• Raphael Uba de Faria

Um Príncipe na Fórmula 1

O dia 14 de julho de 1914 foi de festa na corte do Sião (atual Tailândia). Comemorava-se o nascimento de mais um membro da família real, Birabongse Bhanudej Banhbandh, filho de Bhanurangsi Savangwonse, o segundo na linha de sucessão para o trono. Seu avô era o rei Mongkut, retratado brevemente nos filmes de Hollywood O Rei e Eu e Ana e o Rei. Quando veio ao mundo, ninguém poderia imaginar que aquele pequeno bebê ficaria famoso por vários motivos que não estavam ligados ao seu nascimento privilegiado.

Aos 13 anos de idade, seguindo os passos de um de seus sobrinhos (mais velho do que ele, descendente do primeiro casamento de seu pai) e do seu primo Chula Chakrabongse, Birabongse partiu para a Inglaterra, em 1927, para terminar seus estudos. Estudou no Ethon College antes de ir para Cambridge. Durante sua estada na Inglaterra, seu pai faleceu. Como sua mãe também havia falecido, quando ele tinha apenas quatro anos, ficou órfão e o príncipe Chula tornou-se seu responsável legal.

Enquanto se preparava para os exames de ingresso na Universidade de Cambridge, Birabongse se apaixonou por escultura e, apoiado por seu primo, abandonou os estudos para se dedicar à arte. Mas os acontecimentos que mudariam para sempre a sua vida e escreveriam seu nome na história, ainda estavam por vir.

Naquela época, Chula estava envolvido com automobilismo e criou uma equipe a White Mouse Racing, que utilizava carros construídos no Reino Unido. Em 1935, ele convidou Birabongse para participar de uma corrida no lendário autódromo de Brooklands. Birabongse não era um bom nome para um piloto, por isso, ele decidiu simplificar, apresentando-se, somente, como príncipe Bira. Vale lembrar que antigamente, as cores das equipes eram definidas pelo país de origem: azul para a França, verde para a Inglaterra, vermelho para a Itália, branco (depois, prata), para a Alemanha. Bira, entretanto, não gostava desse modelo monocromático e resolveu pintar seu carro de uma maneira diferente, com as cores do vestido de sua namorada da época: azul claro e amarelo. Naquele momento, ele criou as cores do automobilismo tailandês, que persistem até hoje.


Príncipe Bira antes de uma corrida


No automobilismo, Bira começou a se destacar. Ainda não havia um grande campeonato internacional, mas muitos grandes prêmios eram realizados pela Europa. Correndo com o carro de seu primo, ele conseguiu muitos resultados expressivos em 1935 e 1936, incluindo uma vitória na Copa Príncipe Rainier, em Mônaco. Nos anos seguintes, dificuldades financeiras fizeram com que suas participações em corridas ficassem mais restritas ao Reino Unido, utilizando carros com chassis mais antigos, que não eram páreo para os modelos mais novos. Ainda assim, Bira continuava se destacando, até que veio a Segunda Guerra e tudo parou.

Durante o conflito, o príncipe tailandês aprendeu a pilotar outras máquinas, os aviões, e tornou-se instrutor da Força Aérea Real britânica. Quando o conflito terminou, Bira voltou a correr, mas passou a utilizar carros da Maserati, já que a indústria automobilística britânica havia sido quase completamente destruída.



Príncipe Bira na Força Aérea Real


E foi um Maserati que Bira alinhou na reta de largada de um campeonato internacional que surgia no ano de 1950: a Fórmula 1. Competindo contra os maiores pilotos do mundo, o príncipe Bira não fez feio, apesar de não estar no nível dos mais habilidosos, como Juan Manuel Fangio, Guiseppe Farina e Alberto Ascari. Foram cinco pontos conquistados nas seis corridas do campeonato (apenas os cinco primeiros pontuavam), que lhe deram a oitava posição geral. Nas três temporadas seguintes, não conquistou nenhum ponto.

1954 marcaria sua última temporada na Fórmula 1. Sua primeira participação foi na terceira etapa, o Grande Prêmio da Bélgica, em que terminou em um honroso sexto lugar. Mas seria na corrida seguinte, na França, em que o príncipe Bira faria sua melhor corrida na Fórmula 1. Mais uma vez a bordo de um Maserati (correra também por Gordini, Connaught e Lea-Francis), após largar em sexto, ele deixou para trás os pilotos da Ferrari e, na metade da corrida estava em terceiro lugar, atrás de dois dos três carros da melhor equipe daquele ano, a Mercedes. Na ponta, Juan Manuel Fangio, rumando para a conquista do segundo de seus cinco títulos mundiais. Fazendo uma ótima corrida, muito próximo às Mercedes, Bira chamava a atenção de todos, até que veio a chuva. Seu rendimento caiu e ele foi ultrapassado por Robert Manzon, piloto francês da Ferrari, a uma volta do fim, perdendo aquele que seria seu primeiro pódio na Fórmula 1. Ainda viriam dois abandonos no Reino Unido e na Alemanha e uma nona posição na Espanha. Em 1955, o príncipe Bira correria, mais uma vez, o Grande Prêmio da Bélgica, mas acabou desistindo e se aposentando do automobilismo.



Príncipe Bira guiando sua Maserati com as cores automobilísticas da Tailândia no Grande Prêmio da França de 1954.


Ainda que não figure entre os maiores pilotos da história, Birabongse escreveu um dos capítulos mais inusitados e interessantes da história do automobilismo. Centenas de pilotos guiariam carros de Fórmula 1 depois dele, mas nenhum outro príncipe. Além disso, a bandeira da Tailândia só voltaria a figurar na principal categoria do automobilismo mundial em 2019, quando Alexander Albon (nascido na Inglaterra, mas filho de mãe tailandesa, que escolheu correr sob essa nacionalidade) fez sua estreia.

Depois de deixar o automobilismo, Bira virou velejador e participou de quatro Olimpíadas: Melbourne, 1956; Roma, 1960; Tóquio, 1964 e; Munique, 1972. Faleceu em 1985, vítima de um ataque cardíaco fulminante, dentro de uma estação de metrô, em Londres. Sozinho e sem documentos, sua identidade só foi descoberta após a tradução de uma carta, escrita em tailandês, que estava em seu bolso, endereçada a Birabongse Bhanudej Banhbandh, o príncipe Bira.

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