitar_and_Orchestra_in_E_Flat_Minor_Live_with_the_New_Japan_Philharmonic/100547/

Malmsteen descreveu a experiência de tocar ao vivo com a orquestra como “divertida, mas também extremamente assustadora”. Infelizmente, é muito difícil encontrar tanto os álbuns quanto o DVD originais hoje em dia, mas, graças às maravilhas da tecnologia, eles estão disponíveis no Youtube e os links estão aqui, logo após do texto!

O que mais dizer? O álbum é fantástico, ousado, envolvente, cativante. Há quem diga que Malmsteen foi um tanto pretensioso ao escrever um concerto e ao (supostamente) tentar se igualar a seus ídolos da música clássica. O que vejo, é que ele criou um álbum genial, que homenageia seus ídolos e que foi responsável por mudar o ponto de vista de milhares de pessoas que viam a música clássica como algo maçante e distante e de tantas outras, amantes da música clássica, que imaginavam que um instrumento “barulhento” como a guitarra jamais se encaixaria com perfeição em uma orquestra. Malmsteen, através de sua genialidade musical, conseguiu conectar dois mundos, dois períodos musicais diferentes, de maneira primorosa e envolvente. Acesse já os links e se encante com Concerto Suite for Eletric Guitar and Orchestra in E Flat Minor – Opus 1!


Link para o álbum: https://www.youtube.com/watch?v=_SbklT5x_ss

Link para o show: https://www.youtube.com/watch?v=ZKbPPuaHnxw


Uma versão desse texto também está disponível em forma de podcast nos canais do Almanaque de Arte e Cultura no Spotify e no Youtube.


CAPA

Direitos de imagem: Yngwie Malmsteen

Fonte:https://avxhm.se/music/Yngwie_Johann_Malmsteen_Concerto_Suite_for_Guitar_and_Orchestra_2005.html


Referências:


https://www.discogs.com/pt_BR/Yngwie-Johann-Malmsteen-Concerto-Suite-For-Electric-Guitar-And-Orchestra-In-E-Flat-Minor-Live-With-T/release/7574020


https://www.metal-archives.com/reviews/Yngwie_Malmsteen/Concerto_Suite_for_Electric_Guitar_and_Orchestra_in_E_Flat_Minor_Live_with_the_New_Japan_Philharmonic/100547/

https://www.descomplicandoamusica.com/escalas-musicais/

https://www.descomplicandoamusica.com/sustenido-bemol/

https://www.britannica.com/art/suite

https://www.fabianademutti.com/post/acorde-maior-menor-ou-bemol

19 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo